Intensificar pecuária dependerá de tecnologia e capacitação

Estudo da UFMG mostrou que mesmo com redução de pastagens, rebanho brasileiro poderá alcançar 253 milhões de cabeças até 2030

Reduzir a área ocupada pela pecuária é a chave para o equilíbrio entre o desenvolvimento rural e a conservação ambiental. Segundo um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 15 anos a pecuária de corte pode aumentar significativamente sua produção sem abertura de novas áreas. Esse aumento, no entanto, só será possível por meio de aprimoramento técnico, gestão financeira e, principalmente, a capacitação de pecuaristas.

“Políticas públicas como o Plano ABC [Agricultura de Baixo Carbono] são fundamentais para o alcance de uma agricultura mais sustentável e de baixa emissão de carbono, mas para a pecuária, não bastam apenas esses investimentos. É preciso assistência técnica para os produtores”, afirmou Britaldo Soares-Filho, do Centro de Sensoriamento Remoto do Instituto de Geociências da UFMG e autor do estudo “Cenários para a Pecuária de Corte Amazônica”. Para o especialista, mesmo que haja recursos dentro do Plano ABC destinados a capacitar e dar assistência técnica, o resultado ainda está aquém do necessário.

Cenário inovador

A pesquisa da UFMG mostrou que mesmo com uma redução de 24% de terras para pastagens, o rebanho brasileiro poderá alcançar 253 milhões de cabeças de gado de corte até 2030, superando os atuais 211 milhões. Só para a Amazônia, o aumento da produção será de 81 para 98 milhões de cabeças, com 27% a menos de pastagens.

O estudo projetou três diferentes cenários para o futuro da pecuária de corte: um conservador, um tendencial e outro inovador. No último cenário, foi considerada a adoção de boas práticas de produção agropecuária. Aumentar a produtividade na pecuária de corte exigirá uma série medidas, como a suplementação nutricional estratégica, adubação de pastagens, manejo nas pastagens ou irrigação de pastagens, semiconfinamento e confinamento, melhoramento genético.

Entre as tecnologias defendidas pela pesquisa estão os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF), que podem ser feitos para recuperar as pastagens degradadas. De acordo com o estudo, a produtividade de uma pastagem degradada está em torno de 2 arrobas por hectare ao ano, enquanto em uma pastagem em bom estado, pode atingir 16 arrobas por hectare ao ano.

A pecuária ocupa aproximadamente 220 milhões de hectares, 70 milhões somente nos estados da Amazônia. A maior quantidade de bovinos está concentrada na região Centro-Oeste, com Mato Grosso tendo o maior rebanho do país.

O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo e é o maior exportador de carne, no entanto, apresenta taxas produtivas muito abaixo de países concorrentes. Para continuar sendo um dos principais atores nesse setor, a pesquisa ressalta, entre outros itens, melhorar a qualidade da origem do rebanho, visto que as exigências do mercado nacional e internacional por produtos baseados no bom manejo ambiental estão cada vez maiores.

Atualmente, o sistema extensivo da pecuária está diretamente relacionado ao desmatamento, uma vez que 85% de terras desmatadas se encontram em áreas de pastagens. O estudo destacou que, apesar dos avanços recentes, a pecuária de corte na Amazônia ainda apresenta baixo nível tecnológico.

Gestão financeira

No cenário inovador, de acordo com os autores do estudo, o ganho financeiro para o pecuarista seria de R$ 400 a R$ 650 por hectare ao ano. Com os sistemas tradicionais, a rentabilidade é de R$ 130 e R$ 255 por hectare ao ano.

Novamente, os bons resultados dependerão de uma boa gestão administrativa e financeira por parte dos produtores, com o conhecimento sobre o custo de produção e resultados econômicos. “Para se chegar aos resultados, o que falta é a profissionalização do pecuarista. Muitos deles sequer sabem fazer a contabilidade de suas propriedades”, observou Britaldo Soares.

O estudo identificou que o pecuarista brasileiro, sobretudo o da Amazônia, busca por melhorias para a pecuária, mas não sabe como fazer. A falta desse conhecimento faz com que não tenha o controle sobre quanto é o lucro de sua fazenda ou dos ajustes que podem ser feitos para melhorar sua renda. “Isso prejudica o pecuarista, ainda mais quando ele vai buscar um financiamento rural como o Programa ABC”.

Para incentivar pecuaristas na gestão de suas propriedades, o estudo desenvolveu o SimPecuaria, uma ferramenta de avaliação técnica e econômica da atividade da pecuária bovina de corte. A partir da pesquisa, foi elaborado também um site interativo, que apresenta o histórico e os desafios da pecuária de corte no Brasil.

Estudo completo

Fonte: Observatório ABC

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