Às margens dos trilhos da Vale famílias do Pará e Maranhão sofrem remoções forçadas

“Para operarmos com segurança e convivermos bem com as comunidades, (…), procuramos gerenciar e mitigar os riscos e os impactos sociais, bem como entender suas necessidades e demandas, para construirmos juntos, soluções que sejam sustentáveis para todos”.

A mensagem em itálico é destaque no site da empresa Vale S.A., uma contradição se comparada com os relatos das famílias que vivem às margens dos trilhos da maior mineradora do país. “Desde 2008 a Vale visita as famílias de Marabá-PA, dizendo que vai fazer remoções”. “O combinado com a Vale é de que ela não faria nada de duplicação enquanto não tirasse os moradores daqui”. “Eles disseram que iam fazer uma passagem de carros, quando nós percebemos a duplicação estava feita”.

Esses são depoimentos de moradores do bairro Alzira Mutran, localizado na cidade de Marabá, no sudeste do Pará. Eles fazem parte de um grupo de mais de 100 famílias que serão removidas pela empresa Vale S.A. por conta do processo de duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC). Estima-se que outras 40 famílias, de diferentes bairros, já foram removidas.

O projeto de duplicação da EFC, iniciado em 2012, é o maior investimento da Vale no mundo e prevê aumentos nos lucros de forma exorbitante. A empresa pretende aumentar a extração anual de 110 milhões de toneladas de minério de ferro para 230 milhões. A estrada de ferro corta 27 municípios nos estados do Maranhão e Pará, atingindo mais de 100 comunidades, dentre elas povos quilombolas e indígenas.

Famílias que têm suas casas situadas dentro da área de duplicação da EFC são obrigadas a mudarem para outra localidade. Advogados, jornalistas e pesquisadores da Rede Justiça nos Trilhos visitaram moradores dessas áreas e ouviram dezenas de relatos de irregularidades e abusos quanto ao processo de remoções realizado pela Vale S.A. Justiça nos Trilhos é uma articulação de entidades e movimentos sociais que assessoram comunidades situadas ao longo do Corredor de Carajás.

“Os moradores que já saíram (removidos) não viram nem laudos e nem contratos com o nome da empresa. O que tem na verdade é só um contrato entre moradores da casa, de quem está vendendo para quem está comprando, não tem nenhum contrato entre a Vale e a família que vai ser removida”, relata um morador de Marabá .

De acordo com Aianny Monteiro, advogada da Rede Justiça nos Trilhos, essa forma de negociação, além de apresentar irregularidades, não permite que o morador tenha opções. “A empresa se ausenta de qualquer responsabilidade, sendo apenas uma mediadora”.

Em entrevista, a Defensoria Agrária de Marabá, que tem acompanhado o caso há alguns meses, afirma que “a Vale vai retirando o pessoal mediante indenização de forma aleatória. Não tem um critério específico. A Vale vem tratando com cada morador de forma individual, ultimamente não tem reuniões coletivas”.

A Defensoria pretende ingressar com uma ação judicial, entretanto aguarda a conclusão de um laudo, resultado de duas vistorias feitas nas casas que serão removidas.

No Maranhão

No estado do Maranhão não se sabe quais e quantas famílias serão removidas pelo processo de duplicação da EFC. De acordo com a Defensoria Pública da União (DPU), a empresa Vale não apresentou os documentos necessários para um processo de remoção coletivo. A empresa precisava apresentar documentos que relatassem a quantidade de pessoas que serão removidas, de onde serão removidas e quais e quantas serão impactadas com o processo de duplicação, para além das remoções.

O respeito com as regras que hoje vigoram em relação às remoções coletivas forçadas também não é cumprido pela empresa no estado do Maranhão. A DPU ingressou com uma Ação Civil Pública incluindo pedido de liminar ao juiz para que o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Naturais e Renováveis (IBAMA), a Vale S.A. e a empresa Sinergia (contratada pela Vale para realizar as remoções), apresentassem todos os documentos que não foram exibidos pela empresa no início do processo de remoções.

A justiça se manifestou obrigando a empresa Vale a apresentar essas informações. “No pedido de liminar há a solicitação para suspensão de qualquer remoção e a paralisação das obras de duplicação da EFC, mas o juiz só vai se manifestar sobre esse e outros pedidos após a apreciação dos documentos solicitados”, explica Aianny Monteiro.

O fato de não saber a quantidade de pessoas que sofrerão com o processo de remoções demonstra mais uma imprecisão e irregularidade no processo de licenciamento da duplicação da EFC, contestado por uma Ação Civil Pública (nº 26295-47.2012.4.01.3700) em decorrência de suas ilegalidades. Além disso, de acordo com a Rede Justiça nos Trilhos, há denúncias de que a empresa Sinergia aproxima-se das famílias propondo negociações individuais e indenizações que não chegam a garantir o direito a uma moradia adequada.

Remoções de casas, valores e dignidade

De acordo com o Relatório de Insustentabilidade da Vale 2015, mais de mil famílias moçambicanas removidas pela Vale e reassentadas em outras localidades “vivem com dificuldade de acesso à água, terra, energia, em terras impróprias para a agricultura e não receberam até o momento indenizações integrais a que têm direito”.

O relatório descreve ainda o caso da comunidade de Piquiá de Baixo, situada no distrito industrial de Açailândia, Maranhão, onde 312 famílias aguardam o reassentamento para uma área livre da poluição gerada por siderúrgicas que mantêm parceria com a empresa Vale S. A. A espera prolongada deixa registros de mortes, doenças e abandonos de casas.

O processo de reassentamento ocorrido em Moçambique é um exemplo claro de que as famílias sofrem também com a remoção de valores, dignidade e vínculos comunitários. Do outro lado do oceano, uma moradora de Marabá questiona: “Eu moro aqui, criei os meus filhos aqui, já vou ter os meus netos, eu tenho os meus familiares, aí eu vou sair daqui pra outro bairro?”.

Pará e Maranhão são estados afetados negativamente pelo Programa Grande Carajás desde a década de 1970. Com a duplicação da Estrada de Ferro Carajás esses problemas aumentam e a postura da empresa concessionária da ferrovia não muda: falta de diálogo com as comunidades, promessas e acordos individualizados, para garantir o crescimento permanente dos lucros frente ao aumento descontrolado de conflitos com as comunidades e violações de seus direitos.

Fonte: Justiça nos Trilhos

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