Mudança climática intensifica incêndios

Fogo em reserva florestal a nordeste de Phoenix, no Arizona, em março; temporadas de incêndio hoje podem durar quase o ano todo (Heber-Overgaard Fire District)
Fogo em reserva florestal a nordeste de Phoenix, no Arizona, em março; temporadas de incêndio hoje podem durar quase o ano todo (Heber-Overgaard Fire District)

Os incêndios florestais, que antes se limitavam a uma estação, tornaram-se uma ameaça constante em muitos lugares do mundo. Eles queimaram o oeste dos EUA durante o inverno e avançaram pelo outono, chegaram mais cedo que nunca ao Canadá e seguem sem interrupção na Austrália há quase 12 meses.

Um dos principais culpados é a mudança climática. Invernos mais secos significam menos umidade na terra, e as primaveras mais quentes estão secando a umidade com maior rapidez, transformando arbustos e capim em combustível. Décadas de políticas agressivas que pediam que os incêndios fossem extintos rapidamente também agravaram o problema. As florestas de hoje não estão apenas ressecadas; estão densas demais.

Em algumas áreas, “hoje temos temporadas de incêndios que duram o ano todo”, disse Matt Jolly, ecologista do Serviço Florestal dos EUA. “E o problema deve se agravar.”

Os 4 milhões de hectares que queimaram nos EUA no ano passado foram o máximo já registrado, e os cinco anos que tiveram maior área queimada foram na última década. Os custos federais de combate aos incêndios aumentaram de US$ 240 milhões por ano em 1985 para US$ 2 bilhões no ano passado.

“Levamos a sério nossa tarefa de proteger o público. Recentemente, o trabalho tornou-se mais difícil devido aos efeitos da mudança climática, das secas crônicas e de um ambiente de contenção orçamentária em Washington”, disse Tom Vilsack, secretário da Agricultura, em um comunicado. Segundo ele, sete bombeiros morreram e 4.500 casas queimaram em incêndios florestais nos EUA em 2015.

“Estou aterrorizado com a ideia de uma temporada de incêndios desenfreada”, disse Randi Jandt, ecologista de incêndios no Consórcio da Ciência de Incêndios do Alasca. O termo capta a ideia de que as condições secas poderão levar a incêndios descontrolados, como alguns quase fizeram no ano passado, a segunda maior temporada de incêndios registrada no Alasca depois de 2004.

Os ecologistas de incêndios discordam sobre o modo de combater o problema. Alguns querem que os incêndios sigam seu curso natural e limpem o mato denso e seco no solo das florestas. No entanto, essa abordagem encontrou um desafio: cada vez mais pessoas estão se mudando para terras virgens.

Aposentados e urbanitas em busca de ambientes mais naturais estão adentrando lugares que agora os bombeiros têm de proteger. Esses colonos foram estimulados por municípios que desejam expandir suas bases fiscais e pela tecnologia que permite que as pessoas vivam e trabalhem em qualquer lugar onde haja uma conexão com a internet, disse Ray Rasker, diretor-executivo da Headwaters Economics, consultoria de prevenção de incêndios.

“Mas hoje a floresta é mais inflamável que antes. O resultado é que mais pessoas estão morrendo, mais casas queimando e as agências dedicando mais da metade de seu orçamento para incêndios à proteção de casas.”

O Havaí, por exemplo, esgotou em fevereiro a verba anual destinada ao combate de incêndios florestais, quatro meses antes do verão, a temporada de incêndios mais movimentada.

As equipes anti-incêndios também estão tomando decisões cada vez mais calculadas para deixar o fogo consumir a terra, concentrando seus esforços na proteção das comunidades e das águas e na minimização dos riscos.

Na Academia de Administração de Incidentes e Incêndios Florestais do Arizona, três classes de bombeiros treinaram em março para sua primeira temporada. Os instrutores enfatizaram uma estratégia conhecida como “ataque indireto”, o método mais comum e seguro de combate aos incêndios atuais, que são grandes, muito quentes e voláteis.

A estratégia pede que as equipes cavem uma chamada linha de fogo — zonas tampão despidas de qualquer coisa que queime — longe da borda do fogo, e então queimem a vegetação que fica no meio, privando as chamas do combustível que as alimenta.

Dean Steward, supervisor na academia, disse que 20 anos atrás os incêndios eram pequenos o suficiente para que trilhas de terra, como as usadas por jipes, bastassem para detê-los. Hoje, segundo Steward, “você pode pôr uma rodovia de seis pistas entre sua equipe e o incêndio e o fogo ainda a saltará”.

Por: Matt Richtel e Fernanda Santos
Fonte: Folha de São Paulo

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