Professor lista três lições que aprendeu em aldeia xavante

Felipe Oliveira Jacinto conta que teve uma aula interrompida por um tatu que cruzou o campinho da aldeia
Felipe Oliveira Jacinto conta que teve uma aula interrompida por um tatu que cruzou o campinho da aldeia

O biólogo paulista Felipe Oliveira Jacinto foi convidado para dar aulas a crianças em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Durante seis meses, a experiência fez com que ele descobrisse como sabemos pouco uns sobre os outros e o que podemos aprender com os indígenas: “No meu primeiro dia na aldeia Daritidzé, em fevereiro, despertei com a farra das crianças e achei que tivesse perdido a hora. Eram 4h, e os meus futuros alunos já me aguardavam nas carteiras pela aula que só começaria às 7h.

Muitos tinham medo até de me olhar: a maioria nunca havia saído da aldeia e visto um ‘waradzu’ (branco).

Nascido em Barretos, no interior de São Paulo, nunca sonhara em viver numa tribo indígena. Mas, aos 27 anos e recém-formado em biologia, não pude recusar o convite do cacique Cleto Tsimrihu Pariõwa para trabalhar numa aldeia do povo xavante na Terra Indígena Parabubure, em Mato Grosso.

Acertei a minha mudança numa visita à aldeia a convite de jovens que conheci nos 12º Jogos Indígenas (uma espécie de Olimpíada dos índios brasileiros), dos quais participei como voluntário.

Passados seis meses, hoje percebo que, embora a minha missão na aldeia tenha sido ensinar, lá aprendi lições que carregarei a vida toda, como a valorizar o momento presente, saber ouvir o outro e compartilhar o que se tem.

Os A’uwe Uptabi (povo verdadeiro), como se autodenominam os xavantes, somam cerca de 15 mil pessoas que habitam nove terras indígenas no Mato Grosso.

Como várias das mais de 300 etnias indígenas brasileiras – muitas com línguas e hábitos únicos –, eles vêm sofrendo diversos impactos externos.

Decadência

Nos últimos 70 anos, os xavantes perderam territórios tradicionais – o que os deixou ilhados, cercados por fazendas e cidades –, foram assediados por missionários que buscavam ‘civilizá-los’ e viram o avanço de doenças causadas pelos novos hábitos alimentares, como diabetes, hipertensão e obesidade.

Apesar disso, a sua cultura tradicional continua bem viva. Em toda a aldeia, só cinco homens falam português, o que exige que eu tenha que aprender a língua xavante para me comunicar.

É difícil, já que não há qualquer parentesco com o português. Água se diz ‘ö’; banana é ‘pa’o’; obrigado, ‘hepari’.

Enquanto aprendo o idioma, sou auxiliado nas aulas por professores indígenas, que atuam como intérpretes. Leciono 11 disciplinas na aldeia, inclusive para adultos que não puderam completar o ensino médio.

Na primeira semana, pedi para ouvir os sonhos dos meus alunos. Ali, havia crianças que sonhavam em ser merendeiras, médicas, agricultoras, professoras e até um piloto de avião!

O início foi desafiador. Mal tínhamos lápis e borracha, e os poucos livros didáticos não tinham qualquer relação com a realidade local.

Mesmo assim, eles se esforçavam ao máximo e me pediam tarefas para casa – feitas de noite à luz de velas, mesmo após um dia de trabalho pesado.

Quem acha que índio é preguiçoso está enganado. As mulheres cuidam dos filhos, lavam roupa e louça no rio, cozinham e cuidam da roça. Os homens dividem algumas tarefas com as esposas, além de pescar, caçar ou trabalhar na escola.

Minha maior dificuldade é lavar as minhas roupas: em vez de limpá-las, acabo sujando-as ainda mais.

‘Preconceito brutal’

Tenho alunas adultas que são analfabetas e demonstram exímio raciocínio matemático. Outras se esforçam em desvendar as palavras em livros e revistas que recebemos por doações.

Eles enxergam na escola a chance de terem melhores oportunidades na vida ou de conquistarem mais respeito na relação com a sociedade ao seu redor, onde sofrem um preconceito brutal.

Eventualmente um tatu cruza o campo de futebol da aldeia durante a aula. Todos os alunos correm em disparada para capturar o animal e cozinhá-lo.

Respeito o contexto em que estou inserido, mas confesso que, no fundo, torço para que o bicho consiga fugir.

O tempo na aldeia é completamente diferente do das cidades. Há um respeito muito grande pelo momento de cada um se manifestar, por ouvir o próximo – por isso a palavra é de fundamental importância – e uma rede de solidariedade em que parentes distantes se ajudam sem medir esforços.

Hoje, tenho livros e cadernos para trabalhar na escola; amanhã, tudo pode estar devorado pelos cupins.

Ali, vive-se o agora, o momento presente, pois não há garantias de que o amanhã será bom, de que haverá comida suficiente ou de que uma criança continuará viva.

No ano passado, a cada três dias, uma criança xavante morreu por diarreia – a maior taxa de mortalidade infantil entre os povos indígenas brasileiros. Há graves falhas no atendimento médico.

Mesmo diante dessas dificuldades, sinto que nenhum retiro espiritual me possibilitaria a diversidade de lições e reflexões da vida na aldeia.

Lá, entre pessoas com cultura e hábitos tão distintos, vejo o quanto somos iguais e o quanto somos desconhecidos uns para os outros, apesar de vivermos no mesmo país.

Conviver com os xavantes reforçou o meu desejo de trabalhar para reduzir esse fosso: quero mostrar a outros ‘waradzu’ como eu o quanto podemos aprender com os indígenas e, ao mesmo tempo, ser aliados deles no enfrentamento das adversidades.

A minha experiência na aldeia mostra que todo brasileiro tem muito a ganhar ao valorizar os nossos povos originários.”

Por: Felipe Oliveira Jacinto
Fonte: BBC Brasil

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