Rede de Sementes do Xingu promove encontro e associação realiza primeira assembleia

Assembleia e XII Encontro Geral da Rede de Sementes do Xingu aconteceram em Nova Xavantina (MT) com a apresentação de resultados, conquistas e planejamento dos próximos passos

A Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) realizou entre 6 e 8 de agosto em Nova Xavantina-MT, sua primeira assembleia e o XII Encontro Geral da Rede. A programação foi variada. Incluiu conversas sobre o futuro da associação a partir da eleição da nova diretoria, avaliação da Campanha Y Ikatu Xingu, troca de experiências entre núcleos de coletores, preços das sementes, novos mercados e atividades culturais.

O coordenador do Programa Xingu do ISA (Instituto Socioambiental), Rodrigo Junqueira, um dos idealizadores da Rede, falou sobre o futuro da organização, que é promissor por conta da possibilidade de seu ingresso em novos mercados (cosmético, farmacêutico, culinário e artesanato). Além disso, o cenário político esteve na pauta, com a meta do governo federal de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, o que irá aumentar a demanda por sementes florestais em todo o Brasil.

“Mais concretamente, no cenário da demanda da região do Xingu-Araguaia, existe uma expectativa quanto ao aumento nos projetos de sequestro de carbono, iguais às ações já implementadas nos municípios de São José do Xingu e de Santa Cruz do Xingu, onde existem áreas em processo de restauração com sementes produzidas pela Rede de Sementes do Xingu”, explicou Junqueira.

No ano de 2014, foram produzidas 17,5 toneladas de sementes florestais de 124 espécies florestais da região Xingu-Araguaia, gerando uma renda de R$ 344.000,00. Conforme pesquisa realizada pela Rede e apresentada pelo consultor do ISA, Danilo Ignacio Urzedo, a grande maioria das sementes comercializadas é destinada para restauração florestal, principalmente pela técnica de semeadura direta e também por meio da produção de mudas. “A pesquisa mostrou também que os compradores adquirem sementes da Rede do Xingu por conta da diversidade de espécies ofertadas, quantidade, preço, mas principalmente pela base social que forma a Rede”, falou.

Para entrar em novos mercados, isso requer esforços iguais ou até maiores aos que já vêm sendo empregados para garantir a qualidade das sementes até então utilizadas apenas para a restauração. Lembrando que a coleta de sementes para reflorestamento também é motivada pela contribuição para a conservação do meio ambiente. Em meio às conversas, os indígenas do Parque Indígena do Xingu reafirmaram que trabalham como coletores principalmente porque essas sementes irão se converter em florestas – boa parte delas empregadas na restauração de áreas na região do Xingu-Araguaia, no entorno do Parque e onde ficam as nascentes do Rio Xingu.

Porém, nem todas as sementes apresentam padrão de qualidade para serem utilizadas para o plantio e acabam sendo descartadas, podendo ser utilizadas para outros fins. Isso envolve algumas estratégias – alguns coletores produzem farinha de baru com as sementes de baru danificadas e que não podem ser plantadas. Outras sementes descartadas também podem ser utilizadas para o artesanato. Portanto, pode-se alcançar novos mercados sem sair do objetivo principal.

Sementes para Artesanato

Mônica Carvalho era professora de inglês no Rio de Janeiro até 1998, quando conheceu uma artesã em um quilombo de Minas Gerais e aprendeu a tramar cesto com o pai dela. Quando voltou ao Rio levou material, começou a fazer artesanato e a vender para seus alunos. Hoje ela comercializa artesanato e bijuterias feitas com sementes e outros produtos da natureza, para o Brasil e para o exterior. Mônica falou para os coletores sobre esse novo mercado.

Atualmente, a maior parte da produção da artista é vendida para estrangeiros. “Precisou ir lá para fora para ser reconhecido aqui no Brasil. É um complexo de ‘colonizado’ achar que o que vem de fora é mais bacana do que o que está aqui dentro”, disse Mônica, explicando que a partir disso seu trabalho ganhou mais projeção e é reconhecido como referência nesse ramo. Seu ateliê produz quadros, esculturas, objetos de casa e bijuterias.

A maior dificuldade enfrentada por Mônica é formar uma rede de fornecedores de sementes florestais sustentáveis e manter a qualidade no produto. “Por isso eu estou tão feliz de estar aqui, porque estou vislumbrando a oportunidade de, no futuro, ter fornecedores conscientes, de qualidade, sustentáveis e até chegar a ter um selo verde. Eu estou encantada pelo projeto [Rede]”.

Mônica explicou também que esse mercado requer clientes que valorizem os produtos feitos com sementes. “Até conseguir esse cliente que eu tenho na Inglaterra, um costureiro, super chique, que valoriza o trabalho”,conta ela. “É esse tipo de gente que a gente tem que procurar, uma parceria que agrega valor e que mostra que as sementes são, na minha opinião, pedras preciosas. Se você pegar uma semente que não é beneficiada e polir, aquilo se transforma numa semente linda e não requer muito técnica”, afirmou.

A Rede pelos Coletores

Um espaço especial no Encontro permitiu que os núcleos de coletores apresentassem as suas histórias, forma de organização local e resultados da atividade de produção de sementes. Conheça algumas dessas trajetórias: Ronaldo Nogueira da Silva tem 52 anos, mora em Santa Cruz do Xingu(MT) e é coletor de sementes florestais há oito anos. Ele contou que mora na região desde 1971 e vem percebendo mudanças no meio ambiente da região. “A quantidade de água que tinha, a quantidade de floresta, a quantidade de peixe e de bicho do mato, essas coisas que mudaram. E aí eu tinha na minha mente, através da diminuição de tudo isso, eu pensava como poderia mudar essa situação. Conheci a Campanha Y Ikatu Xingu e o que eu pensava estava acontecendo, havia a oportunidade de ajudar e disse: coletor eu quero ser”.

Ronaldo começou coletando sementes florestais e depois abriu um viveiro para a produção de mudas em Santa Cruz do Xingu. Ele já produziu e vendeu mais de um milhão de mudas que foram utilizadas no reflorestamento de áreas na região do Xingu. “A nossa Rede só está se ampliando cada vez mais e não sei quantas toneladas que a gente já coletou e virou árvore, recuperando nascentes e APPs [Áreas de Preservação permanente]. Fico muito satisfeito com isso, em saber que estamos recuperando as florestas”, disse.

Sobre a Rede, Ronaldo só tem elogios. “É 100% de bom, cada dia melhor, a gente vem observando que o pessoal e a diretoria trabalham muito bem, é difícil, mas eles sabem trabalhar, fazem como amor, com capricho, com carinho. Tem o nosso amigo Rodrigo [Junqueira], uma pessoa excelente que trabalha muito pela Rede, tem feito tudo o que pode. A Rede traz também um excelente resultado aos coletores na área financeira”. De junho a dezembro, Ronaldo se dedica somente a coleta de sementes florestais.

A coletora Cleuza Nunes de Paula mora no Projeto de Assentamento Macife, município de Bom Jesus do Araguaia. Ela cria peixe, produz farinha, produz polvilho, produz mudas de árvores e também coleta sementes florestais há cinco anos. “De todas as atividades que eu desempenho, a coleta de sementes é a minha paixão, o que eu mais gosto”. Dona Cleuza já era coletora antes da Rede, quando usava as sementes para a produção própria de mudas que foram plantadas em seu lote. A Rede na vida da assentada, portanto, veio para gerar uma renda a mais dentro das atividades desenvolvidas por ela.

O desdobramento da Campanha

Para refletir sobre os cenários socioambientais da região e formas de atuação, aconteceu uma conversa sobre a Campanha Y Ikatu Xingu. A Rede de Sementes do Xingu é um dos desdobramentos dessa campanha, lançada no ano de 2004, em Canarana-MT, com o objetivo de recuperar as nascentes do Rio Xingu. A pesquisadora Roseli Alves Sanches, que trabalhou na estruturação da e nos primeiros anos da Campanha, conduziu a conversa. Ela fez uma análise dos desafios e dos resultados alcançados por essa iniciativa, que reuniu de fazendeiros a indígenas.

A análise foi baseada em sua pesquisa de doutorado. “A grande pergunta desde o início da construção da Campanha, era como lidar com essas diferenças [reunião de segmentos muitos diferentes como pequenos e grandes agricultores,indígenas, pesquisadores em geral] que na época eram até mais evidentes entre o mundo dos índios e o mundo dos não índios e como entrar em um diálogo entre esses mundos para entrar no objetivo da Campanha. Eu resolvi usar isso para minha pesquisa de doutorado”.

A campanha só foi possível, por reunir em torno de um mesmo objetivo, pessoas que moram na mesma região, mas que são bastante diferentes. Roseli disse que isso foi inédito em nível regional. Para ela, um dos principais resultados da Campanha foi a criação em 2007 da Rede de Sementes do Xingu. “A formalização dessa Rede em uma associação, é um dos resultados concretos da Campanha. Ela tinha que enfrentar a missão de recuperar áreas degradadas nas nascentes e precisava de voluntários, afinal era uma campanha…. Cada um põe na sua conta a questão econômica e às vezes o produtor queria recuperar e não tinha os meios, as condições e acho que a Campanha foi desenvolvendo ações que acabaram na construção da Rede, um exemplo para atender uma demanda. Os resultados concretos de um diálogo”, relatou.

Roseli acredita que os filhos de muitas pessoas que conheceu durante o tempo que trabalhou na iniciativa e os jovens que conheceu, devem crescer com a missão dessa campanha. “Acompanhando seus pais nessa missão e tentando diminuir os conflitos anteriores que sempre existiram. Que essa juventude veja outras formas de desenvolvimento e aí a gente pode pensar em outras coisas para a Campanha, não só em recuperar o estrago”.

Eleição da diretoria

O Conselho Curador reconduziu por mais dois anos de mandato a atual diretoria da Associação Rede de Sementes do Xingu, composta por Bruna Dayanna F. de Souza, Cláudia Araújo e Acrísio Luiz dos Reis. Eles coordenam uma organização com 421 coletores de 21 municípios dos estados do Mato Grosso e do Pará.

Por: Rafael Govari
Fonte: ISA 

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