Europa vê agronegócio brasileiro como vilão ambiental

Quando Ruud Tijssens, presidente da Federação Europeia de Fabricantes de Produtos Processados (Fefac, na sigla em inglês), foi convidado a falar num almoço organizado pelo governador de Mato Grosso, Pedro Taques, nesta semana em Paris, deu uma mostra da reputação do agronegócio brasileiro no velho continente.

“ONGs na Europa reclamam que estamos comendo a Amazônia quando compramos a soja brasileira, e eu não gosto de ouvir isso”, disse ele. “A verdade é que as pessoas não acreditam em vocês. Estou preocupado com a imagem negativa da soja brasileira na Europa”, completou depois ao Valor.

O Brasil participa da Conferencia do Clima com a maior delegação entre todos os países, com 850 inscritos, boa parte ligada ao agronegócio. Nunca o setor, responsável por fatia expressiva das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, se mobilizou tanto para dizer que é parte da solução e não do problema e que pode combinar produção e proteção ambiental.

O uso da terra é o maior responsável pelas emissões de gases-estufa. O Brasil possui 12% de toda a cobertura florestal do planeta, área que representa a maior reserva de biodiversidade da Terra. E é também um dos maiores fornecedores de comida do mundo.

O sentimento entre participantes de eventos organizados pela Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura, em Paris, é de que o Brasil tem avanços significativos em sustentabilidade, redução de desmatamento, incluindo o Código Florestal, o Cadastro Ambiental Rural (CAD) etc.

Mas pode demorar um pouco para isso se traduzir em benefícios adicionais para o produtor brasileiro no exterior. “Os mercados mantêm barreiras, achando que produtos do Brasil continuam a ser de alto risco ambiental e social”, disse Daniel Nepstad, diretor-executivo do Earth Innovation Institute, centro de pesquisa independente baseado em San Francisco (Califórnia) e com escritórios em Cuiabá, Rio Branco e Santarém.

Para Tijssens e outros participantes em Paris, vai ser necessário o setor fazer mais para demonstrar a implementação de sustentabilidade na produção de soja, carne bovina e etanol, por exemplo.

O presidente da Fefac contou que em dois anos viajou mais de dez vezes ao Brasil, procurando consolidar uma “parceria confiável” com os produtores locais. “Nos eventos brasileiros [em Paris] há poucos europeus. É preciso que os brasileiros venham contar sua história em todo lugar, especialmente no Parlamento Europeu”, disse. “Os produtores dos EUA são muito ativos para contar sua história. O Brasil precisa fazer o mesmo, porque tem o que mostrar.”

Para Ignacio Gavillan, diretor de sustentabilidade do Fórum Consumer Goods, que reúne grandes varejistas e processadores de alimentos, desde Carrefour e Walmart a Nestlé, Colgate Palmolive e Danone “continua a percepção de que a soja brasileira fomenta desmatamento da floresta. Os nossos membros têm meta de comprar o que vem de desmatamento zero. Queremos comprar mais produtos brasileiros, mas é preciso fazer mais na área de sustentabilidade”.

Brenda Brito, do Imazon, instituto de pesquisas no Pará, apresentou estudos mostrando que o desmatamento diminuiu na Amazônia, mas que no Cerrado e no Mapitoba a expansão da soja ocorreu em vegetação nativa, e portanto em novas areas desmatadas.

Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), diz que o Brasil está entrando na fase de convencer o mundo, que será um grande desafio. “O Brasil é visto como desmatador, mas estamos mostrando que o que está sendo feito no Brasil é incrível”, disse. “O Brasil tomou a decisão de adotar o Código Florestal, que vai custar US$ 100 bilhões em 20 anos. Qual é o produtor no mundo que tem obrigação de preservar até 80% de sua própria área com seus próprios recursos?”

Para Roberto Waack, presidente da Amata, empresa da área florestal, e também do conselho de administração do WWF Brasil, o agronegócio brasileiro “tem dificuldade de comunicar, mas está aqui e não é por ação de marketing” Na sua visão, o setor “sacou que, se fizermos direito a sustentabilidade, vamos estar com uma competitividade ainda maior” e o mundo vai constatar de vez que o Brasil terá custos menores para propiciar mais na transição para o baixo carbono. “Não devemos falar de custos, mas sim de ganhos.”

“O Brasil pode liderar a restauração na agricultura”, avalia Thomas Heller, presidente da Climate Policy Initiative, ilustrando uma posição comum em Paris, com a ressalva de que é preciso implementar os compromissos.

Quando Pedro Taques, governador do Mato Grosso, Estado que tem o maior rebanho de gado do país, anunciou a meta de erradicar o desmatamento ilegal até 2020, a reação foi de promessa de investimentos em projetos de pecuária sustentável por parte de fundos presentes. Para Taques, com a pecuária sustentável a produção passará de 50 para 95 quilos de carne bovina por hectare até 2030.

Nepstad, do Earth Innovation Institute, vê uma mudança nas companhias internacionais. Ao invés de exigir desmatamento zero em toda a cadeia de produção, começam a reconhecer o que um Estado especificamente faz para reduzir desmatamento e emissões. “As empresas começam a pensar apenas na gestão de riscos na cadeia deles, mas também que talvez possam colaborar no processo. Há uma mudança de lógica.”

Ele identifica o primeiro sinal dessa nova lógica vinda dos compradores de soja da Noruega, ao lançarem o compromisso liderado pela Denofa, do grupo Amaggi, reconhecendo os progressos em Mato Grosso. “É o tipo de sinalização que não existia. Importadores de Mato Grosso querem colaborar.”

Conforme Nepstad, grandes empresas como Unilever, Nestlé, Marks & Spencer, Walmart também dão sinais de migrar para uma agenda de solucionar os problemas em nível regional em vez de tentar se isolar completamente do risco. Exigir rastreabilidade total é complicado, acha ele. “A JBS deve ter 60 mil produtores que monitoram desmatamento ilegal, trabalho escravo, conflito com terra indígena, num esforço enorme, e eles ainda não sabem de onde vêm os bezerros”, exemplifica.

Depois de uma campanha do Greenpeace em 2006, o McDonald’s parou de comprar soja e carne do bioma Amazônia, mas está interessado em conhecer melhor os novos programas de pecuária sustentável na região. Mas Francisco Beduschi, diretor do Grupo de Trabalho de Pecuária Sustentável (GTPS), insiste que a pecuária brasileira “precisa fazer mais para a produção ser sustentável”.

Na Conferencia do Clima, o Brasil insistiu também que está inovando. Em debate aberto pelo ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, ofereceu compartilhar a tecnologia do etanol de segunda geração.

O banco financiou as duas primeiras usinas da segunda geração de etanol no país (há outras cinco no mundo), que usarão uma cana cuja produtividade poderá ser três vezes maior, necessitando menos água e provocando menor impacto no uso da terra.

Para substituir 10% do consumo mundial de gasolina em 2025, bastarão 7 milhões de hectares com uma combinação de etanol de primeira e segunda geração – hoje, com o etanol atual, são necessários 25 milhões de hectares.

Coutinho estimou que o etanol de segunda geração brasileiro será competitivo mesmo com o petróleo abaixo de US$ 40 por barril por volta de 2025. Pelas projeções que apresentou, o custo médio do litro de etanol de segunda geração poderá cair de US$ 0,65 em 2016-2020 para US$ 0,31 em 2021-2025.

Ele estimou que o ganho ambiental será significativo, com os carros com etanol reduzindo em 80% as emissões de gases em relação aos que usam gasolina. Ele insistiu que a segunda geração de etanol não entra em concorrência com a produção de alimentos. E que o etanol da primeira geração só representa 2% das terras aráveis cultivadas no Brasil.

O discurso de Coutinho foi recebido com calorosos aplausos. Mas em outro evento, a presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, começou sua intervenção com uma pergunta: “O setor sucroalcooleiro é de baixo carbono? A resposta é sim. E não, não fazemos etanol na Amazônia. E não, o Brasil não deixa de produzir comida para produzir etanol”.

Diante do ceticismo que encontra, porém, Farini admite que terá muito trabalho de convencimento a fazer nos próximos anos.

Por: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico

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