Recife à brasileira

Descoberto ecossistema de corais e esponjas que sobrevive em área de pouca luz e oxigênio

Cientistas descobriram um recife de 9,5 mil km ² em frente à foz do Rio Amazonas e que vai do Maranhão ao Amapá, em área de pouca luz e oxigenação.

Rodrigo Moura, da UFRJ, com estrutura coletada no recife
Rodrigo Moura, da UFRJ, com estrutura coletada no recife

As brasileiros e americanos identificaram um imenso sistema de recifes em frente à foz do Rio Amazonas, numa área com luminosidade extremamente baixa e pouca oxigenação, cobrindo uma faixa da plataforma continental que se estende do litoral do Maranhão à Guiana Francesa, a 550 quilômetros do parque marinho maranhense Parcel de Manuel Luís. A recém- localizada formação, porém, já está ameaçada pela ação do homem. Segundo o microbiólogo da UFRJ Fabiano Thompson, companhias petroleiras já atuam na região na prospecção de novos campos. E o aquecimento global também é uma ameaça.

– É inédito no mundo. O recife foi descoberto onde os livros dizem que eles não poderiam existir, porque as condições químicas e biológicas não permitiriam – assinala Thompson. – Normalmente os recifes se formam em regiões de água cristalina, com muita incidência de luminosidade. Na foz do Rio Amazonas acontece o contrário. A água vinda do rio é rica em sedimentos e matéria orgânica, impedindo a passagem da luz.

Os sedimentos do Rio Amazonas no Oceano Atlântico - NASA
Os sedimentos do Rio Amazonas no Oceano Atlântico – NASA

IMENSA MANCHA CHAMADA PLUMA

O Rio Amazonas despeja em média 209 mil metros cúbicos de água por segundo no Oceano Atlântico, formando uma pluma ( área de influência direta da descarga do rio) de aproximadamente 1,5 milhão de metros quadrados. Vista de longe, esta área se destaca como uma imensa mancha.

Thompson explica que a magnitude do fenômeno impede a penetração da luz solar na região. Por esse motivo, organismos que dependem da fotossíntese não conseguem sobreviver ali, o que diminui os níveis de oxigenação. A base da cadeia alimentar é, então, formada por bactérias quimiossintetizantes, que não dependem da luz.

O recife descoberto é formado sobretudo por esponjas e rodolitos – algas calcárias que se assemelham com corais -, principalmente em sua porção norte, coberta permanentemente pela pluma. Ao sul, onde a área da pluma varia ao longo do ano, dependendo do volume de chuvas no Amazonas, também foi registrada a presença de corais. Essa variação dos recifes é uma característica única do novo ecossistema.

– É um mosaico de sistemas. De certa forma, existe um gradiente, como sair do Cerrado e ir para a Mata Atlântica – diz Thompson. – O que é importante é que no setor norte, por causa da pluma permanente, existe o sombreamento, com diminuição dramática do oxigênio e na penetração da luz.

Os primeiros indícios sobre a presença de um recife na região foram descritos em um artigo publicado em 1977, que demonstrava a presença de peixes característicos desses ecossistemas. No entanto, como o sistema está em local de difícil acesso, a cerca de 80 quilômetros da costa, entre 50 e 100 metros de profundidade, só agora houve a comprovação de sua existência. Ao longo dos últimos seis anos, foram realizadas três expedições para mapeamento do solo oceânico e coleta de peixes, esponjas e corais. A equipe formada por pesquisadores de 11 universidades brasileiras e uma americana planeja novas viagens exploratórias, mas dependem da liberação de recursos.

– Nós usamos um equipamento parecido com um sonar para mapear o fundo e identificar onde existem as construções de recife – explica Michel Mahiques, pesquisador do Instituto Oceanográfico da USP responsável pelo mapeamento geológico. – Para a geologia, seria interessante compreender como esse ecossistema evoluiu. Aparentemente, existe uma parte mais antiga, ao norte, e uma mais recente, ao sul. É um desafio estudar a evolução geológica desse ambiente. INTERAÇÃO COM O CARIBE A descoberta do recife também joga nova luz sobre a dinâmica de trocas entre os mares da América do Sul e do Caribe. Uma teoria corrente é que a pluma do Amazonas, pelo seu baixo nível de oxigenação, serve como uma barreira que impede que peixes e outras espécies migrem entre as duas regiões. No entanto, esta tese está sendo revista, e já se admite que animais de águas profundas poderiam usar o sistema como um corredor.

– Este recife provavelmente permite o fluxo entre espécies características destes ecossistemas entre o Brasil e o Caribe – explica Ralf Cordeiro, membro do grupo de pesquisas em Antozoários da Universidade Federal de Pernambuco. – Por muito tempo pensamos que nenhuma espécie típica de recife poderia ter um fluxo entre estas regiões. Agora, este paradigma está sendo quebrado.

O recife também é importante para a indústria pesqueira. Foram catalogadas diversas espécies de peixes comerciais e a região é conhecida pela abundância de lagostas. Mas os pesquisadores alertam: apesar de recém- descoberto, o sistema está em risco.

– Da acidificação e aquecimento dos oceanos aos planos de exploração de petróleo, todo o sistema está sob risco do impacto humano – alerta Patricia Yager, pesquisadora da Universidade da Geórgia e coautora do estudo.

Por: Sergio Matsuura e Renato Grandelle
Fonte: O Globo

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