Morre Pirakumã Yawalapiti, mais um cacique do Alto Xingu que se vai

Uma triste notícia interrompe os preparativos do Kwarup prestes a acontecer na aldeia Ipatse, aldeia central do povo Kuikuro, no Alto Xingu.  Nas vésperas do ápice da cerimônia, Pirakumã Yawalapiti sofre um infarto fulminante

Pirakumã Yawalapiti sendo barrado pela Polícia Militar do Distrito Federal na entrada do Congresso Nacional.  Mobilização Nacional Indígena, outubro de 2013.  (© André D'Elia)
Pirakumã pede calma aos policiais nas proximidades do Congresso Nacional, em Brasília, durante a mobilização nacional indígena de outubro de 2013|André D’Elia

Pira, como era chamado por todos, era filho de Paru Yawalapiti e irmão de Aritana, faz parte da geração de lideranças políticas preparadas para lidar com um mundo em rápida transformação. Seus pais, tios e avós foram protagonistas do contato dos “alto xinguanos” com os irmãos Villas-Boas ao longo dos anos 1950. Aritana foi formado para manter nos tempos atuais a admirável capacidade diplomática que seu pai desempenhou no processo de integrar pacificamente as 16 etnias que foram reunidas dentro da fronteira do que veio a se constituir como “Parque do Xingu” (PIX).

A Pirakumã coube o papel de ajudar sua família na articulação desses povos com a intrincada política indigenista. Ele assumiu para si o papel de estender para além das fronteiras do PIX o entendimento dos esforços humanistas que seus parentes mais velhos foram treinados para deixar como legado a um Brasil em constante transformação.

Pira aprendeu a ler e escrever com os irmãos Villas-Boas e aprimorou seus conhecimentos escolares com os indigenistas que se sucederam na administração do Parque a partir dos anos 1980. Quando Megaron Txukahamãe foi diretor do PIX, na década de 1980, Pirakumã chefiou o Posto Indígena Leonardo, o principal ponto de chegada e partida de pesquisadores, artistas, visitantes, médicos e colaboradores que acreditavam ser possível resguardar a integridade de povos que, até hoje, servem para construir o imaginário de um país que deu espaço para abrigar e zelar por “seus índios”.

Pirakumã foi nomeado pela Funai diretor do Parque do Xingu entre 1999 e 2002. Após esse período foi morar em Canarana, no MT, quando fundou a organização Portal do Xingu, a qual se dedicou até então, juntamente com seus filhos. Poliglota, da extirpe de uma família diplomata, Pira tentava entender, traduzir e prevenir seus parentes sobre as ameaças do contexto regional e sobre a necessidade de integrar conhecimentos e decisões políticas ajustadas a um mundo em constante transformação. O frequente convívio na cidade nunca impediu que ele estivesse no Parque para os principais acontecimentos – festivos ou não – que ocorressem ali. Admitia que não teria domínio sobre as decisões de seus netos, mas sabia que suas palavras, gestos e atitudes eram coerentes com os valores que seus pais lhe passaram, pois foram eles que construíram o que hoje ainda continua em pé.

Por: André Villas Bôas e Nina Kahn
Fonte:ISA

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Um comentário em “Morre Pirakumã Yawalapiti, mais um cacique do Alto Xingu que se vai

  • 26 de agosto de 2015 em 9:38
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    Meus sentimentos ao guerreiro Pira (Watatakalu Yawalapíitï) e toda família. Saudade deste guerreiro são votos do Grupo Guardiões da Natureza Promissave.

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