Irregularidade de chuva prejudica produção de milho em Mato Grosso

A instabilidade das chuvas que afetou a safra de soja em boa parte de Mato Grosso também deverá trazer prejuízos para a produção de milho de segunda safra no estado. O plantio tardio e a baixa precipitação em abril e no início de maio são os principais responsáveis pela redução na estimativa de produtividade. A situação foi confirmada pelas seis equipes que percorreram 188 propriedades na última semana de abril durante o Circuito Tecnológico Etapa Milho, evento realizado pela Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) e pela Embrapa, com apoio do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Apesar do aumento de área de 5,5% em relação à safra 2014/2015, com 4,25 milhões de hectares plantados neste ano com o cereal, a expectativa de colheita da segunda safra é de 23 milhões de toneladas, bem abaixo das 26,19 milhões de toneladas colhidas em 2014/2015, quando 4,02 milhões de hectares foram semeados. “Trinta e cinco por cento do milho cultivado no estado foi plantado após a data indicada”, explica o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo (MG) Alexandre Ferreira da Silva. A produtividade média esperada pelo Imea é de 90,7 sacas por hectare, enquanto a safra 2014/2015 atingiu o recorde produtivo de 108,6 sacas.

O que atrasou o plantio do milho foi a ausência de chuvas na época de plantar a cultura que o antecede, a soja, e o excesso delas na colheita da oleaginosa. “Com isso, o plantio do milho safrinha foi feito fora da janela recomendada em muitas regiões do estado. Faltou chuva em uma fase crítica que interfere no potencial produtivo da cultura, no período de floração e enchimento dos grãos”, conta. “O ano de 2015 foi atípico, já que muitos produtores plantaram depois do período indicado e tiveram uma produção satisfatória. A condição climática favoreceu. Já em 2016, quem apostou que as chuvas viriam como no ano passado, está decepcionado”, completa.

Condições climáticas explicam quedas na produção

As condições climáticas são a principal explicação para a redução na produção. De acordo com os dados da estação meteorológica da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT), na principal região produtora de milho do estado, em abril a precipitação foi metade do volume registrado em 2015. Além disso, as chuvas do mês se concentraram nos 20 primeiros dias. Os dez dias de estiagem no fim de abril somam-se ao mês de maio, que segue sem registro de precipitação no local.

O pesquisador da área de agrometeorologia da Embrapa Agrossilvipastoril, Jorge Lulu, explica que o armazenamento de água no solo em abril caiu, atingindo praticamente a metade de sua capacidade máxima ao fim do mês. Nos primeiros dez dias de maio a taxa de armazenamento chegou a 38,1% da capacidade.

“O deficit hídrico sempre ocorre quando a evapotranspiração supera o valor da precipitação acumulada naquele decêndio. Assim, para que o armazenamento de água no solo volte a subir, primeiramente é necessário que a precipitação seja maior que a evapotranspiração e daí pra frente começa efetivamente a reposição hídrica do solo”, explica Jorge Lulu.

O deficit hídrico também já havia sido observado em fevereiro, época em que muitas das lavouras foram semeadas. Com a menor disponibilidade de água, as plantas são prejudicadas em momentos cruciais, como o crescimento, floração e enchimento de grãos.

Além da falta de chuva, outro fator que tem influência nas lavouras de milho é a temperatura noturna. Em março, por exemplo, a temperatura mínima média foi 1,3ºC mais elevada do que o ano anterior. Temperaturas mais elevadas durante a noite aceleram o desenvolvimento e a maturidade das plantas. Com isso o período de enchimento de grãos é reduzido e a produção é menor.

Nem tudo está perdido

Apesar de cenários pessimistas, o pesquisador Alexandre Ferreira da Silva, da Embrapa, aponta que existem lavouras com bom potencial de produção no estado. “Alguns produtores conseguiram plantar parte da área dentro da janela do plantio, consequência da semeadura mais precoce da soja. Há propriedades onde a estimativa de colheita ainda é otimista, em torno de 140 sacas por hectare”, diz.

Já em outras, de acordo com ele, a previsão é de no máximo 80 sacas. “Em municípios da região Leste, mesmo para lavouras semeadas dentro do período indicado, que foi até o dia 25 de fevereiro, pode-se observar áreas comprometidas pela baixa ocorrência de chuvas. Foi possível constatar até mesmo lavouras já abandonadas, que não devem produzir”, completa o pesquisador Luciano Viana Cota.

Na região nordeste, a estimativa é de redução de até 26% na produtividade. Na região médio-norte, a maior produtora de milho do estado, a previsão é que a redução na produtividade seja de 14,7%.

Outro aspecto que impacta negativamente na produção está relacionado à plantabilidade. Com o pouco tempo que sobrou para realizar a semeadura do milho, a velocidade de plantio foi maior, prejudicando o estande. “Vimos diversas lavouras com distribuição irregular de plantas na linha, o que causa perdas no rendimento”, comenta Alexandre Ferreira.

A situação mais comum, presenciada em muitas propriedades, foi a adoção de alta tecnologia no milho semeado dentro do período indicado e cautela nos talhões plantados em época tardia. “Nos primeiros talhões semeados, o produtor faz maior investimento em insumos, apostando em altas produtividades. Já para aqueles semeados fora da janela recomendada, reduz-se o investimento em insumos como sementes, adubos e na aplicação de defensivos”, resume.

Lagarta-do-cartucho e percevejo

O Circuito Tecnológico, além desses aspectos, teve como alvo o levantamento de informações sobre o tema “fitossanidade”. Segundo os pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo, as duas principais pragas de maior incidência foram o percevejo barriga-verde e a lagarta-do-cartucho, mesmo em cultivares transgênicas. Já o controle de doenças e de plantas daninhas vem sendo bem realizado, segundo informações da equipe que visitou o estado.

De acordo com a pesquisadora Simone Martins Mendes, da área de Entomologia, em muitas lavouras há presença de danos provocados pela lagarta-do-cartucho nas espigas, mesmo em plantas em que não havia altos níveis de infestação nas folhas. “Podemos interpretar que isso pode ter ocorrido em função da menor expressão de certas proteínas Bt nas espigas e das condições favoráveis ao inseto-praga no final do ciclo. Essa ocorrência de lagartas predispõe à entrada de patógenos e micotoxinas nas espigas”, afirma.

Sobre o percevejo barriga-verde, a entomologista explica que o surgimento da praga é comum após o plantio da soja. O inseto injeta uma toxina na fase inicial do milho, o que causa deformações na planta, podendo ocasionar redução do estande. Um problema que chamou a atenção foi o uso repetido de inseticidas com o mesmo princípio ativo. “Isso é preocupante, pois pode levar a seleções de resistência para esses produtos”, diz. O alto nível de adoção da área de refúgio nas lavouras, em quase 100% da área plantada, prática agrícola recomendada pela Embrapa, foi outro aspecto observado.

Metodologia e resultados para o produtor

As equipes da Embrapa e da Aprosoja que percorreram as 188 lavouras de milho em Mato Grosso aplicaram questionários eletrônicos aos gerentes das propriedades, identificando o tamanho da área plantada, cultivares utilizadas, nível de adoção de tecnologia e insumos. Concomitantemente, uma equipe no campo identificou pragas, doenças, plantas daninhas e aspectos gerais das lavouras, como o estande da área. O objetivo, após as visitas, é redigir documentos técnicos sobre o que foi presenciado nas lavouras, apresentando possíveis ações mitigadoras para os principais problemas. Dessa forma, a previsão é de que os documentos sejam enviados aos produtores até o mês de outubro.

O diretor técnico da Aprosoja Nery Ribas destaca que “em geral, o momento é de apreensão”, já que a falta de chuva e o plantio fora da janela ideal, especialmente na região Leste, devem impactar na produtividade desta safra. “Pragas e perda de resistência também foram observados. A região Norte foi onde houve mais relatos em relação às sementes e, para sanar este ponto, a Comissão de Defesa Agrícola da Aprosoja participa de um grupo de trabalho que monitora a qualidade em vigor em germinação”, adianta. Ainda segundo Nery, “o Circuito Tecnológico é sempre uma ótima oportunidade para estarmos perto dos produtores e ouvirmos as demandas do campo”.

Por: Guilherme Viana 
Fonte: Embrapa

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