No Dia Mundial da Água, 509 mil pessoas ficarão sem abastecimento em Manaus

Além disso, foram recomendadas multas a Manaus Ambiental, aplicadas pela Prefeitura

No Dia Mundial da Água, hoje, mais de meio milhão de pessoas vão ficar sem o abastecimento de água potável na capital amazonense. Em Manaus, o dilemma da falta de água nas torneiras, regularmente, fez com que, em 2015, a Agência Reguladora dos Serviços Públicos Concedidos do Amazonas (Arsam) recomendasse a aplicação de multas no montante de R$ 6,3 milhões à Manaus Ambiental.

De acordo com o relatório da Arsam, após comprovar a “manutenção inadequada, má prestação de serviços nas zonas leste e norte” e que melhorias físicas, indicadas pela agência, não foram executadas, a instituição solicitou, à Prefeitura de Manaus, a punição. Segundo o presidente da Arsam, Fábio Alho, todas as multas foram aplicadas.

Ao todo, no ano passado, seis multas foram recomendadas, onze advertências aplicadas e 13 notificações registradas pelo órgão devido às falhas na prestação dos serviços.

Falta d’água

Desta vez, a Manaus Ambiental comunicou que uma manutenção em bombas do Programa Águas para Manaus (Proama), irá interromper o abastecimento de água em 34 bairros, nas zonas norte e leste da capital, que atinge 509.403 pessoas. Os moradores que estão tendo dificuldades, desde ontem, ainda terão que enfrentar a escassez de água até a quinta-feira, conforme a empresa.

A estimativa de pessoas prejudicadas foi feita com base nos Indicadores de bairros do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – a concessionária de água não forneceu ao DIÁRIO o quantitativo oficial.

De acordo com Alho, o processo administrativo é avaliado conforme as denúncias realizadas pela população e análise “criteriosa do contrato de concessão do serviço”.

Este ano, quatro notificações devido a problemas no abastecimento dos bairros Zumbi dos Palmares, loteamento Rio Piorini e do conjunto Tocantins, no bairro Chapada, já foram indicadas pela Arsam.

Reclamação

Moradora do bairro Cidade de Deus, na zona leste da capital, Jorgete Moreira, 45, diz que são constantes as interrupções do serviço no bairro. Segundo a empregada doméstica, por causa da má prestação de serviço, os tonéis de água nunca deixaram de ser utilizados.

“Eu saio cedo para trabalhar, preciso da água para fazer o café e o almoço dos meus filhos. Comprei minha caixa de água com tanto esforço pensando que realmente não ia mais faltar água na minha casa, mas se não fosse os barris que tenho, já tinha passado mais aperto. Às vezes, vem tudo direitinho, mas muito fraquinha, nem sobe na caixa”, reclamou.

Em um dos bairros mais populosos da cidade, o Jorge Teixeira, que possui, em média, 112 mil moradores, segundo o IBGE, a falta de manutenção das adutoras e no encanamento do bairro são reclamações constantes, de acordo com o presidente da Associação de moradores do Jorge Teixeira, Roberto Sales. O problema, afirma ele, impede o abastecimento de água em algumas casas.

“É corriqueiro esse problema no bairro. O maior problema é a falta de manutenção, eles (Manaus Ambiental) vieram, instalaram os hidrômetros, mas não fazem investimento nenhum, aí os canos estouram e a água que era para atender aquela rua, simplesmente, não chega e os moradores ficam sem água”, afirmou.

Segundo Sales, a Rua Seis, conhecida como Rua dos Cravinhos, no Jorge Teixeira, está entre as mais críticas do bairro. “Nessa rua, tem um poço abandonado da Manaus Ambiental que jorra água 24 horas por dia. É um problema eterno porque eles vêm, olham, mas não fazem nada, nem trazem material para trabalhar”, disse.

Alho afirmou que nem todas as reclamações recebidas pelo órgão possuem referência direta à falta de abastecimento, outros problemas como: cobrança irregular, esgotamento sanitário e fornecimento intermitente, também, ocupam a lista de denúncias realizadas.

Atualmente, o órgão atende a população por meio do telefone 0800 280 8585 e, neste ano, segundo presidente do órgão, um aplicativo para smartphone será elaborado para registrar as reclamações.

O DIÁRIO entrou em contato com a Manaus Ambiental, mas, até o fechamento desta edição, a concessionária não se pronunciou sobre as multas aplicadas pela Prefeitura e nem forneceu o número oficial de pessoas prejudicadas com a manutenção desta semana.

População desenvolve métodos para economizar

O Dia Mundial da Água foi instituído, em 1993, pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a data serve de incentivo à reflexão sobre a importância da água e o uso sustentável desse recurso natural necessário para a sobrevivência humana. Em Manaus, poder público, iniciativas particulares e comunitárias somam forças para fazer uso consciente desse recurso que, por meio dos igarapés, entrecorta a capital.

Desde o último domingo, estudantes universitários de diferentes instituições de ensino superior têm se reunido para fazer ‘abraços’ simbólicos em parques com igarapés, lembrando o ‘Dia Mundial da Água’. Pesquisadores do Grupo de Estudos de Direitos de Águas, do programa de Mestrado em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas (Geda/UEA), também participaram do ato. Formado por 18 pesquisadores, entre mestrandos e doutorandos, o Geda desenvolve pesquisas sobre água e acompanha a qualidade do recurso na capital.

No ano passado, o grupo promoveu uma limpeza da bacia hidrográfica do Tarumã-Açu, na zona oeste, e retirou 18 toneladas de lixo das águas da região, segundo o professor doutor Erivaldo Cavalcanti, professor líder do grupo de estudos. O pesquisador alertou sobre a importância de se preservar a água, como líquido necessário à vida. “Na Região Amazônica, o maior problema é a poluição. A luta não é só pelo recurso hídrico, em si, mas pela água potável. Sem ela, ninguém sobreviverá”, disse o estudioso, acrescentando que, no ano passado, a limpeza da bacia do Tarumã-Açu contou com apoio do poder público municipal e do Exército Brasileiro.

Outra ação é realizada pelo empresário Diogo de Vasconcelos, 34. Ele passou a viver com a família em um flutuante e afirmou que a importância de se preservar água potável ficou ainda mais forte na mente dele e da família. Por morar em um flutuante, a casa do empresário não é atendida pelo abastecimento de água potável fornecido pela Manaus Ambiental. “Passamos a coletar água da chuva, por exemplo, para tomar banho e demais atividades de higiene pessoal. Parece algo muito falado, mas valorizar a água potável é questão de sobrevivência”, afirmou Diogo.

O empresário é um dos três sócios de um restaurante flutuante, nas imediações da Praia Dourada, na zona oeste. Segundo ele, o lixo do local é coletado com investimento particular. O empreendimento busca, também, conscientizar a clientela, afirma Diogo. “Hábitos como jogar bituca de cigarro ou papel no rio é questão moral. No início, achavam que era só mais um flutuante com entretenimento, mas buscamos trazer a conscientização ambiental para o dia a dia”, disse.

No ambiente residencial, o representante comercial Mário Antonio Lima, 28, procura aliar o consumo consciente com economia doméstica. Há quase um ano, ele coloca uma garrafa PET, de dois litros, cheia de água dentro da caixa acoplada do vaso sanitário da casa. Com o passar dos meses, ele disse sentir no bolso a economia. “É um velho truque, daqueles de avó, mas deu para sentir a diminuição no valor da conta de água e não deixa de evitar desperdício de água”, afirmou Mário.

A aposentada Angélica Mesquita da Silva, 73, é mais radical. Ela disse que não suporta ver um vazamento que já busca saná-lo. Acostumada a consumir apenas o que precisa, a aposentada disse ter adotado hábitos cotidianos para evitar o desperdício. Entre os costumes, estão usar máquina de lavar roupas, mensalmente, e reaproveitar a água da chuva para atividades domésticas. “A gente tem que viver de acordo com a nossa necessidade. Eu gosto de economizar água. Isso reflete no bolso e, ainda, evita o desperdício”, disse Angélica.

Fonte: D24AM

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