“Conhecer a Amazônia muda nossos valores”, diz jornalista em expedição

Um acontecimento triste, a morte do pai, puxou o fio da meada. Em consequência, veio o convite do primo, morador de Alter do Chão, balneário fluvial próximo a Santarém, no Pará. Que deixasse a metrópole e fosse passar uns dias lá, para desanuviar.

Assim a jornalista bauruense Maria Fernanda Ribeiro pisou pela primeira vez na Amazônia, em fevereiro. Mas na hora de cumprir o roteiro turístico inicialmente proposto, a alma de repórter falou mais alto e ela resolveu navegar o Rio Tapajós e seu afluente Arapiuns, hospedando-se numa comunidade de ribeirinhos.

Poucos dias ali foram suficientes para que comprovasse, como diz a letra de Aldir Blanc na canção Querelas do Brasil, que “o Brasil não conhece o Brasil”. Primeira descoberta: a Amazônia é habitada! Nela há gente que vive em outro ritmo, com outras prioridades, estabelece outras dinâmicas de relacionamento, enfim, está inserida em outra realidade, inimaginável para o povo da cidade: “Na floresta, tudo é trabalhoso. Um banho pode ser uma tarefa árdua”, diz Maria Fernanda.

Na base do vínculo humano mantido por esses povos, verificou a naturalidade do acolhimento ao outro, mesmo que seja um forasteiro – como ela, naquele momento –, a partilha incondicional do teto e do alimento, a informalidade do cotidiano e as noções menos rígidas de espaço e privacidade, que seriam altamente perturbadoras para indivíduos do mundo “civilizado”. Tudo isso, traduzido, significa: proximidade entre as pessoas.

“Voltei outra para São Paulo. Aquele mundo com que eu estava tão acostumada já não fazia mais tanto sentido assim. Constatar cada vez mais gente trabalhando 12 horas por dia, para poder consumir mais, me fez pensar: ‘não é possível que a vida seja só isso’”, relata.

Então começou a desenhar um plano: percorrer todos os estados da Amazônia e escrever um livro sobre os povos da floresta. Organizou-se, providenciou o que era necessário e desligou-se da empresa onde trabalhava havia cinco anos. Como a sorte envia os seus sinais, nesse momento o jornal O Estado de São Paulo interessou-se pelo projeto e, desde então, abriga seu blog Eu na Floresta, que também tem página no Facebook.

Em julho, Maria Fernanda chegou ao Acre e foi direto para Cruzeiro do Sul. No Alto Juruá, participou do Festival Puyanawa. Depois, na Aldeia Mutum, em Tarauacá, do Festival Mariri, com os yawanawás. Por meio do SOS Amazônia, conheceu o projeto de proteção aos quelônios, na Reserva Extrativista (Resex) Juruá, nas proximidades dos rios Tejo e Juruá. Visitou também os povos Huni Kuin, no Jordão, e Kuntanawa, em Marechal Thaumaturgo, região do Alto Juruá.

Também em Thaumaturgo, ficou altamente impressionada com a organização da etnia Ashaninka. “São incríveis, atuam com muita inteligência na preservação da sua terra e de toda a região. Trabalham a conscientização ambiental com os ribeirinhos do entorno, pois sabem que não basta eles próprios estarem bem: se a área ao redor não estiver preservada, também sofrerão as consequências naturais. E se apenas eles estiverem bem, outros irão querer a sua terra”, relata, mencionando o serviço educativo e preventivo que os ashaninkas fazem.

Entre os diversos povos indígenas que conheceu, verificou alguns desafios comuns: o empenho na retomada da cultura após a queda dos ciclos da borracha e as violentas agressões sofridas naquele período, a preservação do espaço territorial e o aprendizado de uma nova interação com a natureza, em face das mudanças climáticas. “Antes, para o plantio, conseguiam ficar ao sol até meio-dia, agora, apenas até as 9 da manhã”, conta Maria Fernanda.

A observação também lhe permitiu reavaliar questões que lhe pareciam indiscutíveis: “As crianças trabalham na aldeia, mas é tranquilo. Elas recebem atribuições de acordo com a idade, que não interferem no seu direito de brincar”.

Para evitar gafes culturais, a repórter relata que costuma ficar três dias apenas observando como se comporta a comunidade, e só depois se sente mais à vontade para interagir: “Os yawanawás, por exemplo, tomam banho sem roupa, os ashaninkas, muito discretos, com a kushma [túnica] deles. É preciso respeitar esses códigos”.

Maria Fernanda planeja seguir para Rondônia e depois outros estados, mas antes deve ir à Resex Chico Mendes, em Xapuri. E, munida de lições de berço, a bordo da rica experiência vai alimentando seu blog: “Conhecer a Amazônia faz a gente mudar de valores e eu gosto de compartilhar o que estou vivendo. Meu pai era médico, e mesmo aposentado e idoso, quando poderia ficar descansando, saía de casa todos os dias para trabalhar em postos de saúde da periferia de Bauru (SP). Ele sempre dizia para nós: ‘Recebi muito. Estudei de graça na USP, preciso devolver o que o Estado me deu’. Então ele me ensinou a partilhar”.

Por Onides Bonaccorsi Queiroz
Fonte: Agência de Notícias do Acre

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