‘O cofre do futuro é a biodiversidade’

Pesquisadora alemã fez vários estudos sobre a Amazônia e veio ao Rio lançar um livro sobre a vida na BR-163 (Cuiabá-Santarém), frente de expansão da soja

Para a pesquisadora, equilíbrio entre progresso e preservação está nas medidas a longo prazo - Ana Branco / Agência O Globo
Para a pesquisadora, equilíbrio entre progresso e preservação está nas medidas a longo prazo – Ana Branco / Agência O Globo

Regine Schönenberg, cientista política: “Tenho 54 anos e nasci em Aachen, na Alemanha. Minha primeira viagem para a Amazônia foi em 1987. No doutorado, estudei o conflito de terras no sul do Pará. Nos últimos cinco anos, fiz parte de uma equipe multidisciplinar que pesquisou a ocupação na BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA)”

Conte algo que não sei.

A maioria dos migrantes que vivem próximo à BR-163 (Cuiabá-Santarém), que estudei nos últimos cinco anos por ser a frente de expansão da soja, é loura de olho azul. Muitos falam hunsrück, um tipo de alemão de 250 anos atrás. São migrantes que vêm do Sul, de São Paulo e do Paraná.

Por que eles migram?

Muitas das famílias que vieram eram grandes, tinham 12, 13, 14 crianças e aí a terra não deu. No Sul, a competição com o agronegócio é alta e a terra fica cara. Então, eles vão para o Norte em busca de uma vida melhor, de terra e de liberdade.

Essa migração provoca conflitos na região?

Em cada pedaço do Brasil há conflitos diferentes. No sul do Pará, por exemplo, os conflitos de terra envolvem grandes latifundiários e pequenos posseiros. Na BR-163, os principais conflitos são com o Estado. No caso dos assentamentos da reforma agrária faltam escolas, infraestrutura, crédito. Já os grandes fazendeiros entram em conflito com o Estado porque têm terras não tituladas e não têm a reserva florestal obrigatória. Eles também queimam o capim, o que é proibido por causa da emissão de gases do efeito estufa.

Por que você foi estudar essa estrada?

Em uma área de expansão da fronteira há uma transformação social muito rápida. Novas pessoas vêm, uma estrada é aberta e rapidamente tudo se transforma e vão surgir conflitos. Daí a pergunta principal do meu trabalho é como incluir as pessoas nesse processo. Porque se houver privilegiados, se a impunidade é generalizada, aí você tem grilagem de terra, violência e pistolagem.

Quais são as saídas possíveis para estes conflitos?

O Brasil tem uma legislação agrária e ambiental muito boa, muito avançada. O problema é que as instituições são fracas, não têm recursos suficientes. Faltam funcionários onde você mais precisa. Na Amazônia, você tem municípios do tamanho de Luxemburgo e só dois funcionários do Ibama. Esses dois coitados, geralmente jovens, sofrem pressões por todos os lados e são encarregados de implantar a legislação. Não vai funcionar. Felizmente, há algumas ótimas iniciativas.

E quais são elas?

O programa Terra Legal, por exemplo, que visa titular terras de uma nova maneira. Eles fazem um mutirão em locais com alto índice de conflitos de terras. Representantes de vários órgãos do governo se sentam frente aos fazendeiros que querem se regularizar. Isso funciona muito bem. O Estado precisa entender o quão necessário é investir nesses processos. Se não for agora, os conflitos serão mais caros depois. O Estado tem que investir na legalização.

Muito se discute sobre a necessidade de preservar a Amazônia ou de explorá-la economicamente. Como você vê essa situação?

Isso tem que ser visto como um processo. Um problema está nas soluções imediatistas. Se tudo está sendo orientado para o lucro agora, o Brasil vai perder o cofre do futuro, que é a biodiversidade. O Brasil é um país de alta biodiversidade, que vai ser a base de biotecnologia, e já não é uma boa ideia do ponto de vista econômico destruí-la. Outro problema é a utilização de pesticidas. Na terra, há uma série de processos bioquímicos. Se você destrói a vida bioquímica do solo com esses produtos, vai criar um deserto.

Fonte: O Globo

Deixe um comentário