Beleza verde: lei facilita pesquisa e populariza insumos da Amazônia

A árvore de pracaxi, planta nativa da Amazônia, produz frutos em forma de vagens que abrigam sementes ricas em um óleo que tem sido muito procurado pela indústria de cosméticos, principalmente para produtos de hidratação para cabelos.

Mas os ribeirinhos também utilizam o óleo de pracaxi para ajudar na cicatrização de picadas de cobra, o que despertou o interesse da Beraca, empresa química especializada em ativos da biodiversidade brasileira, que começou a investir em pesquisas para conhecer melhor a planta.

Foram mais de três anos de pesquisas, e a empresa descobriu que, além de ser bom para o cabelo, o óleo de pracaxi também tem ótimas propriedades para a pele: ajuda no clareamento de manchas e estrias e estimula a produção de colágeno, o que o torna ideal para aplicação em cremes anti-idade.

O pracaxi é um entre tantos ingredientes da Amazônia com potencial para gerar riqueza com a floresta em pé, desestimulando o desmatamento. Nos últimos anos, as empresas de cosméticos começaram a desenvolver cadeias de negócios com comunidades extrativistas, e os ativos amazônicos se tornaram mais comuns na vida do consumidor.

Agora, as pesquisas com a biodiversidade brasileira devem ganhar novo impulso. Um dos últimos atos da presidente Dilma Rousseff antes do impeachment foi regulamentar a lei 7.735/2014, que traz novas regras para o acesso ao patrimônio genético e simplifica os procedimentos para a pesquisa científica.

Antes, para realizar pesquisas com determinada planta, o pesquisador deveria solicitar solicitação prévia ao Ministério do Meio Ambiente. Agora, o governo pretende controlar o acesso ao patrimônio genético com um cadastro de empresas e pesquisadores.

Há mudanças também nas regras sobre a repartição dos benefícios -espécie de royalty pago pelas empresas para as comunidades que detém o conhecimento sobre o uso de determinada planta ou animal. A lei prevê a criação de um fundo para gerenciar esses recursos e reinvesti-los em projetos de conservação.

“A nova lei tem como objetivo facilitar a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos. Ela poderá representar ganho de celeridade e competitividade para a indústria”, afirma Kevyan Macedo, gerente de sustentabilidade da Natura.

A empresa foi uma das responsáveis por popularizar os ingredientes amazônicos em suas linhas de cosméticos. Utiliza castanha, buriti, ucuuba, andiroba, açaí, copaíba e murumuru.

Há 15 anos mantém relações comerciais diretamente com as comunidades e, mais recentemente instalou uma fábrica de sabonetes no Pará.

“Criamos uma área dedicada ao relacionamento com essas comunidades fornecedoras e a nova lei não provoca nenhuma mudança nessa forma de atuar”, diz Macedo.

APELO

A biodiversidade brasileira desperta o interesse dos consumidores em países onde o apelo da floresta é muito forte, como na Europa. “O buriti é mais conhecido lá fora do que no Brasil”, diz Thiago Terada, gerente de assuntos corporativos da Beraca.

A empresa fornece óleos essenciais para mais de 40 países, com grandes clientes, como o grupo francês L’Oréal. Começou a trilhar esse caminho há 15 anos, após a compra de uma startup em Belém criada por professores da Universidade Federal do Pará.

Para que a riqueza da biodiversidade não fique restrita a grandes empresas, o governo paraense está estruturando um arranjo produtivo local (APL) para cosméticos da biodiversidade.

O arranjo foi formalizado no final de 2015, com a adesão de 20 empresas, entre fabricantes de cosméticos, de óleos essenciais e pequenas e médias empresas da região, junto com o Sebrae.

A primeira tarefa do APL será mapear o potencial de fornecimento de matérias-primas dos extrativistas no Pará. Um estudo preliminar apontou cerca de 500 mil associações e comunidades no Estado. O Sebrae também planeja treinar as comunidades em padrões de qualidade para fornecer as matérias-primas para a indústria.

Por: Andrea Vialli
Fonte: Folha de São Paulo

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