Lactantes na bacia do rio Negro têm baixo teor de mercúrio no organismo

Resultado faz parte de pesquisa do projeto de P&D “Biomarcadores de toxicidade do mercúrio aplicados ao setor hidrelétrico na Amazônia (PD-6631-0001/2012)” realizado no INPA e promovido pela empresa Energia Sustentável do Brasil (ESBR- UHE Jirau) por meio do programa de P&D/ANEEL.

Como parte das atividades do 3º Workshop do projeto de P&D “Biomarcadores de toxicidade do mercúrio aplicados ao setor hidrelétrico na Amazônia”, foram entregues na última quarta-feira (4) os resultados dos exames que quantificaram o teor de mercúrio presente em amostras de cabelos e de leite materno em mulheres que amamentam, na comunidade do Livramento, na Reserva de Desenvolvimento do Tupé-AM. Os resultados mostraram baixa presença de mercúrio naquelas ribeirinhas.

A entrega foi feita durante visita à comunidade de Livramento, por um grupo aproximadamente 30 pessoas, entre representantes da Energia Sustentável do Brasil (ESBR – UHE Jirau, empresa financiadora do projeto), pesquisadores e bolsistas de várias instituições de ensino e pesquisa do Brasil. Na terça-feira, ocorreram no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) diversas palestras mostrando resultados parciais das pesquisas do projeto.

De acordo com os resultados, a presença de mercúrio quantificado nas mulheres que amamentam está abaixo do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere, que para os cabelos é de 14 partículas por milhão (ppm). O mercúrio é um metal tóxico e pode trazer problemas de saúde quando em concentrações muito altas no organismo, comprometendo o sistema neurológico, podendo causar tremores nas mãos e dificuldade motora chegando até a levar a pessoa a morte.

“Tem mercúrio no cabelo e no leite dessas lactantes, mas isso não é nada de extraordinário, porque essas concentrações são normais para a região amazônica”, disse Tânia da Silva, uma das integrantes da pesquisa.

Em outros estudos coordenados pelo pesquisador do Inpa Bruce Forsberg, realizados na bacia do rio Negro entre os anos de 1995 a 2004, foram encontradas pessoas com concentrações de mercúrio de até 70 ppm e elas não apresentaram nenhum sintoma clínico. Uma das hipóteses para isso é a dieta do ribeirinho rica em selênio, mineral presente na castanha-do-brasil, que é um inibidor natural da toxicidade de alguns metais, como o mercúrio.

“Essas pessoas, por algumas razões, não exibem sintomas clínicos dessa contaminação. Mas isso é um capítulo aberto, ainda, dentro do entendimento da toxicologia do mercúrio nas populações humanas”, diz o professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o doutor em Química Pedro Fadini.

Iniciado em 2013, o projeto tem como objetivo desenvolver e validar as metodologias em busca de uma metaloproteína que possa ser um biomarcador de toxicidade do mercúrio em peixes e em seres humanos. A pesquisa possui três eixos temáticos: aspectos ambientais e a dinâmica do mercúrio; metalômica e ictiofauna; metalômica e leite materno.

A metalômica é uma inovação no mundo. No Brasil, há pouquíssimos grupos de pesquisa trabalhando com essa metodologia, que é diferente da tradicional. Consiste na separação das proteínas para depois se ver em qual proteína o mercúrio está complexado, ou seja, ligado.

O projeto que encerra em 2017 é regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANELL) e desenvolvido no âmbito do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) sob o nº 6631-0001/2012, da ESBR.

De acordo com o coordenador do projeto, o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Fabricio Zara, na Amazônia, os altos teores de mercúrio encontrados em solo, sedimentos, peixes e seres humanos, inicialmente, foram atribuídos à atividade de garimpos de ouro. Segundo o pesquisador, estudos recentes mostraram que as altas concentrações de mercúrio nos compartimentos abióticos (fatores físicos e químicos) e bióticos (seres vivos) são também encontradas em regiões sem fontes antrópicas, aquelas resultantes da ação do homem.

“Independente da fonte de contaminação, estudos relacionados à elucidação dos mecanismos de toxicidade do mercúrio na ictiofauna e nas populações ribeirinhas são de fundamental importância para o desenvolvimento do setor hidrelétrico na região Amazônica com responsabilidade socioambiental”, explicou Zara.

Coletas

A pesquisa coletou amostras de cabelo e de leite materno em 12 lactantes da comunidade do Livramento e em seis lactantes em Santa Izabel de Apuaú, na bacia do rio Negro, no Amazonas. Também foram coletadas amostras em 15 mulheres que amamentavam na bacia do rio Madeira (Rondônia) e no rio Tocantins, em Goiás e Maranhão.

As integrantes do projeto Tania Machado da Silva e Maria Rosa Cerbino, que à época realizaram estudos para a dissertação do mestrado, explicaram aos comunitários que o mercúrio é encontrado naturalmente no solo, no ar, no rio ou pode ser colocado no ambiente pelo homem, através de atividades como o garimpo. No caso do rio Negro, as águas possuem naturalmente muito mais mercúrio que águas brancas e claras.

“O mercúrio é um metal que bioacumula e biomagnifica nos peixes, ou seja, os peixes grandes, mais velhos e predadores, tendem a ter mais mercúrio, como o tucunaré, do que os peixes menores e que não se alimentam de outros peixes”, explica Machado.

Segundo Cerbino, o trabalho foi realizado para tentar visualizar as proteínas que têm mercúrio no leite. “Posteriormente, faremos o mapeamento dessas proteínas que podem ser ou não responsáveis por transportar mercúrio no leite”, completou.

A dona de casa Joelma Costa dos Santos, 35, uma das participantes da pesquisa, disse que se sente mais tranquila com os resultados dos exames recebidos. Ela é mãe de cinco filhos e ainda amamenta o mais novo de dois anos de idade. “Eu jamais pensei que tivesse mercúrio no cabelo e no leite materno, mas a quantidade que eu tenho é bem baixa”, disse Santos, que está com o teor de mercúrio em 3,82 ppm no cabelo e com 0,69 ppm, no leite materno.

Segundo o pesquisador do INPA e integrante do projeto Ezio Sargentinio, o estudo teve boa participação da comunidade. “A colaboração das comunitárias doando as amostras foi fundamental. A coleta aconteceu há aproximadamente dois anos e hoje estamos entregando os resultados”, destacou.

O projeto

Os investimentos são de R$ 4.730.200,08. A rede de trabalho é multidisciplinar formada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Instituto de Química de Araraquara (IQ-Ar/Unesp), Instituto de Biociências de Botucatu (IB/Unesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), Venturo Análises Ambientais e Energia Sustentável do Brasil. O projeto congrega os resultados de 09 teses de doutoramento e 06 dissertações de mestrado.

Por: Luciete Pedrosa
Fonte: INPA

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