TI Arariboia: dois meses em chamas

Incêndio já consumiu 45% da Terra Indígena Arariboia, onde vivem o povo Guajajara e os Awá-Guajá isolados, que correm risco de vida.  Indígenas afirmam que madeireiros provocaram os incêndios em represália ao combate à extração ilegal de madeira

Enquanto o mundo acompanha as tímidas negociações sobre as metas de corte nas emissões de CO2 para a COP 21, que acontecerá em Paris, o Brasil vê, impassível, a maior terra indígena do estado do Maranhão virar cinzas. O local, onde vivem mais de oito mil pessoas do povo Guajajara e cerca de 80 indivíduos isolados do povo Awá-Guajá, tornou-se palco de um drama humanitário que tem sido completamente subestimado pelas autoridades. As ações de combate ao incêndio não conseguiram controlar o fogo, que se alastra há mais de dois meses, com uma média de 145 focos de calor por dia.

O incêndio florestal, que vem se configurando como um dos maiores da história do país, já consumiu cerca de 190 mil dos 413 mil hectares que constituem a TI, o equivalente a mais de uma cidade do Rio de Janeiro. Na última semana o fogo cresceu em proporções gigantescas, registrando uma média de 560 focos novos de calor a cada dia, em meio aos esforços dos brigadistas e dos indíos, que tentam apagar uma linha de fogo com mais de 100 km de extensão.

Desde o início do incêndio, em agosto, os Guajajara denunciam o envolvimento dos madeireiros ilegais afirmando que o fogo foi criminoso e provocado como forma de retaliação às ações de fiscalização independentes que coíbem a extração de madeira ilegal, realizadas pelos “Guardiões” da TI Arariboia.

Os chamados “Guardiões” são os índios que promovem o monitoramento autônomo de seu território. Esses grupos surgiram no contexto da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas e com a missão de ajudar a difundir práticas de gestão do território. Porém, ao logo do tempo, diante da omissão do Estado brasileiro em promover a efetiva defesa do território, acabaram obrigados a enfrentar os madeireiros. Conseguiram reduzir significativamente a extração ilegal de madeira na TI Arariboia, mas sofrem com as represálias.

As denúncias dos Guajajara sobre a atuação de madeireiros para provocar o fogo estavam sendo ignoradas pelas autoridades até meados de outubro, quando fiscais do Ibama que atuavam no combate ao incêndio foram atacados por um grupo armado dentro da TI. O chefe do setor de fiscalização do Ibama em Brasília, Roberto Cabral, que foi atingido por um tiro de espingarda, afirmou ao Jornal Nacional, da TV Globo, tratarem-se de criminosos que estão roubando madeira e “se dispõem a matar para continuar a atividade ilegal”. A Polícia Federal agora vai investigar o caso.

“Lamentavelmente, o Estado precisou ter um servidor do Ibama baleado para iniciar uma investigação que prove a autoria material dos incêndios propositais que se espalham ao longo do perímetro da terra indígena, especialmente no surgimento de novos focos de incêndio ao norte da TI, na região do município de Buriticupu”, afirma Danicley de Aguiar, da Campanha da Amazônia do Greenpeace.

Veja o mapa dos focos de calor na região:

Arariboia

Índios isolados estão em risco

Além dos Guajajara, a TI Arariboia é lar de cerca de 80 índios Awá-Guajá que vivem sem contato com não-índios. O avanço do fogo, no entanto, tem colocado esses grupos em perigo. Nos últimos dias, dois indivíduos foram avistados bem próximos à linha de fogo, e os brigadistas que combatem o incêndio estão encontrando diversos sinais da presença dos Awá-Guajá no interior da TI, como abrigos e cacimbas cavadas em busca de água.

O mapa dos focos de calor mostra também que esses grupos estão praticamente cercados pelo fogo, restando a fuga para o norte, onde também surgem novos focos de incêndios desde o dia 11 de outubro. Relatos locais estimam tratar-se de uma questão de tempo para que os Awá-Guajá entrem em contato em busca de socorro.

Nos próximos dias o governo atenderá às reivindicações feitas pelos Guajajara em um protesto realizado no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília, no dia 9 de outubro, passando a utilizar aviões e helicópteros no combate direto ao incêndio, lançando mão inclusive de retardantes químicos adicionados à água utilizada no combate ao fogo. O protesto ocorreu quando 25% da área já havia sido impactada pelas queimadas. Hoje, cerca de duas semanas depois, a área de impacto já corresponde a 45% da TI. A linha de fogo chegou a ter uma distância de 325 km somando todas áreas que queimaram os últimos dias.

“Tão importante quanto combater as chamas é impedir a ação criminosa dos madeireiros que tentam impor o caos nas terras indígenas do Maranhão, numa estratégia de manter o Ibama ocupado no combate aos incêndios e dar continuidade ao saque de madeira nas TI’s invadidas”, conclui Aguiar.

Fogo também ocorre nas terras indígenas vizinhas

Além da TI Arariboia, outras terras indígenas foram incendiadas criminosamente, segundo os indígenas da região, como a TI Alto Turiaçu, que, a partir de 2013, também passou a ser protegida por seus guardiões, e que, a exemplo da TI Arariboia, continua sendo alvo de assédio madeireiro. Até 2014, segundo o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas, publicado pelo CIMI, os Ka’apor foram alvo de 4 assassinatos e 19 tentativas de assassinatos.

No início de setembro, o Greenpeace esteve com os Ka’apor para apoiar o monitoramento autônomo feito pelos índios, que passou a integrar o uso de tecnologia às atividades de proteção do seu território tradicional. Relatos locais apontam que madeireiros colocaram fogo nas bordas da terra indígena e que algumas aldeias já estão cercadas pelas chamas.

Fonte:Greenpeace

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