Usina de beneficiamento de polpa de frutas será implantada em comunidade no Amazonas

Polpa de frutas frescas, para consumo e para comercialização. Esse desejo dos moradores da comunidade Boa Esperança, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (AM), já está próximo a se realizar. Os moradores estão se organizando para a instalação de uma usina de beneficiamento de polpa de frutas. A previsão é de que o Instituto Mamirauá faça a implementação da usina, financiada pelo Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES, ainda no primeiro semestre deste ano.

No final de janeiro, a equipe do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, esteve na comunidade para realizar a 1ª oficina do projeto. Durante os dois dias de atividades, foram discutidas questões como a produção anual dos agricultores da comunidade, a identificação de frutas potenciais para a atividade, o calendário de produção e as etapas de processamento das frutas. Também foram definidos tópicos referentes à organização da comunidade para as obras e outros encaminhamentos do projeto.

“Essa ação, que está sendo promovida, tem como finalidade ajudar os agricultores na conservação da floresta. Estamos fazendo uma oficina, junto com os agricultores e as pessoas interessadas em participar, que tem como objetivo principal incentivar o aproveitamento da produção local de frutas”, disse Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá.

Fernanda ressalta que o projeto propõe a instalação de um sistema de energia solar fotovoltaica para o funcionamento dos equipamentos. “Junto com essas oficinas, a comunidade vai ser contemplada com três freezers, um sistema de energia solar bem robusto para alimentar esses equipamentos com energia, um sistema de captação de água da chuva e um sistema de captação de água de poço. A ideia é que esses sistemas de captação das águas tragam água de qualidade para o funcionamento da usina e melhore o acesso à água tratada para toda a comunidade”, reforçou.

Considerando o período da cheia, a comunidade está localizada a aproximadamente 120km de Tefé, município mais próximo, onde os agricultores familiares costumam vender sua produção. De acordo com Jesuy Tavares Monhões, presidente da comunidade Boa Esperança, grande parte da produção de frutas é desperdiçada, em função das dificuldades de transporte para a cidade ou de armazenamento na própria comunidade. A iniciativa vem como uma proposta que visa geração de renda e melhoria da qualidade de vida dessa população.

“Hoje, a produção é vendida para a cidade. Existe essa variedade de mercado. Mas, a maioria da produção finda mesmo se estragando aqui, na própria comunidade. Pra levar uma quantidade de produção pra Tefé, se estraga. E, se for avaliar, o preço não compensa”, afirmou Jesuy. A viagem para Tefé é feita geralmente de canoa com pequeno motor e pode durar 10 horas, a depender da época do ano e do fluxo do rio. A alta temperatura da região e o modelo de transporte contribui para uma perda rápida da produção agrícola.

A comunidade não é abastecida pelos sistemas públicos de água, luz e saneamento. Para alimentar com energia alguns equipamentos domiciliares, um gerador a diesel funciona cerca de três horas por noite. Algumas famílias têm em suas casas freezers que contribuem para o armazenamento de alimentos, mas não seria o bastante para o congelamento de polpas de frutas e outros perecíveis, por exemplo.

“O pessoal daqui teve uma visão de colocar sítio, trabalhar com agricultura. E aqueles que tiveram essa visão, esse sonho, hoje já estão realizando. Primeiro que eles já conseguiram o que eles queriam que era formar um sítio e agora vem aquela demanda de frutas estragando e aí surgiu a ideia de correr atrás das possibilidades de aproveitar a nossa produção”, explicou Jesuy.

Durante o encontro, Fernanda destacou que a comunidade apresentou uma proposta para o Instituto, identificando a necessidade de um projeto que contribuísse para a organização dos produtores locais e o aproveitamento da produção agrícola. “Boa Esperança foi identificada como uma comunidade que já tem uma grande produção de frutas, demonstraram interesse e apresentaram uma proposta”, disse.

“Hoje a comunidade tem na base de uns 70 produtores. Algumas frutas que têm na comunidade são açaí, cupuaçu, araçá, taperebá, goiaba, buriti, abacaxi. Essas são as que eu tenho em mente que existem com potencial na comunidade para botar as coisas pra funcionar”, disse Jesuy.

Fernanda ressaltou a importância da participação de toda a comunidade, sejam jovens, adultos, homens ou mulheres. “Esse é um trabalho que envolve todos os comunitários, os agricultores, as agricultoras, e quem tem interesse, todos são bem-vindos e têm muita informação para contribuir”, afirmou.

Conceição de Deus Laranjeiras é moradora da comunidade há mais de vinte anos. Ela conta que o trabalho com agricultura é uma tradição familiar. Filha de agricultores, criou 11 filhos que também trabalham com agricultura, assim como ela, que trabalhou até aposentar. “Eu estou animada, é importante as mulheres participarem também. Elas podem ajudar a lavar, despolpar, cortar, embalar, todo trabalho é importante”, contou.

A usina

A comunidade já possui o espaço onde será implementada a usina. Como contrapartida, os moradores da Boa Esperança se comprometeram a reformar e fazer as adequações necessárias ao espaço, assim como construir a base para o sistema de captação de água do poço artesiano. “Hoje eu vejo que a comunidade em si está integrando, quer saber o que é, quer participar, a comunidade está inserida”, comentou Jesuy.

O técnico em tecnologias sociais do Instituto Mamirauá, Otacílio Brito, reforça que os sistemas de captação de água vão atender a dois objetivos: o funcionamento da usina e o abastecimento da comunidade.

“A água vai ser para uso na usina de beneficiamento de polpa de frutas, de forma especial, porque eles vão manipular alimentos e precisam de água de qualidade. Então, além de ser uma água de poço, essa água também passa por um processo de tratamento por filtros. Eles vão ter provavelmente 25 litros de água por dia o que, com certeza, vai atender a demanda da comunidade” reforçou Otacílio.

Otacílio também ressaltou que “o sistema de energia solar fotovoltaica, que será instalado, tem um diferencial: vai ser um sistema híbrido, para funcionar tanto com energia solar quanto com energia da mini termoelétrica da comunidade. Então, em dias que não tiver sol, também será possível aproveitar parte da energia do gerador da comunidade para carregar as baterias para alimentar o sistema”.

Fernanda afirma que o próximo passo, após a instalação dos equipamentos, é a construção do regimento interno. “A ideia é que o regimento apoie a organização e gestão do uso desses equipamentos. O Instituto vai, junto com a comunidade, construir esse documento e apoiar essa organização”, reforçou.

Fonte: Instituto Mamiraua

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