Estudo calcula impacto da degradação da Amazônia não captada por satélites

Estudo na ‘Nature’ mostra que a Amazônia perde biodiversidade por conta da degradação florestal.  Mas esse dano não está sendo detectado pelos satélites

Incêndio na floresta amazônica, na região de Paragominas, Pará (Foto: Adam Ronan/Divulgação)
Incêndio na floresta amazônica, na região de Paragominas, Pará (Foto: Adam Ronan/Divulgação)

O desmatamento da Amazônia é um problema bastante conhecido. Para combatê-lo, o Brasil tem uma série de políticas de conservação, sendo que o monitoramento por satélite é um dos mais importantes. Porém, há um tipo de dano à floresta que acontece de forma praticamente invisível. Um novo estudo mostra que o impacto da degradação florestal pode ser tão perigoso, para plantas e animais, quanto o desmatamento. E esse dano passa quase despercebido pelos satélites.

O estudo foi publicado nesta quarta-feira (29) na revista Nature, conduzido pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Ele analisou o impacto que perturbações em áreas de florestas no Pará causam nas espécies de árvores, plantas, aves e insetos amazônicos. O estudo chega a um número assustador: tudo o que foi degradado até hoje na Amazônia do Pará corresponde, em dano à biodiversidade, ao desmatamento de um década inteira.

Para entender o estudo, é preciso antes diferenciar o desmatamento da degradação. Desmatamento também é chamado de “corte raso”. É quando a floresta é totalmente derrubada, usando métodos como o fogo ou o “correntão”. Já a degradação pode ocorrer por cortes seletivos de madeira ou focos de incêndio. No satélite, quando se vê a área que foi degradada, é possível ver cicatrizes ou manchas, mas a floresta ainda está lá, aparentemente saudável. Mas será que a biodiversidade – as espécies de plantas e animais – continua lá?

“Nós já sabíamos que muitas espécies são perdidas com o desmatamento. A gente tinha uma ideia de que, com a degradação, também há perdas de espécies. A grande novidade do estudo é que agora nós quantificamos o dano que a degradação causa”, diz Joice Ferreira, pesquisadora de ecologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e uma das autoras do estudo.

Guaruba, uma ave ameaçada de extinção que sofre impacto de áreas degradadas na Amazônia.  Ela foi uma das espécies analisadas no estudo na Nature que ligou a degradação ao número de espécies em uma área de floresta (Foto: Alexander Lees/Divulgação)
Guaruba, uma ave ameaçada de extinção que sofre impacto de áreas degradadas na Amazônia. Ela foi uma das espécies analisadas no estudo na Nature que ligou a degradação ao número de espécies em uma área de floresta (Foto: Alexander Lees/Divulgação)

O estudo criou um indicador para comparar as áreas preservadas e as degradadas. Em uma área pristina, esse coeficiente de conservação é de 100%. Com a degradação, esse coeficiente cai para 60% ou até 50%, dependendo da região. Ou seja, mesmo áreas que sofreram pouca degradação, a ponto de não ser detectada por satélite, podem ter apenas a metade das espécies que deveriam ter. Quando esse número é extrapolado para todo o Pará, impressiona: a perda de espécies da degradação equivale ao desmatamento de 139 mil km2 de florestas.

Para Joice, os resultados do estudo da Nature mostram que o país precisa, urgentemente, voltar suas atenções também para a degradação florestal. “Nós precisamos avançar no sistema de monitoramento”, diz. Atualmente, o Inpe e o Imazon têm sistemas que monitoram a degradação. Esses sistemas, no entanto, não estão no mesmo nível do Deter e do Prodes, que monitoram desmatamento. São sistemas que emitem alertas quando ocorre o desmatamento, permitindo que equipes do Ibama se desloquem para o local. Isso ainda não existe para enfrentar a degradação.

Outra estratégia importante é buscar incentivos para que os produtores rurais, especialmente os pequenos agricultores, parem de usar o fogo para limpar lavouras. Muitas vezes, o fogo se alastra e danifica áreas conservadas de florestas. O plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC) poderia ser usado para dar alternativas a esses agricultores. Políticas de isenção de impostos para produtores que usam boas práticas podem mover a economia e proteger a floresta ao mesmo tempo.

“Os números mostram que estamos perdendo muita biodiversidade pela degradação e que até o momento isso não está sendo contabilizado. É um problema significativo e precisamos de ações para evitar isso”, diz Joice.

O estudo Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss foi publicado na revista Nature e está disponível neste link, para assinantes, em inglês.

Por: Bruno Calixto
Fonte: Revista Época/ Blog do Planeta

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