Índios do Bolsa Família são enganados por lojas e lotéricas

Lalo de Almeida - 24.ago.2016/Folhapress
Lalo de Almeida – 24.ago.2016/Folhapress

O difícil deslocamento até a cidade para retirar o dinheiro do Bolsa Família e a desinformação sobre o funcionamento do programa têm deixado famílias indígenas vulneráveis a fraudes cometidas por comerciantes e por lotéricas encarregadas de distribuir os cartões.

No Xingu, índios relatam que lojistas das cidades do entorno retêm os cartões junto com a senha como garantia para compras a prestação.

Em 2014, a prática foi alvo de uma ação da Polícia Federal em Canarana (MT). Segundo o coordenador regional da Funai, Kumaré Txicão, foram apreendidos cerca de 200 cartões na época.

O problema é generalizado no país, aponta relatório deste ano do Ministério do Desenvolvimento Social, com base em pesquisas etnográficas feitas por antropólogos em sete terras indígenas.

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“O controle sobre os cartões, a título de garantir o pagamento da dívida contraída, é tamanho que as pessoas acabam alienando-se do valor que recebem ou deveriam estar recebendo de acordo com as regras de cálculo do programa”, afirma o estudo.

“Há nisso um forte indício de conluio entre comerciantes e especialmente os estabelecimentos lotéricos. No caso desses últimos, verificou-se que alguns funcionários aproveitam-se das dificuldades de entendimento e de manuseio dos indígenas do sistema de cartão magnético para dar-lhes somente parte do valor da bolsa, ou mesmo dizer-lhes que não há nada para receber, aparentemente apropriando-se desse recurso não repassado aos indígenas”, diz o texto.

O relatório recomenda que o Bolsa Família passe por adaptações, como uma ação informativa para explicar o programa, criação de pontos de saque mais próximos das terras indígenas e o acionamento da PF para “desbaratar as redes de exploração e expropriação de indígenas”.

O ministério afirma que o estudo é da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e que “o atual governo está tomando as devidas providências, inclusive junto ao Ministério Público Federal, buscando soluções eficazes”.

Por: Fabiano Maisonnave
Fonte: Folha de São Paulo

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