Dano ambiental é irreversível, dizem indígenas da Amazônia

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Enquanto em Paris os líderes mundiais discutem um acordo para conter o aquecimento global, na vastidão da Amazônia um povo indígena se mostra cético com os resultados da Cúpula do Clima, já que considera que o dano causado ao planeta não se pode mais ser revertido.

A voz do alerta é do cacique da tribo Huitoto, Hitoma Safiama. Em sua oca ele diz que a COP21 terá “apenas palavras, muita teoria e nenhuma prática”.

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Foto: Stephane Mahe / Reuters

“Vão se reunir na França, mas para fazer o que? Contra a natureza não se pode fazer nada”, afirmou à Agência Efe o cacique e xamã dos Huitotos em sua “casa”, situada a sete quilômetros de Leticia, cidade que faz fronteira com Brasil e Peru.

Hitoma conta que seu povo acredita que o “ser superior” permitiu à humanidade utilizar os bens naturais, mas “não se pode tocar o que brilha”.

“O uso do petróleo e dos minerais e o desmatamento são as causas do reaquecimento do planeta. Eles (o resto do mundo) têm que parar o que estão fazendo. Não podem continuar”, opinou.

Para o chefe dos Huitotos, não se pode atentar contra a natureza.

Quando o equilíbrio da Terra é quebrado ocorrem “desastres e calamidades” como punição e o dano feito pode ser detido, mas não revertido.

“Não é possível fazer nada. A natureza é como alguém quando sai do ventre materno, não pode entrar de novo; o mundo está girando e não retrocede”, considerou.

Sentado em uma espécie de trono feito de troncos onde masca folhas de coca quase que ininterruptamente, ele recomendou, para evitar uma degradação ainda maior da Terra e preservar a Amazônia, que “voltemos ao básico”, aos usos e costumes cotidianos.

“Temos que salvar a Amazônia. É o pulmão do mundo e sua biodiversidade deve ser patrimônio mundial da humanidade”, declarou.

Para isso, aconselhou começar colocando um fim na poluição ambiental mediante o uso de materiais biodegradáveis ou recicláveis, como o vidro e o papelão, abandonar os plásticos e “não esquecer que quem dá a comida são camponeses e indígenas”.

A aldeia dos Huitotos, a qual se chega através de um desvio na estrada que leva de Leticia a Tarapacá, é um exemplo de como é possível viver em harmonia com a natureza.

Construída no meio da selva com troncos e folhas, o local tem formato circular.

“É redondo porque é o símbolo do universo, mas tem estrutura humana”, explicou Hitoma sobre a casa cujas bases são quatro enormes troncos, que fazem as vezes de colunas e que representam “as extremidades do homem”.

O número “4” tem um significado especial para este povo porque quatro são também os elementos da natureza (terra, água, ar e fogo), os pontos cardeais, as estações do ano e as idades do homem, segundo sua cultura.

Na parte alta de cada coluna outros troncos menos robustos usados como vigas formam um quadrado, que para os Huitotos são como a clavícula, e que são amarradas com cipó como se fossem as articulações do ombro humano, detalhou o cacique.

Ao redor desse quadrado, indígenas dormem em redes, cozinham, torram as folhas de coca que depois as trituram em um tanque, enquanto as crianças brincam.

Em algumas atividades existe a divisão por sexo, com isso os homens têm seus próprios espaços e as mulheres os seus.

O centro do quadrado é uma área de encontro e não é ocupado, “porque é como a matriz de nossa mãe”. A construção é simples, mas para os Huitotos é o centro de seu mundo.

“Os hotéis mais luxuosos do mundo têm cinco ou seis estrelas, a nossa casa tem muito mais”, enalteceu o cacique, apontando para várias estrelas, pontinhos brilhantes de luz possíveis de ver por entre as folhas que cobrem o teto em seu pequeno universo no meio da Amazônia.

Por: Jaime Ortega Carrascal
Fonte: Agência EFE

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