Carta do Movimento Xingu Vivo à Nação Munduruku

 

Aos guerreiros, guerreiras, caciques, estudantes, pajés e a toda a nação Munduruku:

munduruku

Nós do MOVIMENTO XINGU VIVO PARA SEMPRE, afirmamos, mais uma vez, que nos fortalecemos e nos reconfortamos com o grande povo do guerreiro Karosakaibu, especialmente neste momento quando ocorreu a publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Sawré Muybu e a suspensão do processo de licenciamento da UHE São Luiz do Tapajós.

Antes de tudo, damos graças aos deuses e deusas das águas do Xingu e dos rios da Amazônia, que mesmo sendo destruídos por mãos assassinas de governantes e empresários, não desamparam os seus filhos e filhas, expulsos, desrespeitados, destruídos até a alma, espoliados de seus direitos; submersos nos grandes lagos de Belo Monte, Jirau, Santo Antônio, Tucuruí, Teles Pires, no que um dia foi o rio Doce; aniquilado pela lama tóxica, subproduto da mineração destrutiva.

Acima de tudo a aliança dos povos

Ainda que a distância física entre os povos xinguaras e os tapajônicos seja grande, não seríamos um movimento autêntico se não superássemos essa barreira para denunciar a vocês, Munduruku, guardiães soberanos da vida, os primeiros crimes de Belo Monte contra o povo, o rio, a floresta e a terra no Xingu. Foi para denunciar tudo isso a vocês, nossos amigos, que os convidamos a estar conosco no Xingu+23, em junho de 2012, quando vocês puderam VER – OUVIR – E – SENTIR o que estava acontecendo em nosso território com a construção da UHE Belo Monte.

Naquele cenário de guerra, na comunidade de Santo Antônio e no sítio Belo Monte, vocês viram o rio sendo barrado, água morta apodrecendo, vocês viram peixes mortos, ilhas destruídas, vocês viram homens e mulheres sendo expulsos de suas casas, de sua comunidade, vocês viram crianças sem mais poder ir à escola, vocês viram igreja e cemitério (locais sagrados) abandonados, vocês viram uma comunidade aos poucos se perdendo em meio à multidão de homens e caminhões chegando de todos os lados, vocês viram animais sendo afugentados, capivara desesperada na beira da estrada, jabuti perdido sem sua floresta, vocês viram a Força Nacional nos cercando e policiais armados com mandado de segurança em busca de nossas lideranças, vocês viram seguranças vigiando os passos de cada um de nós.

Vocês ouviram os roncos das máquinas, o barulho dos caminhões, ouviram a floresta cair, o desespero das aves, o silêncio do rio nas águas paradas sem poder mais se movimentar. Sentiram, ao tocar o chão, a terra tremer nervosa pelo impacto das explosões das bombas. Mas, mesmo com toda essa tristeza, no meio dos escombros, na volta grande do Xingu, foi selada, naquele exato instante, a aliança entre os Munduruku e todos os povos vítimas das barragens assassinas.

O governo mente e engana não se iludam

O reconhecimento oficial da Terra Indígena Sawré Muybu é um passo muito importante para a luta que vocês iniciaram na defesa do seu território contra as barragens, mas, cuidado! O governo mente, exemplo claro é a hidrelétrica de Belo Monte que em 1989 foi suspensa e mais de 20 anos depois foi licitada e construída. Porque será que o governo, quando estava com o congresso e o PMDB ao seu lado, não reconheceu a terra indígena? Porque o governo não retirou do planejamento energético todas as barragens do rio Tapajós?

Está claro para nós que os governos barganham nossos direitos, nosso território, nossa vida, nossa identidade, nossa soberania, barganha com poderosas empresas em troca de propina, para se manter no poder, a exemplo do que estamos vendo com as obras de Belo Monte, corrupção descoberta no curso da operação Lava Jato.

Queremos dizer que esses projetos de hidrelétricas, portos, estradas, mineração, hidrovias, não são apenas um programa de governo do PT, da presidente Dilma e Lula, mas é um projeto do Estado brasileiro, das elites econômicas que sempre enriqueceram as custas da dor e do sofrimento do povo, projeto que nenhum representante do executivo, legislativo ou judiciário tem interesse ou coragem de mudar. Dilma está reconhecendo seu território e dizendo para o Ibama suspender o processo de licenciamento da UHE São Luiz do Tapajós apenas porque agora está com um governo fraco, sendo atacado por todos os lados, e tenta se salvar buscando novos apoiadores, pois os ricos que ela se aliou agora viraram as costas para ela.

Vigiar sempre!

Este é um momento delicado, início de manhã e final de tarde, o dia não é tão claro, a noite não é tão escura, é tudo cinza, por isso não deixem para depois o que tem que fazer hoje, não abandonem seus projetos e sua resistência, a luta deve ser feita no território onde vocês vivem, junto com seus verdadeiros aliados. Aproveitem esse tempo para firmar cada vez mais suas alianças com outros povos.

Sigam aquilo que o rastro do tempo apontou no final da assembleia que vocês realizaram agora em abril, na aldeia Katô, continuem reivindicando o passado de luta da nação Munduruku, não se deixem enganar com ações ou promessas que não vão barrar os grandes projetos. Só a luta, a unidade e a organização dos Munduruku é que pode garantir a vitória final. Quem quiser ajudar que apoie aquilo que os Munduruku decidirem fazer.

A sociedade justa ainda é um sonho que estamos a construir, ela vem pelas nossas mãos, gerada por nós, guerreiros e guerreiras, e não vem dos políticos ou de um governo seja ele qual for, de direita ou esquerda.

Temos muito que fazer, ainda é preciso acordar os que estão dormindo, e resgatar os sonhos que estão no fundo dos Lagos das grandes hidrelétricas na Amazônia, as conquistas, o reconhecimento dos direitos que estão submersos na escuridão de uma justiça que somente serve aos ricos, provocando desigualdade, intolerância e o fortalecimento de governantes coniventes com os grandes interesses capitalistas.

A vitória vem com um projeto de vida para todos!

SAWE

Fonte: Movimento Xingu Vivo Para Sempre

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