Incêndios ameaçam lavouras

Esta semana, vastas áreas foram afetadas em algumas propriedades em Nova Mutum, destruindo plantações de milho ainda não colhidas

Os prejuízos dos produtores rurais de Mato Grosso só têm crescido na safra 2015/2016. A estiagem, que praticamente zerou a produtividade do milho em algumas regiões, é um rastilho de pólvora que aumenta as chances de incêndios em áreas cultiváveis. Esta semana, vastas áreas foram afetadas em algumas propriedades em Nova Mutum, a cerca de 300 km ao Norte de Cuiabá. O episódio comprometerá a produtividade das próximas lavouras de soja e milho plantadas no local, por empobrecer o solo, comenta o presidente do Sindicato Rural de Sinop, Antônio Galvan.

O município está localizado em uma das regiões matogrossenses mais afetadas pelos focos de calor, segundo o major do Corpo de Bombeiros e chefe da Seção de Operações do Batalhão de Emergências Ambientais (BEA) de Mato Grosso, Jean Carlos Arruda de Oliveira. “A questão climática afeta o Estado inteiro, mas o modo de ocupação daquela região, com muita degradação, uso do fogo para limpeza de área e desmatamento potencializam o fogo na região”, considera.

A conclusão é orientada pelo Mapa de Kernel, uma alternativa para análise geográfica do comportamento de padrões. O Mapa revela a intensidade de recorrência de focos de calor em nível estadual. Para prevenir contra essas situações, o major Oliveira reforça que o produtor deve manter uma estrutura adequada nas propriedades, como trator, caminhão pipa, tanques de água e manutenção de aceiros preventivos.

“Todo produtor está bem orientado. Usam tratores e grades para misturar a palha com a terra, mas em alguns horários do dia venta muito e isso dificulta o controle.

Muitas máquinas, inclusive, já queimaram colhendo milho”, comenta Galvan. Ele acrescenta que na área afetada pelo fogo, o solo demora até 5 anos para se recuperar, ainda que seja feita a adubação. O presidente do Sindicato Rural de Sinop comenta que na terça-feira (19) surgiram focos de incêndio em áreas rurais de Vera. “Quando afeta as áreas plantadas com milho o prejuízo é iminente”.

Produtor rural em Nova Mutum, Emerson Ricardo Bonini, relata que 80% da sua propriedade de 250 hectares foram consumidos pelo fogo esta semana. Com base em informações repassadas por vizinhos, que teriam visto alguém estranho na área, ele sustenta que o incêndio foi criminoso. As chamas se propagaram e atingiram outras propriedades do entorno. “O fogo queimou 450 hectares de um vizinho, mais 200 hectares de outro e ainda 170 hectares de um terceiro vizinho”, pontua Bonini.

O produtor com a maior área consumida pelas chamas é Pedro Roberto Pivetta Tissiani. Dos 450 hectares queimados, havia ainda 100 hectares de milho não colhidos. “O que mais queimou foi a palha do milho, mas prejudicará a próxima safra. Dizem que após um incêndio, a produtividade reduz em até 10 sacas por hectare, tanto para soja quanto para o milho”. Nesta temporada 2015/2016, Tissiani colheu 60 sacas por hectare de milho, ante 100 sacas na safra passada. Os prejuízos financeiros de ambos os produtores ainda estão sendo apurados.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), de 1º de janeiro até esta terçafeira (19), foram registradas 8,311 mil queimadas em Mato Grosso, aumento de 40% sobre o número contabilizado no mesmo período do ano passado, quando foram 5,936 mil focos de calor. Os números consideram queimadas urbanas e rurais.

PROIBIÇÃO – Em Mato Grosso, o período proibitivo de queimadas tem duração de 2 meses e se estende até 15 de setembro. Há possibilidade de prorrogação. Os produtores rurais que descumprirem a orientação durante esse intervalo estão sujeitos a penalidades, conforme o Decreto Federal 6.514/2008. As multas variam de R$ 1 mil a R$ 50 milhões por hectare ou fração.

Como reforça a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, entre as condutas passíveis de punição estão fazer uso de fogo sem autorização, causar poluição em níveis que resultem em danos à saúde humana, mortandade de animais ou destruição significativa da biodiversidade e queimar resíduos sólidos ou rejeitos a céu aberto, entre outros. Além disso, pela Lei 9.605/1998, artigo 41, provocar incêndio em mata ou floresta pode resultar em reclusão de 2 a 4 anos, além de multa.

“De julho a setembro é o período mais crítico do ano, devido à seca. Mato Grosso se torna um ambiente favorável para a ocorrência de incêndios acidentais, e o agricultor precisa ficar atento”, alerta a Gerente da Comissão de Sustentabilidade da Aprosoja, Marlene Lima.

Em orientação aos associados, a Aprosoja elabora e divulga anualmente a Cartilha de Prevenção e Combate a Incêndios, que inclui dicas, por exemplo, para que a colheita do milho seja evitada no período mais quente do dia e que seja verificada a direção do vento. Entre os equipamentos úteis aos agricultores estão caminhão ou trator-pipa cheios, bomba d’água, trator equipado com lâmina e grade, abafadores e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) como luvas, óculos, botas e protetores respiratórios.

Em casos de incêndio, a cartilha da Aprosoja orienta a mobilização das pessoas da fazenda e vizinhos para que o fogo não fique incontrolável. Também é necessário acionar Corpo de Bombeiros, prefeitura municipal ou Defesa Civil. É preciso também registrar o fato, por meio de fotos, e fazer Boletim de Ocorrência. Para este ano, o governo de Mato Grosso informou que prevê gastar R$ 1,3 milhão durante o período proibitivo, com fiscalização e monitoramento.

Fonte: A Gazeta

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