Florestas tropicais podem economizar 12 Brasis por ano de emissões

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As florestas tropicais do mundo, Amazônia à frente, podem ajudar a combater a mudança climática tirando o equivalente a 12 Brasis de emissões de CO2 (dióxido de carbono) da atmosfera a cada ano.

Mas esse é um cenário implausível, pois falta fazer muita coisa para chegar lá, inclusive no Brasil.

Esse potencial foi divulgado na COP21, a cúpula do clima que se realiza em Paris até sexta-feira (11).

A soma, compilada por Richard Houghton, pesquisador do Woods Hole Research Center (WHRC), think-tank dos EUA, reúne cifras de quatro artigos científicos em periódicos como “Nature Climate Change” e “Global Change Biology”.

Houghton, autor de um dos estudos, diz que eles fornecem evidência poderosa de que as florestas tropicais podem absorver e armazenar tremendas quantidades de carbono, podem ser medidas de maneira confiável e compensar um grande percentual das emissões globais de gases do efeito estufa.

A ministra brasileira Izabella Teixeira com o representante chinês Xie Zhenhua na COP21, em Paris
A ministra brasileira Izabella Teixeira com o representante chinês Xie Zhenhua na COP21, em Paris

O total projetado de emissões que podem ser evitadas por florestas equivale a 18 bilhões de toneladas de CO2 (18 GtCO2), o principal gás do efeito estufa. No ano passado, todos os setores da economia brasileira emitiram 1,5 GtCO2 (o desmatamento, embora em queda, ainda entra com quase um terço do carbono emitido no país).

A conta anual se divide assim: 3,6 GtCO2 que deixaria de ser emitida com desmatamento zero, 3,6-10,8 GtCO2 que podem ser retiradas com a regeneração florestal e mais 3,6 GtCO2 com o aumento da área florestada.

Essa redução teria de ser combinada com o congelamento das emissões de combustíveis fósseis por dez anos e depois com uma redução a 20%, até 2050, para zerar tudo até 2100.

Com isso, calcula Houghton, haveria uma probabilidade de 75% de que o aquecimento global não ultrapasse 2°C, o limiar de risco.

Outro artigo, publicado na “Global Change Biology”, apresenta o caso do Brasil como exemplo de que deter o desmatamento seria uma ambição realista.

O trabalho de Alessandro Baccini, também do WHRC, apontou a economia brasileira de pelo menos 3,6 GtCO2, entre 2004 e 2009, quando despencou a destruição florestal na Amazônia.

“O Brasil mostra que pode ser feito, e rapidamente”, disse Baccini. “Isso requer forte vontade política, contudo, e esse é um ingrediente que com frequência fica faltando, não só em países tropicais, mas também nos desenvolvidos, que precisam ajudar a financiar o esforço.”

DIVERGÊNCIA BRASILEIRA

Se a imagem do Brasil brilha para outros países na COP21, no front doméstico persistem as críticas ao governo federal, em especial no que toca ao desmatamento.

Nesta quarta-feira (9) uma carta aberta à presidente Dilma Rousseff (PT) foi lançada na COP21 por organizações como o Observatório do Clima (uma rede de ONGs) e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura (que reúne associações empresariais e ONGs). Elas pedem a revisão do processo de Redd no Brasil.

Redd é um mecanismo financeiro sob a convenção do clima para carrear recursos a quem consiga evitar desmatamento e degradação de florestas.

Governos estaduais estão insatisfeitos com a demora em definir as regras e com o controle do processo pela esfera federal.

O Planalto vai criar uma comissão nacional para regulamentar como se dará a captação, a distribuição e o dispêndio de recursos do Redd. O problema é que ela terá só dois representantes da sociedade civil entre seus 13 membros (contra oito do governo federal).

Para as entidades signatárias da carta, entre elas a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e o Comitê Indígena de Mudanças Climáticas, a comissão não garante “o equilíbrio entre governo e organizações da sociedade, a exemplo do exitoso modelo já adotado (…) na gestão do Fundo Amazônia”.

CÓDIGO FLORESTAL

Na terça-feira (8), outra coalizão –o Observatório do Código Florestal– questionou na COP21 a falta de transparência e os atrasos na implementação do código. Uma questão central é o cadastro ambiental rural (CAR), registro em que todas as propriedades rurais do país terão de declarar o quanto devem ou têm de superavit em matas preservadas.

Em alguns Estados, como Mato Grosso, 77% das fazendas já têm o CAR. Mas apenas 5% desses dados reportados de forma voluntária foram verificados, alertou Brenda Brito, da ONG Imazon.

“Não é o bastante para cumprir a INDC [meta brasileira]”, disse Brito. “É só mais um desafio.”

Mário Mantovani, da SOS Mata Atlântica, criticou a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de um projeto permitindo plantações de frutíferas na recomposição de áreas de preservação permanente que foram ilegalmente desmatadas. Há uma “sabotagem permanente” do código no Congresso, alertou.

Segundo o Observatório do Código, há 87 GtCO2 estocadas na vegetação florestal garantida pela lei em todo o Brasil. Outros 18 GtCO2 –a mesma cifra que as pesquisas indicam poder ser poupada a cada ano no mundo todo– se acham armazenadas em reservas nacionais de mata que podem ser legalmente derrubadas.

Para evitar que esse carbono todo chegue à atmosfera, dizem associações e ONGs, o governo brasileiro precisa criar mais incentivos financeiros e legais à preservação.

Por: Marcelo Leite e Leandro Colon
Fonte: Folha de São Paulo

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