Xerentes são campeões no futebol masculino dos Jogos Mundiais Indígenas

Palmas (TO) - Jogo final de futebol entre Xerente e Bolívia Marcelo Camargo/Agência Brasil
Palmas (TO) – Jogo final de futebol entre Xerente e Bolívia Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em cerca de uma hora, o povo xerente foi da apatia pela derrota das mulheres para as canadenses na final do futebol feminino para a euforia pela conquista histórica do time masculino nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas.

Depois do empate em 2 x 2 com a Bolívia no tempo regulamentar, o título mundial foi decidido em cinco cobranças de pênaltis para cada lado.

Os xerentes converteram três e erraram duas, enquanto os bolivianos balançaram as redes em duas vezes e desperdiçaram outras duas vezes.

Coube ao zagueiro Felipe Xerente acertar o canto esquerdo de Diego Jachacollo, que caiu para o outro lado, e garantir o campeonato para a etnia tocantinense.

Trazendo as bandeiras de Tocantins e do Brasil, os xerentes entraram em campo entoando um canto tradicional de seu povo.

Dentro das quatro linhas, o time se sentiu em casa: com o apoio da maioria dos quase dez mil torcedores presentes, os atletas aceleraram o ritmo de jogo e travaram a Bolívia em seu campo de defesa.

Com dificuldade para sair com a bola nos pés, a Bolívia não produziu nada de efetivo nos primeiros minutos de jogo.

Quando a partida começava a ficar mais equilibrada, os xerentes saíram na frente.

Aos 16 minutos do primeiro tempo, Moisés Xerente, um dos destaques do time, apareceu nas costas da defesa, dominou a bola enfiada na grande área e tocou na saída do goleiro.

A resposta da seleção boliviana veio logo em seguida, com duas cobranças de escanteio que levaram perigo ao gol de Leandro.

A história do jogo começou a mudar depois que o centroavante Jose Almanza mostrou presença de área.

O capitão da Bolívia recebeu a bola e chutou no lado esquerdo do gol, empatando em 1×1, aos 22 minutos da etapa inicial – na final, o jogo foi dividido em dois tempos de 40 minutos, com dez minutos de intervalo.

O placar igualado deixou a partida mais truncada: os xerentes insistiam na base da velocidade, e a seleção estrangeira escapava nas falhas defensivas do adversário.

A virada e os pênaltis

A bola parada da Bolívia voltaria a fazer a diferença logo no início do segundo tempo, aos 13 minutos. Em cobrança de falta, Almanza ganhou a disputa e acabou empurrando para o fundo do gol xerente.

Foram apenas dez minutos de sufoco, com a taça indo parar nas mãos dos visitantes: aos 23, Rairan Xerente mergulhou de cabeça e fez o estádio Nilton Santos explodir.

Na reta final da decisão, a Bolívia ainda perdeu dois jogadores. Depois de ter sido advertido por falta dura, Almanza recebeu o segundo cartão amarelo por simulação de pênalti, em decisão da arbitragem bastante criticada pela seleção.

A expulsão do capitão desestabilizou o time emocionalmente e, em menos de três minutos, Willian Pereira fez duas faltas para cartão; Foi expulso.

A primeira série de pênaltis começou com três cobranças para cada time.

Roly Hurtado foi o primeiro cobrador, batendo no alto. Vanderlei Xerente acertou pelo lado dos indígenas brasileiros. Gaspar Javier desperdiçou seu chute, que passou por cima do travessão.

Ismael Xerente colocou os donos da casa em vantagem, mas Cristian Jilmet empatou.

João Carlos teve a primeira chance de acabar com o jogo, mas o goleiro boliviano foi buscar no canto superior do gol e impediu a volta olímpica.

Nas alternadas, brilhou a estrela de Leandro que defendeu os chutes de Salvador Casia e Willi Zurita.

O gol da vitória veio dos pés de Felipe Xerente, que bateu como manda o figurino: bola para um lado, goleiro para o outro.

“Ficamos meio baqueados porque as meninas perderam nos pênaltis. Assim, superamos a pressão depois de termos a oportunidade de matar o jogo. Nosso time é bem jovem, mas também tem jogadores mais experientes. Felizmente, eu pude marcar e dar o título para o meu povo”, disse o autor da última cobrança.

Homenagem ao técnico

O outro herói dos xerentes caiu no choro no momento da comemoração: “Não consigo nem falar direito. É uma honra muito grande para mim”, afirmou o goleiro Leandro Xerente, muito emocionado.

“Tem que estar sempre preparado para ajudar o time e seguir com humildade e respeito ao adversário. Agora é só comemorar”.

Moisés Xerente valorizou o espírito aguerrido da equipe: “Eu pensei que a gente ia perder, mas acreditamos até o fim”.

Interino na decisão por conta do estado de saúde do técnico Dorabel de Souza, internado após um princípio de infarto, Samuel Gomes da Silva, que auxilia a preparação física do time, dedicou a conquista ao mentor dos xerentes.

“O mérito é todo dele. Dorabel merece muito por ter uma parcela muito grande desta vitória. É um cara que se dedica, é de dentro da aldeia e é muito querido pelos xerentes”, elogia.

O treinador substituto conta o que disse aos jogadores no momento em que o time ficou atrás no placar.

“Conversamos para que eles não deixassem o ritmo cair no segundo tempo. Tentamos tocar o coração deles e mostrar importância de representar o nosso país aqui na nossa casa. Esta foi uma oportunidade única e eles assimilaram isso muito bem”.

A campanha do povo xerente

Primeira fase
Xerente 2 x 2 Pataxó
Xerente 7 x 0 Erikibaktsa

Oitavas de final
Xerente 1 x 0 Pataxó

Quartas de final
Xerente 1 x 0 Kanela

Semifinal
Xerente 4 x 0 Karajá

Final
Xerente 2 x 2 Bolívia (nos pênaltis: Xerente 3 x 2 Bolívia)

Por: Nathália Mendes
Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Kleber Sampaio

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