Frigoríficos publicam teste de eficiência no controle de desmatamento na Amazônia

Apesar de resultados positivos na exclusão de fazendas de fornecimento direto, após sete anos de compromisso, frigoríficos ainda não controlam fazendas que lhes fornecem indiretamente e não tem prazo para fazê-lo

Depois de um dia no pasto, gado é tocado por boiadeiros de volta à sede da fazenda, em Castanheira, no Mato Grosso.  Estado possui o maior rebanho bovino do Brasil.  (© Bruno Kelly/ Greenpeace)
Depois de um dia no pasto, gado é tocado por boiadeiros de volta à sede da fazenda, em Castanheira, no Mato Grosso. Estado possui o maior rebanho bovino do Brasil. (© Bruno Kelly/ Greenpeace)

Há dez anos o Greenpeace começava a investigar o avanço do desmatamento ligado à produção agropecuária na Amazônia, tendo como marco o relatório “A Farra do Boi da Amazônia”. A consequência quase imediata foi o compromisso dos três maiores frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva, com o Desmatamento Zero.

Desde 2014, outro passo importante, as empresas signatárias do acordo passaram a tornar públicas verificações independentes que testam a efetividade do sistema de compra de gado em excluir fazendas envolvidas com desmatamento, trabalho escravo, invasão de terras indígenas e Unidades de Conservação. Hoje, os frigoríficos divulgam os resultados da terceira verificação anual, com resultados positivos e pontos que merecem muita atenção.

– Leia os resultados dos frigoríficos na íntegra

Link JBS

Link Marfrig

Link Minerva

De acordo com as empresas de auditoria (BDO e DNV), os três frigoríficos possuem sistemas com bom grau de eficiência, que permitem conhecer as fazendas que lhes fornecem diretamente e também bloquear fornecedores envolvidos com desmatamento, trabalho escravo, invasão em Terras indígenas e Unidades de Conservação e outros problemas listados como critérios mínimos para operar no Bioma Amazônia.

As empresas também aumentaram a compra de fazendas diretas de fornecimento monitoradas através de mapas que detalham com precisão suas dimensões permitindo assim detectar se estão em áreas com ocorrência de desmatamento, existência de terras indígenas e áreas de conservação. A Marfrig seguiu com o patamar que já havia atingido em 2015, com 100% de fornecedores com este tipo de identificação. Embora a JBS ainda não tenha atingido a meta publicada em seu plano de trabalho em 2014, de “não comprar gado de fazendas fornecedoras sem mapa georreferenciado da propriedade a partir de Dez/2014”, a companhia passou de 71%, em 2014, para 80% das compras de gado de fazendas monitoradas em 2015. Já a Minerva tinha 85% de fazendas com mapas no ano passado, esse percentual subiu para 92%.

Apesar de tais avanços, os frigoríficos permanecem descumprindo alguns itens do Compromisso Público da Pecuária. Um deles, assumido há quase 7 anos, diz respeito ao controle sistemático de fazendas que fornecem INDIRETAMENTE para essas companhias. “Como o gado é bastante movimentado ao longo da vida, se não houver controle das fazendas que fornecem para quem vende diretamente para os frigoríficos, o gado ‘livre de desmatamento’ pode estar misturado com animais que podem ter vindo de áreas devastadas. Quem paga o pato, além da floresta, somos todos nós, pelos impactos que o desmatamento traz”, afirma Adriana Charoux, da Campanha da Amazônia do Greenpeace.

Este é um momento crucial para ampliar a responsabilidade na cadeia de produção pecuária na Amazônia. Graças às políticas Desmatamento Zero assumidas pelas três maiores redes de supermercados do país – Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart –, os médios e grandes frigoríficos que operam na Amazônia não podem mais adiar a adoção de critérios de controle de fazendas, a exemplo do que fizeram JBS, Marfrig e Minerva.

Mais ambição

Da mesma forma, já passou da hora dos três grandes frigoríficos signatários do Desmatamento Zero, que sozinhos representam algo em torno de 70% do volume de abate no Bioma Amazônia, assumirem também o controle sistemático dos fornecedores indiretos. “As empresas pouco fizeram para resolver a questão. Embora seja algo complexo, as empresas já mostraram, através do monitoramento geográfico das fazendas diretas, tido no passado como algo impensável e inviável, que isso é possível e necessário. É uma mudança inevitável já que o mercado já tem demandado este tipo de controle”, reforça Charoux.

Outro ponto que merece destaque, embora não possa ser considerado como não conformidade, é que todos os frigoríficos continuam comprando de fazendas sem o Cadastro Ambiental Rural (CAR), fundamental no controle de desmatamento e cuja exigência legal, instituída pelo novo Código Florestal, foi mais uma vez adiada pelo governo federal. “As empresas precisam se antecipar à lei se quiserem diminuir os riscos em sua cadeia de produção. Além disso, são indutoras poderosas no cumprimento desta importante política pública”, lembra Adriana.

Informação ao consumidor

Um mecanismo fundamental que extrapola o conteúdo das auditorias em si, fundamental para ampliar a transparência e o controle social da cadeia de produção da carne é a listagem de fazendas fornecedoras.

As companhias frigoríficas que assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal (MPF) devem manter em suas páginas de website a lista de fazendas fornecedoras. Para que o consumidor possa, através do número do Sistema de Inspeção Federal (SIF) que consta nas embalagens das carnes vendidas, consultar essa informação. Com este dado pode-se localizar a fazenda e saber se ela está numa área com desmatamento, relacionada a trabalho escravo e outros problemas. No entanto, essa avaliação tem sido prejudicada.

Em 2015, a Marfrig suprimiu completamente a informação de sua página. A Minerva só coloca o nome da fazenda e município, o que inviabiliza localizar com precisão de qual fazenda vem de fato a carne que chega ao consumidor. E a JBS mantém algumas informações que não podem ser validadas, pois os nomes das fazendas e proprietários não correspondem à localização geográfica informada.

Outros impactos da cadeia de produção de carne

Assados anos desde o início da campanha de gado do Greenpeace, é fato que muitos consumidores ainda não se dão conta dos diversos problemas associados à produção e consumo de carne. Embora os efeitos das mudanças climáticas já estejam sendo vivenciados por diversas populações ao redor do mundo, ainda é difícil para muitos associá-la à pecuária e a destruição florestal.

A pecuária é um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia, que gera grande quantidades de gases do efeito estufa. Por isso, combater este problema é urgente e diz respeito a todos. A jornada de sensibilização do consumidor para o impacto dessa cadeia é um desafio a ser assumido por meio de políticas governamentais de estímulo à produção sem desmatamento. Mas, também por diversos atores da sociedade que promovam alternativas mais responsáveis estimulando inclusive a redução do consumo de proteína animal, uma vez que os limites do planeta não conseguem suportar o atual padrão de produção e consumo.

Em 2015, o Greenpeace lançou o relatório Carne ao Molho Madeira e, com a ajuda e pressão da sociedade, temos enfim as três maiores redes de supermercados do Brasil – Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart – comprometidas publicamente em banir o desmatamento da carne que chega à mesa do consumidor. A jornada não foi fácil, tampouco está perto do fim para zerar o desmatamento ligado à pecuária. O cenário atual indica que cerca de 70% de toda a área de floresta perdida na Amazônia foi convertida em pasto (TERRACLASS, 2014).

Fonte: Greenpeace

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