Roraima tem pior seca em 18 anos e corre risco de novo megaincêndio, dizem especialistas

Dos 15 municípios do estado, 13 decretaram situação de emergência por conta da estiagem.  70 mil pessoas já foram afetadas diretamente

Roraima vive a pior seca em 18 anos.  A estiagem agrava o cenário de incêndios florestais desde o fim do ano passado.  Em janeiro, foram registrados 1.754 focos de calor.  Em outros anos, no mesmo período o número de focos costuma manter-se em torno de 450.  As informações são da coordenação estadual do Centro Nacional de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PrevFogo), órgão do Instituto Nacional do Meio Ambiente (Ibama).  Nos últimos anos, a média foi de 1.596 focos para todo o ano.

A estiagem levou o Rio Branco, principal do estado, ao menor nível já registrado.  As colunas da Ponte dos Macuxi, em Boa Vista, estão expostas por causa da estiagem | F5 Produções - Alex Barroso
A estiagem levou o Rio Branco, principal do estado, ao menor nível já registrado. As colunas da Ponte dos Macuxi, em Boa Vista, estão expostas por causa da estiagem | F5 Produções – Alex Barroso

Roraima tem 15 municípios. A falta de chuvas levou 13 a decretar situação de emergência. Os mais atingidos são Caracaraí, Rorainópolis, Iracema, Mucajaí e Caroebe. Cerca de 70 mil pessoas, ou 15% da população do estado, já foram afetadas diretamente. O Rio Branco, principal do estado, atingiu sua menor marca histórica, com 47 centímetros abaixo da marca inicial de medição (veja fotos no corpo da reportagem e na galeria ao final dela). A expectativa é que as primeiras chuvas só cheguem no início de abril.

“Caso a população continue gerando novos focos queimadas e incêndios, desrespeitando todos os avisos e determinações para parar com o fogo, podemos afirmar com alta probabilidade de que o Estado será levado a enfrentar uma tragédia anunciada de dimensões próximas ou até maiores que em 1998”, afirmaram os pesquisadores da Haron Xaud e Maristela R. Xaud, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Roraima, em artigo publicado, nesta semana, no site Roraima em Foco (leia aqui).

Crianças indígenas sofrem especialmente com os efeitos da fumaça.  Na imagem, criança da TI Yanomami recebe nebulização | Prevfogo-Ibama-MMA
Crianças indígenas sofrem especialmente com os efeitos da fumaça. Na imagem, criança da TI Yanomami recebe nebulização | Prevfogo-Ibama-MMA

Em 1998, um dos maiores incêndios florestais da história mundial recente consumiu quase 40 mil km² de Roraima, 18% da área total do estado e o equivalente ao território da Suíça (saiba mais no quadro abaixo).

O coordenador estadual do PrevFogo, Joaquim Parimé, diz não ter dados sobre perdas econômicas do incêndio atual, mas informa que já foram destruídas pontes, postes de transmissão elétrica, lavouras, pastagens. Há registros de muitas mortes de animais silvestres e domésticos. “Os prejuízos são todos: ambientais, sociais, econômicos”, conclui.

“Há três anos, a gente vem sofrendo com a estiagem, e acentuou este ano devido ao El Niño”, afirma Rogério Martins, diretor da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh). O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, com profundos efeitos sobre o clima global. O El Niño ocorre periodicamente e faz o clima da região norte do país ficar mais seco e quente.

Terras Indígenas

Após análise de dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), o geógrafo do ISA Estêvão Senra avalia que a situação é preocupante nas Terras Indígenas (TIs) do estado. O número de focos de calor é maior nas Tis Raposa Serra do Sol, São Marcos e Waiwai, além da Yanomami. No entorno desta, o Ibama montou duas brigadas especiais para o combate às chamas.

O fogo tem fortes impactos para as comunidades indígenas de Roraima. Senra afirma que há muitos indígenas na TI Yanomami, principalmente crianças, com problemas respiratórios em decorrência da fumaça proveniente do fogo ocasionado dentro e fora da TI. O transporte de equipes médicas e medicamentos é prejudicado, pois a fumaça reduz a visibilidade e dificulta o acesso às aldeias mais remotas, feito por aeronaves.

“O cenário que [o fogo] cria, a médio prazo, é que vai ter um problema de crise alimentar grave nas comunidades indígenas, se nada for feito para contornar esta situação”, afirma Senra. Ele explica que o fogo afugenta e mata animais, além da destruir culturas agrícolas. A estiagem também faz com que muitas comunidades fiquem sem acesso a água de qualidade para beber.

Há também impactos sobre os ecossistemas locais. “[Com o incêndio] você cria uma espécie de ciclo vicioso, onde espécies resistentes vão prevalecendo e as menos resistentes deixam de prevalecer. Então, necessariamente, você tem uma perda de biodiversidade”, explica o geógrafo.

Causas

“A maioria dos incêndios tem origem humana e é provocada ou de forma criminosa, o que é a maioria, ou de forma acidental”, informa Cleudiomar Ferreira, secretário executivo da Defesa Civil de Roraima.

Parimé acrescenta que a principal causa acidental, vinculada ao desconhecimento da população, é a queima de áreas para a implantação de pastos e roças. Ele também diz que há um percentual menor de fogo que surge de atividades como a queima de lixo doméstico, extração de mel e extração ilegal de madeira.

Fonte: ISA
Fonte: ISA

“O fogo acaba sendo uma ferramenta de grilagem, porque as pessoas tocam o fogo propositalmente para derrubar a floresta e plantar pastagem”, diz Senra. A estratégia é utilizada por produtores rurais com o objetivo de tomar posse de terras públicas, uma vez que pastagens são consideradas benfeitorias e condição para a reivindicação dessas áreas. “A maioria dos focos de calor está concentrada em áreas quentes do ponto de vista de ausência de regularização fundiária e de grilagem, que são o sul do estado e a região de Campos Novos e Iracema”, acrescenta o geógrafo.

Carência de efetivo

De acordo com Parimé, o PrevFogo conta com 135 brigadistas contratados para o combate às chamas, e espera receber mais 45 até o fim da semana. Além disso, há dois helicópteros, 17 viaturas e motobombas apropriadas para incêndios florestais, entre outros equipamentos. O Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) também tem funcionários atuando diretamente no combate ao fogo. Ferreira informou que a Defesa Civil de Roraima tem mais de 500 profissionais empenhados no combate ao incêndio.

“Apesar de estarmos com todo nosso efetivo empregado, há uma carência de efetivo, há uma necessidade de recurso”, avalia Ferreira. Segundo ele, foram solicitados 90 profissionais da Força Nacional de Segurança, auxílio do Corpo de Bombeiros do Amazonas e apoio do Exército.

“A governadora já solicitou, via Ministério da Integração, com apoio do Ministério do Meio Ambiente, recursos federais para aumentar o nosso efetivo, com vinda de corpo de bombeiros de outros estados”, informa o diretor da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (FEMARH), Rogério Martins. O governo estadual anunciou a contratação de 150 brigadistas.

“O contingente atual, se a coisa ficar crítica, não dá conta. Temos de trazer gente de fora. E não é só trazer gente, tem de trazer equipamentos, materiais, máquinas, insumos para poder fazer esse combate”, afirma Parimé.

“A semelhança [entre a situação atual e a de 1998] é o número de focos, que são parecidos. Mas a grande diferença é que hoje a gente está com toda a infraestrutura, o apoio, até a tecnologia mais voltada para este combate”, diz Rogério Martins.

Ferreira explica que boa parte das áreas que queimaram em 1998 hoje são pastagens e plantações. Assim, a área de florestas primárias queimadas até o momento é bem menor do que em 1998.

“Nós temos hoje uma densidade populacional maior nessas áreas onde ocorrem os incêndios, mas, em compensação, o Estado brasileiro […] tem um domínio bem maior da questão de prevenção e de controle do que a gente tinha em 1998”, afirma Parimé. De acordo com ele, isso faz toda a diferença: “se a gente não tivesse esse know-how de trabalho [na situação atual], a gente estava correndo sério risco de ter um incêndio não igual a 98, mas o dobro ou o triplo”, afirma.

O grande incêndio de 1998

Entre o final de 1997 e início 1998, Roraima registrou um dos piores incêndios florestais da história mundial recente. O fogo atingiu uma área de quase 40 mil km² e destruiu em torno de 12 mil km² de florestas primárias. A área impactada representou aproximadamente 7% de todos as florestas de Roraima, ou cerca do dobro de toda área desmatada até aquele ano, aproximadamente 6 mil km². As principais frentes de fogo estendiam-se por cerca de 400 km lineares.

Além do clima extremo e da ocupação desordenada da floresta, Roraima tem algumas características que favorecem o surgimento de grandes incêndios florestais. Um deles é a presença do “Lavrado”, a maior savana do bioma Amazônia, onde naturalmente chove menos e onde a ocorrência de queimadas é mais frequente do que na floresta. O norte de Roraima é também a região que apresenta a maior incidência de ventos na Amazônia.

Mudanças climáticas na Amazônia

De acordo com os cientistas, as mudanças climáticas vão intensificar a frequência e intensidade de fenômenos como o El Niño, que causa secas e intensifica o calor em alguns locais, como acontece em Roraima, e em outros provoca tempestades e inundações.

As mudanças climáticas representam uma ameaça grave para a Amazônia. A região pode sofrer com secas extremas, incêndios e savanização se o aquecimento global e o desmatamento (uma das causas da emissão de gases de efeito estufa) não forem controlados. Dados do relatório “O prejuízo oculto do fogo: Custos econômicos das queimadas e incêndios florestais na Amazônia”, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Centro de Pesquisa Woods Hole, mostra que, em 1998, os incêndios florestais, acentuados pelo El Niño, causaram um prejuízo de, no mínimo, US$ 102 bilhões em toda a Amazônia brasileira. Naquele ano, o fogo na Amazônia foi responsável por 13 mil internações associadas a doenças respiratórias.

No relatório O futuro climático da Amazônia, o agrônomo Antônio Donato Nobre escreve: “Se escolhermos continuar no ritmo ‘deixa-como-está-para-ver-como-é-que-fica’ (business as usual), e principalmente se optarmos por não recuperar os estragos infligidos à grande floresta, a teoria sugere que o sistema amazônico pode entrar em colapso em menos de 40 anos. Os limiares de desmatamento nos quais as simulações indicavam ruptura do sistema climático atual estão se aproximando. Os efeitos locais e regionais no clima já estão sendo observados muito antes do esperado, especialmente ao longo das zonas mais devastadas, mas também nas áreas mais afastadas que dependiam da floresta para sua chuva”.

Por: Victor Pires
Fonte: ISA

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