Fiscalização em áreas desmatadas gera tensão entre fiscais do IBAMA

Fiscais tentam surpreender desmatadores em Lábrea, no Amazonas. Entre agosto de 2015 e julho de 2016, foram 1.362 áreas desmatadas.

O desmatamento ilegal provoca perdas imensas para natureza da Amazônia e alimenta uma série de outros problemas em Lábrea, no estado do Amazonas.

Entre agosto de 2015 e julho de 2016, os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, registraram 1.362 áreas de desmatamento em Lábrea.  Em uma delas, as derrubadas ainda estavam em curso e os fiscais do IBAMA tentaram surpreender os desmatadores em um flagrante.

O helicóptero se aproximou rapidamente e pousou entre as árvores. Por terra, a aproximação teve de ser cuidadosa.

labrea01A equipe de fiscalização do IBAMA viu do helicóptero um acampamento. Foi necessário manter distância, pois nesse tipo de situação há riscos. Os fiscais ficaram com as armas em punho, com medo de algum tipo de surpresa. Na mata havia um barracão de lona. Nessa hora, a tensão dos fiscais foi evidente. Os desmatadores deveriam estar na área, provavelmente armados. No acampamento todo montado havia roupas, utensílios de cozinha e barracas. Os fiscais não encontraram pessoas. A suspeita é de que tinham fugido para a floresta.

Segundo o IBAMA, esse é o tipo de acampamento mais usado pelas equipes de desmate. Um lugar bem equipado, onde quatro ou cinco pessoas podem ficar dias ou até semanas na floresta. Ao lado das barracas foram encontrados um gerador de energia e combustível, que pode ser usado em motosserras. Tudo material seria apreendido.

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Perto do acampamento, o cenário não deixou dúvidas de que a derrubada era recente. Logo após o corte com motosserra, a área que acabou de ser desmamatada fica com várias pilhas de galhos e troncos amontoados.

Em outro lugar, ainda em Lábrea, havia mais uma área com desmatamento em curso e sem proprietário registrado em cadastros oficiais.

desmatamento_labreaEm geral, invasores de terra ou fazendeiros contratam pessoal de outras regiões. Normalmente, são pessoas pobres, arrebanhadas por empreiteiros e que nem conhecem os donos da área. Pessoas que fazem um trabalho clandestino e perigoso.

A violência e a lei do silêncio são tão fortes na região, que há dificuldade em encontrar pessoas com coragem de falar sobre o desmamento. Mas, a equipe de reportagem localizou uma pessoa que trabalha nas derrubadas. Com medo da ação de pistoleiros, ela somente aceitou dar entrevista com a voz modificada e sem mostrar o rosto.

“Eu trabalho com motosserra, corte de tora e desmatamento. É porque é o meu meio de sobreviver. O meu ramo é esse. A diária varia de R$ 150 a R$ 200. A diária de motosserra é alta por causa do risco que a pessoa corre, até o risco de vida. Ainda é pouco, eu acho”, disse o entrevistado.

Como o trabalho é clandestino, os trabalhadores não têm carteira assinada e nenhum direito formal. Eles não recebem treinamento nem material de proteção. Os acidentes são comuns.

O desmatamento e a luta por espaço também geram tensão e violência entre pequenos produtores, madeireiros e grandes fazendeiros. Em 2011, esse conflito resultou na morte de Adelino Ramos. Líder comunitário, Ramos lutava para viabilizar um projeto de assentamento do INCRA, chamado Curuquetê, que nunca saiu do papel. O projeto atraiu dezenas de pequenos produtores para o sul de Lábrea, em busca de um pedaço de terra. A situação gerou atritos com fazendeiros locais.

A ocupação do sul de Lábrea também alimenta toda uma cadeia de atividades econômicas, muitas vezes baseadas na ilegalidade. É uma engrenagem do desmatamento que fica evidente em Extrema, vilarejo em Rondônia que é a porta de entrada para a parte sul do município amazonense. No local há lojas de motosserra e madeireiras grandes e pequenas.

Uma família, que foi do Paraná para Rondônia, vive do transporte de toras e do aluguel de tratores usados para a abertura de estradas e outros serviços.

A engrenagem do desmatamento se repete em vários pontos da Amazônia e foi ganhando força nos últimos anos, invertendo uma tendência de redução das derrubadas. Em 2004, a região perdeu 27.772 quilômetros quadrados de florestas. Nos anos seguintes, com a melhoria da fiscalização, acordos e uma série de ações do estado, o ritmo das derrubas despencou. Em 2012, o desmatamento ficou na casa dos 4,5 mil quilômetros quadrados. O problema é que de 2013 em diante o número parou de cair e voltou a subir, passando de 6,2 mil quilômetros quadros em 2015.

O desmatamento ilegal no sul de Lábrea também ocorre em projetos públicos que, em tese, deveriam promover o uso sustentável da terra. Esse é o caso do assentamento Gedeão. Em 2007, esse projeto organizado pelo INCRA distribuiu lotes para 160 famílias. A promessa era fazer um assentamento no modelo agroflorestal, com estrutura, cooperativa e assistência técnica para os agricultores. Mas, nada disso virou realidade. Com o isolamento e falta de estrutura, a grande maioria dos assentados vendeu os lotes. O que é ilegal. Muitas vezes, as áreas acabaram nas mãos de pecuaristas, que derrubaram a floresta para fazer pasto.

Assentamentos abandonados e pobreza, invasão de terras públicas e trabalho clandestino, violência e morte. O caso de Lábrea, no sul Amazonas, revela que o desmatamento ilegal é uma tragédia que associa crimes contra a natureza, contra os direitos humanos, contra a sociedade brasileira e contra o planeta, de maneira geral.

Por: Vico Iasi
Fonte: G1

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