Fala do fim do mundo

1. Com o Brasil a abrir brechas, uma multidão de cariocas lotou uma sala de cinema. Aconteceu num sábado de manhã, no pino do Verão. Não se tratava, pois, de fugir a pensar (para isso tinham a praia), nem propriamente de pensar, e sim de experimentar outro pensamento, como diria Eduardo Viveiros de Castro, o antropólogo que apresentou o filme. Um mês depois, e já tendo passado pelos Óscares, O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra, estreia em Portugal na próxima quinta-feira. Mas antes de tudo isto foi visto por índios que viajaram durante dias até à maloca onde seria a projeção. Maloca é a casa comunal amazônica, hoje desaparecida em muitos povos indígenas, tal como tantas línguas. O velho xamã do filme, por exemplo, é interpretado por um índio ocaina, língua que só tem 16 falantes. Mais do que um filme sobre a Amazônia, O Abraço da Serpente será um filme em que o fim do mundo fala do que tem visto. A floresta sabe que o apocalipse não é de agora. Os índios estão à nossa frente, não atrás.

2. O rio Vaupés nasce na Colômbia e vem encaracolando por aí abaixo até ao Brasil, onde, durante um bom bocado, recorta a própria fronteira. Mudando então de nome para Uaupés, continua a descer em caprichosas curvas, até desaguar no Rio Negro, pouco acima de São Gabriel da Cachoeira, o município mais indígena do Brasil. Só conheço este lado brasileiro da fronteira, mas creio que do lado de lá são as mesmas águas cheias de rápidos, de exímios canoeiros e múltiplas línguas. Várias etnias têm gente dos dois lados, sofreram a chegada de missionários, seringueiros, garimpeiros, uns querendo as almas, outros os corpos, trabalho forçado até à tortura, abuso de mulheres, tráfico de crianças, o inferno, por ciclos. É neste pedaço de Amazônia que se passa O Abraço da Serpente, sempre do lado colombiano, entre a bacia do Vaupés e as montanhas a noroeste, já perto da Venezuela.

3. Aqui chegou, em 1903, o etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg, cujos relatos de mitologia local foram o ponto de partida, por exemplo, para o lendário Macunaíma, de Mário de Andrade. Em plena II Guerra Mundial, um etnobotânico americano, Richard Evans Schultes, leu os livros de Koch-Grünberg e resolveu seguir-lhe os passos. Schultes também veio a ser influente, mas nos movimentos beat e pop dos anos 1950-60, pelo que revelou sobre plantas com propriedades alucinogénias, usadas pelos índios para fins curativos e religiosos, como o cacto mexicano peyote, o cipó amazônico yagé (mais conhecido do lado brasileiro por caapi ou ayahuasca), ou as folhas que potenciam o efeito do yagé, como a chacrona. Nascido décadas depois dos hippies, o colombiano Ciro Guerra foi ler o diário de viagem deste etnobotânico e achou a história para o filme que queria fazer. “Quando Schultes chega aos índios taurepán [onde Koch-Grünberg tinha estado 30 anos antes], eles não param de lhe falar no mito do surumbuku, o surumbuku isto, o surumbuku aquilo, até que Schultes percebe que o tal surumbuku era Koch-Grünberg”, contou o realizador numa entrevista. “Tinham transformado Koch-Grünberg num mito. Não apenas isso, olhavam para Schultes e viam o surumbuku. Para eles, era o mesmo homem que Koch-Grünberg.”

4. Uma história contada através de dois homens, como se a mesma alma os habitasse, pensou Ciro Guerra. Construiu então um argumento em que esses dois pesquisadores são conduzidos pelo mesmo xamã com um intervalo de trinta anos através da floresta, rios acima, em busca de uma planta sagrada, a yakruna. Para ficar mais livre, o filme inventa o nome da planta e imagina a sua árvore florida, tal como muda os nomes e factos relativos aos dois brancos, e funde elementos de várias etnias na imaginária etnia do xamã (a forma como ele sopra o pó da planta curativa nas narinas do forasteiro branco, por exemplo, lembra a yakoana, uma resina sagrada para os yanomami, que é inalada exactamente assim). Se quem interpreta esse xamã em velho é o tal índio ocaina (Antonio Bolivar), o xamã em novo também é um não-actor (Nilbio Torres), que não só nunca fizera cinema como jamais assistira a um filme. Índio ribeirinho, pai de vários filhos, rema todos os dias para os levar à escola, além de caçar, lavrar e pescar, e o corpo dele projecta tudo isso no ecrã, tão erecto quanto flexível e furtivo, autêntico totem da floresta, mineral, vegetal, animal.

5. Na Amazônia de entre os séculos XIX e XX, a borracha foi o horror com requintes operáticos, multidões subjugadas, endividadas. Ferreira de Castro bem o viveu e contou, mas para os índios tudo foi ainda pior, antes, durante e depois, entre missionários fanáticos que os mataram com epidemias, combateram línguas e práticas. Há todas as razões (literárias, políticas, metafísicas) para ler A Queda do Céu, espécie de autobiografia colectiva feita pelo xamã yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo francês Bruce Albert, e entre elas conta-se certamente o impacto de evangelizadores e garimpeiros do ponto de vista de quem o sofreu em tempos recentes, o apagamento de vidas e de saber que isso implicou. Se os jesuítas portugueses do século XVI aprenderam tupi e fizeram dicionários, os séculos seguintes guardam relatos tenebrosos sobre como missionários europeus e americanos, católicos e evangélicos, contrariaram o uso de línguas nativas. De resto, vinha do começo da colonização a associação ao diabo de costumes e mitologias nativas, bem como a estratégia concentracionária das missões, com os índios a serem “descidos” dos sertões, ou seja, do interior, para se integrarem em casas unifamiliares dispostas em torno da igreja, como num quartel. Não só a maloca comunal era, na visão maioritária dos colonizadores, insalubre e imoral, como a divisão concentrada facilitava o controle.

6. Entre conquistadores, febre dos deuses e do ouro, a Amazônia é toda uma história de loucura branca. Por isso, será fácil O Abraço da Serpente evocar por vezes grandes filmes que retratam essa loucura, como Fitzcarraldo, de Herzog (que se passa noutro ponto amazônico) ou o Apocalipse Now, de Coppola (selva asiática), e perder na comparação. O filme de Ciro Guerra ganha tanto mais quanto está próximo da floresta, da perspectiva indígena de quem observa os brancos, olhos de jaguar, corpo de cobra, desdobrado em rios. Guerra diz que se tivesse ido contra a floresta ela ganharia sempre, portanto trabalhou com ela, deixou-se transformar. O abandono do exotismo que isso requer será o melhor do filme, e levado às últimas consequências teria descartado convenções ficcionais, como o xamã ser um herói solitário, viver absolutamente sozinho numa maloca, contradição nos termos, porque um xamã só existe através de outros, e a vida indígena é comunitária. Mas sempre que o filme fica do lado da floresta, estamos mais perto daquela ideia de Viveiros de Castro, um dos mais instigantes autores contemporâneos: não se trata de imaginar uma experiência, mas de experimentar uma imaginação. O que, aplicado ao trauma colonial, me parece abrir toda uma alternativa à expiação da culpa judaico-cristã, que tanto nos confina. Ou seja, não se tratará de flagelação e autoflagelação, mas, ao contrário, de nos libertarmos uns aos outros, revivendo sob diferentes primas todas essas estátuas de sal.

7. Há 500 anos que os índios vêem os brancos encher a canoa de produtos até afundar. Um dos erros da governação Lula-Dilma foi justamente o avanço a galope na Amazônia, e não só, da “via produtivista”: minério, barragens, soja, gado. O Brasil e o planeta pagam caro por este capitalismo devastador, que cede a grandes proprietários de terra e corporações sem escrúpulos (como se viu na catástrofe do Rio Doce). A evolução (ou involução) do PT é contestada há muito por boa parte da esquerda, no Brasil como em Portugal, seria bom isto ficar claro. Refiro-me à esquerda não protectora de regimes repressivos como o do MLPA em Angola, onde esta semana foram condenados a vários anos de prisão 17 réus políticos, académicos e jovens, com acusações engendradas à última hora (a reacção do Partido Comunista Português a isto foi aliar-se à direita no Parlamento para chumbar os votos de protesto do Bloco de Esquerda e do Partido Socialista; resta manter a pressão sobre Luanda dentro e fora do Parlamento enquanto se aguarda o recurso judicial, incluindo para que o Governo de Lisboa, tão prudente no comentário oficial, vá mais além na acção diplomática). Entretanto, quem ultimamente esboçou comparações entre a corrupção do poder no Brasil e em Angola terá mais uma razão para pensar melhor, porque se o Brasil é uma democracia com fragilidades institucionais e uma sociedade civil cada vez mais forte, Angola é dominada por uma oligarquia que sabota a construção da sociedade civil, metendo na prisão quem a critica.

Por: Alexandra Lucas Coelho
Fonte: Público.pt

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