Morte de PM pode ser a causa da chacina que matou 37 em Manaus

Trinta e sete pessoas foram assassinadas em apenas um fim de semana.  Crimes podem estar ligados à morte de sargento da PM durante assalto.

No fim de semana passado, uma onda de violência sem precedentes deixou a população de Manaus apavorada. Em apenas uma noite, 22 pessoas foram executadas a tiro. E os assassinatos não pararam por aí. Ao todo, foram 37 mortos e dezenas de feridos ao longo de três dias.

O Fantástico conversou com um homem que teve acesso à investigação. Ele revelou quem estaria por trás dessa chacina.

“Uma crueldade que fizeram com meu filho. Muito doído. Uma surpresa muito dolorida que nunca vou esquecer. Nunca”, diz a mãe de um dos homens assassinados.

A mãe que enterra o próprio filho é mais uma das dezenas que vieram a um cemitério, em Manaus, na última semana.

No cemitério, o Fantástico tem a dimensão do massacre de uma forma mais chocante. Só em uma fileira contamos 12 pessoas assassinadas na chacina. Todas foram enterradas em covas rasas.

O dia ainda está claro, mas quase não se vê ninguém do lado de fora pelas ruas e becos da periferia de Manaus. “Ninguém sai mais na rua, não. Ninguém sabe quem anda matando as pessoas desse jeito. Aí as pessoas ficam com medo, com certeza”, conta uma mulher que não ser identificada.

Em paredes e cercas, as marcas dos tiros das três noites de terror. Em um ponto, Josenilson Bernardo, de 25 anos, morador local, foi alvo dos assassinos. Mas ninguém quer falar sobre isso.

Fantástico: O senhor pode falar com a gente sobre ele?

Homem: Não, não, que isso é coisa perigosa.

Entre as noites de sexta-feira (17) e domingo (19) da semana passada, 37 pessoas foram mortas. É mais de 15 vezes a média diária de homicídios em Manaus.

A ação dos criminosos foi rápida e coordenada. Na maioria dos casos eram dois homens em uma moto, acompanhados por um carro que dava apoio. Em uma esquina, por exemplo, do bairro Zumbi, eles executaram dois rapazes: um de 18 e outro de 23 anos que conversavam por volta de meia noite e meia de sexta para sábado.

Fantástico: Por que a polícia não foi capaz de conter essas mortes durante a madrugada?

Gilberto Corrêa, comandante-geral da PM: Policiais militares foram destacados para tentar capturar os criminosos, e lamentavelmente, naquela sexta-feira não foi possível.

Fantástico: Vinte duas mortes, comandante?

Gilberto Corrêa: Exatamente. Lamentavelmente, um fato que nunca ocorreu na história do nosso estado. Os homicídios ocorreram em locais conhecidamente de consumo e tráfico de drogas.

Sérgio Fontes, secretário de segurança pública do Amazonas: 70% dos homicídios que ocorrem em Manaus têm características de execução e são decorrentes de disputas do narcotráfico. Por espaço do narcotráfico.

Fantástico: Inclusive esses que aconteceram no fim de semana?

Sérgio Fontes: Esses eu não diria isso, porque as investigações ainda estão em curso e há uma possibilidade, eu digo possibilidade, de ser uma retaliação por conta da morte do sargento.

Na tarde de sexta-feira, dia 17 de julho, horas antes do massacre, o sargento da PM Afonso Camacho Dias morreu ao reagir a um assalto, uma “saidinha de banco”. Um caso parecido aconteceu em maio e foi filmado por câmeras de segurança.

Daquela vez, assim como agora, uma onda de assassinatos aconteceu logo depois da morte do PM, deixando 11 vítimas. A investigação até hoje não avançou.

Fantástico: Naquele episódio de maio, 11 mortes. Agora, 37. Isso não mostra uma desenvoltura muito grande desses bandidos?

Sérgio Fontes: Mostra uma briga de facções criminosas por disputa por narcotráfico ou um grupo de extermínio que eventualmente possa estar instalado nas forças policiais.

Um homem que teve acesso às investigações revela: os matadores são, sim, policiais militares.

“Toda vez que é morto um policial militar, eles se reúnem e saem matando pessoas para vingar a morte do policial militar. São de cinco a seis grupos de policiais militares. Na hora dos homicídios, as viaturas não passam nos locais onde ocorrerão as mortes. Eles geralmente matam traficantes, homicidas, mas dessa vez quem estava na frente deles, eles saíram matando”, afirma.

Foi o que aconteceu com Josenilson, filho da dona Maria Auxiliadora. Ele tinha acabado de chegar do trabalho. Josenilson não tinha passagem pela polícia.

“Ele não era de bebedeira, ele não era de estar em festa, ele não gostava”, conta Maria Auxiliadora Dias, mãe de Josenílson.

Fantástico: A senhora disse que contou seis tiros?

Maria Auxiliadora: Foi. Eu não sei quem foi que fez isso com meu filho, mas eu entrego na mão de Deus.

Um rapaz que ainda está internado também foi alvo do grupo de extermínio.

“Os caras de moto, encapuzados. Tacaram bala em mim. Quatro tiros. Só puxaram a pistola e saíram atirando”, conta a vítima.

O pai espera que a Justiça seja feita. “Porque senão daqui a pouco, eles vão fazer isso com outras pessoas. Hoje fui eu que chorei. Amanhã pode ser outras pessoas”, diz o pai.

Uma força-tarefa foi formada pelas Polícias Civil, Federal, Militar com a participação do Ministério Público vai investigar os crimes.

“Havia aí uma cronologia de atuação. Isso indica pessoas que sabiam o que estavam fazendo. Ansiamos que as autoridades desse estado tomem as medidas necessárias e cabíveis para que isso não caia no vão da impunidade. As pessoas que cometeram, mancharam a história dessa cidade dessa forma sejam devidamente punidas”, pede o presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/AM, Epitácio Almeida.

Fantástico: Você vê alguma forma de conter a atuação desse grupo de extermínio?

Policial não-identificado: Uma investigação profunda e imparcial. Coisa difícil aqui no Amazonas.

“Eu não acredito em grupo de extermínio na Polícia do Amazonas. É uma polícia que presta excelentes serviços à sociedade”, afirma Gilberto Corrêa, comandante-geral da PM.

Fantástico: O senhor não considera esse número de 37 mortos uma chacina?

Gilberto Corrêa: O que você considera chacina?

Fantástico: 37 mortos.

Gilberto Corrêa Exatamente. É um problema muito sério, infelizmente é um fato que nós queremos vivenciar jamais.

Fonte: Fantástico

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