Especialistas elaboram Carta de Manaus para reforçar a nutrição na agenda internacional

“Estamos iniciando um compromisso mundial de como os pesquisadores, educadores e extensionistas vão tratar daqui pra frente a segurança alimentar e nutricional”, disse a pesquisadora Dionísia Nagahama

Após dois de debates sobre o papel da ciência, tecnologia e inovação na promoção do direito humano à soberania alimentar e nutricional, representantes das instituições de ensino, pesquisa e extensão de vários continentes elaboraram a “Carta de Manaus”, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI). O documento representa um compromisso contendo diretrizes que servirão como base para direcionar políticas públicas em segurança alimentar e oficializa a criação da rede mundial de alimentação.

De acordo com o documento, a rede será aberta a todas as instituições de ensino, pesquisa e extensão em nutrição, soberania e segurança alimentar que, respeitando os princípios do direito humano à nutrição e à alimentação adequada, estejam engajadas em contribuir para a erradicação da fome e a desnutrição em âmbito local, nacional, regional e global.

Para o diretor de Ações Regionais da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Deare/Secis/MCTI), Osório Coelho, a Carta de Manaus servirá como base para se decidir em conjunto com os parceiros as políticas públicas que refletem o anseio da sociedade. “Acreditamos que a partir dela consigamos influenciar governo, parlamentares e instituições para que possam também executar políticas públicas que sejam o reflexo daquilo que a população deseja na área de segurança alimentar e nutricional”, disse.

“A criação da rede mundial de segurança alimentar mediante uma carta pública servirá para fortalecer as redes nacionais e regionais, a fim de que se possa ter uma rede mundial bastante forte no tema nutrição”, disse o coordenador-geral de Cooperação Humanitária e Combate à Fome, o ministro Milton Rondó Filho.

Para o ministro, a grande originalidade da Carta de Manaus é a valorização dos saberes tradicionais, como dos povos indígenas e ribeirinhos. “Estamos na Amazônia e a maior floresta tropical do mundo não foi preservada à toa. Ela foi preservada porque as pessoas aqui têm muito conhecimento tradicional”, disse. Segundo Rondó Filho, este é o local onde tinha que acontecer a rede mundial de nutrição. “Temos que lembrar que o conhecimento tradicional é tão importante quanto o conhecimento científico de qualquer cientista”.

Na opinião da professora da Unesp, Maria Rita de Oliveira, este foi um encontro de saberes um pouco mais amadurecido. “É um espaço onde se busca o encontro de saberes continentais, de nações, de saberes regionais, de territórios”, diz a professora, que é diretora técnica da Rede de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional da União das Nações Sul-Americanas (Rede SSAN-Unasul).

Para Oliveira, a rede mundial de alimentação nasce no MCTI na busca para soluções de problemas a partir da C&T num sentido mais ampliado. “É um tema complexo, por isso a rede busca uma abordagem complexa dos saberes”, comenta a professora. “E se torna simples se pensamos que é uma rede para solucionar problemas de ciência e tecnologia para garantir a boa nutrição para todos”, completa Oliveira.

Conforme a pesquisadora do Inpa, Dionísia Nagahama, o fato do Amazonas ter sido escolhido para criar a Rede mundial de alimentação é uma honra para a nossa região e para o Inpa. “É um marco, porque estamos iniciando um compromisso mundial de como os pesquisadores, educadores e extensionistas vão tratar daqui pra frente a segurança alimentar nutricional”, diz a pesquisadora.

Experiências bem-sucedidas

O diretor do MCTI, Osório Coelho, explica que a Secis fomenta a pesquisa na área de soberania e segurança alimentar com o apoio às instituições e pesquisadores para que pesquisem e executem seus trabalhos, a fim de encontrar soluções inovadoras para minimizar a insegurança alimentar nas populações. Este apoio é feito por meio de editais e chamadas públicas.

Um exemplo desse apoio foi com a rede Unasul, criada há três anos, que recebeu recursos na ordem de U$ 2 milhões (cerca de R$ 4 milhões à época). Foram aprovadas 27 projetos na área de segurança alimentar e envolveu mais de 100 instituições de ensino, no Brasil e em países da Unasul e da África.

“Esse é um exemplo bem-sucedido na área de segurança alimentar, porque o resultado foi espetacular com o envolvimento de pesquisadores brasileiros e de outros países”, disse Coelho.

Outro exemplo de instituição que utiliza a C&T na solução de problemas para garantir uma alimentação de qualidade para a população é a Embrapa. Das 42 centros de pesquisas com atividades em todos os biomas do País, 15 centros trabalham com tecnologia de alimentos em todo o Brasil para avaliar, valorizar e valorar os produtos locais.

“O Brasil tem a maior diversidade do mundo e essa diversidade é expressada pelas culturas locais”, disse o diretor executivo de Transferência de Tecnologia da Embrapa, Waldyr Stumpf Júnior. “Temos valorizado muito esse conhecimento popular. Os saberes das comunidades com o saber científico”, acrescenta.

Segunda Stumpf Júnior, a Embrapa tem desenvolvido junto com os agricultores e as associações, não só os sistemas de produção, mas também tem agregado valor a esses sistemas, trabalhando e qualificando os alimentos, produzindo a partir dos alimentos de dietas comestíveis para a população.

Cabo Verde, localizado na África Ocidental, tem procurado garantir uma boa alimentação à população com o apoio da FAO com a inserção da produção da agricultura familiar nas cantinas escolares do país. Além disso, o país está envolvido numa rede que desenvolve projetos em segurança alimentar e envolve o Brasil e o Uruguai.

“A universidade tem participado desse processo com o componente pesquisa. Além disso, o Ministério da Saúde e a Agência Reguladora dos Produtos Alimentares e Farmacêuticos já conseguiram constituir uma rede de profissionais e de instituições que trabalham com as questões de segurança alimentar”, disse o professor da Escola de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade do Cabo Verde, Waldimir Ferreira.

O evento foi promovido pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI/Secis), Universidade Paulista Julio Mesquita Filho (Unesp) e o Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Por: Luciete Pedrosa
Fonte: Inpa

Deixe um comentário