Programa de satélite brasileiro sobrevive a ajuste fiscal

Eduardo Bonini, presidente da Visiona, com réplica do satélite geoestacionário brasileiro
Eduardo Bonini, presidente da Visiona, com réplica do satélite geoestacionário brasileiro

Prioridade nacional desde a revelação de que a presidente Dilma foi espionada pelos EUA, em 2013, a criação de uma rede segura de telecomunicações do governo brasileiro caminha para se tornar realidade com o lançamento do primeiro satélite geoestacionário do país.

Com previsão de entrar em órbita entre setembro do ano que vem e fevereiro de 2017, o SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas) vai custar R$ 1,8 bilhão ao país.

Os primeiros equipamentos de solo que irão equipar as bases de Brasília e Rio já chegaram, e a construção do satélite nas instalações da fabricante franco-italiana ThalesAlenia Space, na França, já está “mais de 50% avançada”, diz Eduardo Bonini, presidente da Visiona, joint venture entre Embraer (51% de participação) e a estatal Telebras (49%) criada para executar o projeto do SGDC.

“Todas as datas estão dentro do cronograma.”

Embora o orçamento da Agência Espacial Brasileira não tenha passado ileso pelo ajuste fiscal promovido pelo governo Dilma (foi reduzido de R$ 300 milhões para R$ 230 milhões neste ano), a verba do programa SGDC, bancada pelos ministérios da Defesa e das Comunicações, está garantida.

Localizado a 35,8 mil km da terra, o satélite será lançado da Guiana Francesa e terá uso 10% militar e 90% civil.

Satélite brasileiro

A chamada banda X será usada para as necessidades de comunicação do governo, sob gestão da Defesa. E a banda KA será usada para atender ao PNBL (Plano Nacional de Banda Larga).

“De um lado, ficaremos livre do tipo de influência como a da Agência de Segurança Nacional dos EUA [NSA, na sigla em inglês], com uma rede segura de governo”, afirma o presidente da Telebras, Jorge Bittar.

“De outro, o satélite vai complementar a nossa rede de fibra óptica para podermos atingir áreas remotas e muito pobres e oferecer serviços de governo, nas áreas de educação, de saúde.”

Só uma dezena de países é capaz de construir o próprio satélite e fazer seu lançamento. Mas, se no passado a corrida espacial estava envolta em disputas geopolíticas entre as grandes potências, hoje a indústria é movida pela necessidade estratégica de controle e acesso a uma rede de telecomunicação.

A indústria de satélites já representa cerca de 60% da indústria espacial. Segundo a Associação da Indústria de Satélites, o setor movimentou US$ 195,2 bilhões em 2013. Só os EUA são responsáveis por 44% desse total.

Um dos objetivos do governo com o SGDC é adquirir tecnologia, por meio de um programa de absorção e transferência incluído no contrato com a ThalesAlenia, para que um dia o país seja capaz de produzir um satélite geoestacionário nacional.

“Este é o objetivo, mas esse processo não se materializa em menos de uma década”, diz Petrônio de Souza, diretor de Política Espacial da Agência Espacial Brasileira, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

APOSTA

A Visiona, que traz na bagagem a experiência da Embraer e um time de engenheiros com passagem pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), é a nova aposta do governo para estimular a indústria espacial nacional.

“Queremos reforçar a cadeia industrial nacional para que a gente tenha competência não apenas para fazer satélites de órbita baixa, mas também fazer a integração de satélites geoestacionários”, diz Bonini. “Mas esse é um plano de longo prazo, não é para dois ou três anos.”

Para estimular a demanda por satélites e diversificar seus próprios negócios, a Visiona também vai entrar no mercado de fornecimento de imagens de satélite de altíssima resolução para empresas dos mais variados setores como agricultura, construção, mineração.

A empresa acaba de firmar um acordo com quatro dos maiores operadores de satélite do mundo e que juntos contam com mais de 20 satélites em órbita.

“Nosso objetivo é que clientes nacionais ajudem a estimular a demanda para se ter mais um satélite de órbita baixa, o que poderia ocorrer em três a cinco anos.”

OBJETIVO DISTANTE

Instabilidades orçamentárias do programa brasileiro ao longo das décadas e a ênfase no desenvolvimento da capacidade tecnológica por meio de institutos de pesquisa, em detrimento do desenvolvimento de uma indústria espacial, fizeram com que o programa do país não alcançasse seus objetivos.

Desde 1997, o país contabiliza três tentativas de lançamentos de satélite fracassadas na sua base de Alcântara, no Maranhão, incluindo um grave acidente em 2003, quando 21 pessoas morreram.

Por meio do Inpe, o país é capaz de produzir cerca de 50% do conteúdo de um satélite de sensoriamento remoto, que faz observação e transmite fotos da terra com informações meteorológicas e de desmatamento, por exemplo.

Esses satélites ficam alocados a menos de 1.000 km de altura e pesam de três a quatro vezes menos do que um satélite geoestacionário.

Por: Mariana Barbosa
Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*