Amazonas concilia avanço em pesquisa e aula para índios

 

É na língua ticuna que os alunos do curso de agroecologia da UEA (Universidade do Estado do Amazonas) da comunidade Umariaçu, em Tabatinga, apresentavam um trabalho da disciplina desenvolvimento rural, do 2º ano, no fim do mês passado.

O curso foi criado em 2014 para os indígenas. O pedido veio dos caciques como tentativa de enfrentar a situação cada vez mais grave de alcoolismo, violência e casos de suicídio entre os ticunas.

Para a maioria da turma, o curso é o caminho para melhorar a vida da comunidade. “Meu sonho depois é fazer uma organização ou fundação, de agricultores indígenas e não indígenas, para dar orientação, ensinar como trabalhar melhor a terra”, explica uma das alunas, a indígena Sara del Aguila, 18. A língua padrão por ali é o ticuna, mas todos falam português.

Uma estrada de terra de 6,7 km separa Umariaçu do centro de Tabatinga, cidade do Amazonas na fronteira com a Colômbia e o Peru. Os quase 6.000 indígenas vivem em casas de madeira e alvenaria à beira do rio Solimões.

“O álcool, a violência e a falta de oportunidades são os problemas maiores, mas muitos jovens daqui têm seu sonho”, diz Deoclesio Ruiz, 25, que pretende reforçar a roça da família após a graduação.

A UEA nasceu em 2001 já com o desafio de atuar em um Estado em que parte da população está isolada pela floresta. Muitos locais têm acesso apenas por rios.

A universidade foi a que mais cresceu no RUF 2016 na região Norte do país. Subiu 18 posições e voltou ao grupo das cem primeiras, que ocupava em 2014 –hoje ela é 91ª.

Com exceção do critério de inovação, a UEA melhorou em todos os indicadores que compõem o ranking. Mas o que mais colaborou para o resultado foi o avanço nos índices de ensino e pesquisa.

Aluno do curso de agroecologia da Universidade Estadual do Amazonas às margens do rio Solimões, na comunidade Umariaçu
Aluno do curso de agroecologia da Universidade Estadual do Amazonas às margens do rio Solimões, na comunidade Umariaçu

DESAFIOS

Tabatinga é um dos 13 municípios com unidades fixas da UEA. As aulas para os indígenas são dadas em uma sala emprestada pelo Exército enquanto um prédio dentro da comunidade não é liberado -falta energia elétrica.

Dificuldades logísticas que envolvem, por exemplo, permanência de professores em cidades afastadas e sinal de internet compõem um cenário adverso para a atividade acadêmica. “Temos uma realidade única, é como se não fosse o Brasil”, diz o reitor, Cleinaldo de Almeida Costa.

Ser avaliado com a mesma régua de uma USP, por exemplo, incomoda a reitoria.  Mas, segundo Costa, as condições estão dadas.

“Sem laboratórios e uma rede de conexões de pesquisa, não tenho como produzir ciência. Precisamos de parcerias. Sem diálogo, vamos levar 200 anos para avançar.”

Um laboratório de desenvolvimento de aplicativos criado em 2014 em parceria com a Samsung, em Manaus, possibilitou que 20 mil alunos e visitantes se formassem em cursos rápidos, a maioria de capacitação. A partir dessa iniciativa também surgiu uma graduação e uma especialização em jogos digitais.

A UEA já formou 40 mil alunos de graduação, sendo 864 indígenas. Na pós, foram 978 mestres e doutores.

O curso de agroecologia dos indígenas é presencial. Mas a instituição aposta num modelo mediado por tecnologia: as aulas, feitas de um estúdio em Manaus, são transmitidas ao vivo para o interior. No outro lado, um professor tutor acompanha as atividades e as turmas podem interagir, fazendo perguntas por chat ou vídeo.

Em 2015, praticamente metade dos formados cursou esse tipo de graduação.

Financiada com 1% da receita do polo industrial de Manaus, a UEA tem orçamento estimado neste ano de R$ 400 milhões. Com a crise, o repasse deve ser 25% menor, calcula o reitor.

Por: Paulo Saldaña
Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.