Poesia marginal da Amazônia

Escritor independente chamado de Bukowski da Amazônia criou a Flipobre e lançará sétimo livro, agora pela Record

image“Eu morei na rua, fui preso, cinco internações em clínicas, passei fome, passei por coisas fodas, fui atrás do sonho na Europa, acabei no crack de São Paulo. E sobrevivi. Agora estou escrevendo. É isso o que interessa”. Veloz como uma metralhadora que dispara vômitos de uma vida sem purpurina, o amazonense Diego Moraes, 33, conta sua trajetória de morador de rua à escritor publicado até em Portugal. “Posso dizer que consigo pagar o tira-gosto e a cerveja da sexta-feira. Daqui a três anos pretendo comprar meu Uno 97”, ele brinca, em entrevista ao Magazine que deveria ter acontecido na terça-feira de Carnaval, mas o poeta avisou no melhor estilo Bukowski: “Me liga na quarta, amanhã (terça) eu vou chapar”.

Descoberto na internet por uma editora mineira e chamado de Bukowski da Amazônia, pelo seu estilo cinematográfico, direto e lírico, mas nada rebuscado, Diego está prestes a lançar o primeiro romance por uma grande editora, a Record – o sétimo livro na carreira –, prometendo fazer barulho no conservador mercado editorial brasileiro.

Longe da formação padrão de escritores contemporâneos, Diego Moraes diz que “ler Machado de Assis na escola era uma chatice porque era difícil entender”. Suas maiores inspirações na adolescência eram os filmes da “Sessão da Tarde”, os primeiros porres de cerveja aos 15 anos e as ruas de Manaus. Nada intelectual demais. “Comecei a escrever com 17 anos e não tinha nenhum contato com livros. Eu prestava muita atenção nos diálogos dos filmes da TV pelo jeito direto e engraçado como eles se davam. Mas só escrevia merda naquela época”, diz.

Boêmio.  O escritor Diego Moraes posa em frente a um bar de Manaus, no estilo Bukowski
Boêmio. O escritor Diego Moraes posa em frente a um bar de Manaus, no estilo Bukowski

Aos 21 anos, Diego Moraes estava em outra. Chegou a se mudar para São Paulo com a namorada para passar algumas semanas pela capital paulista, pensando em seguir para Barcelona. “Deu tudo errado. Meu dinheiro acabou, ela foi embora, morei na rua, voltei para Manaus com o rabo entre as pernas. Não morri, ainda bem”, desabafa o poeta.

Hoje leitor de Charles Bukowski, Dostoiévski, John Fante e Franz Kafka, Moraes divide seu tempo entre o emprego numa gráfica e os livros que ele escreve como uma máquina de xerox capaz de produzir sentimentos tão fortes em tempo recorde. “Não vou ficar um ano num livro, cara. Na boa. No máximo, seis meses”, ele diz.

Toda a repercussão da literatura de Diego veio a partir de 2010. Após inaugurar o blog Urso Congelado com pílulas textuais, poemas, contos e histórias soltas, o escritor chamou a atenção das editoras e de um público fiel na internet.

Tanto que sua estreia veio de forma independente, com o livro “Saltos Ornamentais no Escuro” (2008), impresso na gráfica em que o pai trabalhava, com apenas 400 exemplares, a pedido de fãs. “A galera curtiu porque são contos que transam com prosa, cinema, roteiro, tem muito diálogo que parece o que a gente fala no dia a dia mesmo”, conta Diego.

De cara, o que mais chama a atenção na literatura de Diego Moraes é o seu lirismo que escorre como o suor na testa de um trabalhador da construção civil ou de um engravatado no Congresso Nacional: natural e comum à qualquer um, abrilhantado por percepções que fazem de um lance trivial, algo sensacional.

E isso aparece bem nos títulos arrasadores de suas obras. “A Fotografia do Meu Antigo Amor Dançando Tango” (2012) e “A Solidão É um Deus Bêbado Dando Ré num Trator” (2013) foram publicados pela editora Bartlebee, de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, que descobriu o escritor na internet. Depois, veio a repercussão internacional, “Um Bar Fecha Dentro da Gente” (2015), publicado pela editora portuguesa Douda Correria. “A editora me achou no Facebook, gostou e quis publicar lá fora. Foi um passo e tanto”, diz. No mesmo ano, ele integrou a antologia “70 Poemas para Adorno”, lançada no Festival Literário da Madeira, reunindo textos de 70 autores lusófonos – entre eles o também brasileiro Gregório Duvivier.

No mês passado, Carlos Andreazza, editor da Record, publicou em seu Facebook um comunicado elogiando Diego Moraes e dizendo “acreditar na literatura desse cara”. O livro será o primeiro romance do poeta de Manaus, batizado provisoriamente como “A Vida Bate Forte”, e deverá ser entregue à editora entre agosto e setembro deste ano. “Vou assinar com a editora depois de entregar o livro. Já temos conversado sobre um segundo livro pela Record, as coisas estão fluindo. Isso é o melhor”, diz Diego.

Literatura independente. Além da explosão de uma literatura comum, pé no chão e muito vívida, Diego Moraes organizou, com escritores parceiros, como o paraibano Roberto Menezes, a Feira Literária dos Pobres (Flipobre) – uma crítica ao nicho intelectual que cerca a tradicional Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

“Foi uma forma de tirar um sarro com escritores famosos que se vitimizavam por não estar nos circuitos (literários). Eu via os caras reclamando e achava patético. Como assim você só é considerado escritor quando é chamado para a Flip? Aí eu resolvi fazer a Flipobre com escritores do Nordeste e do Norte, escritores feios, passadores de fome, que mal conseguem pagar a internet que usam para publicar seus textos”, conta Diego.

Em duas edições, realizadas em 2014 e 2015, a Flipobre reuniu diversos autores brasileiros para bate-papos por chat e YouTube, discutindo rumos da literatura brasileira, produções independentes, novos autores etc. “Foi uma forma de pessoas que me acompanhavam na internet também visualizarem outros escritores, darem repercussão a eles também. Esse é meu desejo para a literatura”, completa o escritor amazonense.

Por: Lucas Simões
Fonte: O Tempo

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