Os Juruna da aldeia Miratu choram a morte de Jarliel

Jarliel lidera dança Yudja em uma praia vizinha da aldeia Miratu, durante a Canoada Bye Bye Xingu, em 2015|Lilo Clareto
Jarliel lidera dança Yudja em uma praia vizinha da aldeia Miratu, durante a Canoada Bye Bye Xingu, em 2015|Lilo Clareto

Ele morreu quando mergulhava para pescar acari a 25 metros de profundidade.  Um de seus irmãos culpa a barragem de Belo Monte por ter levado os peixes que ficavam na cachoeira ou no raso para águas profundas, obrigando-os a mergulhos mais perigosos

Jarliel Juruna, o “Jarla”, 20 anos, morreu nesta quarta-feira, 26 de novembro, mergulhando para pescar acari marrom. Ele estava a cerca de 25 metros de profundidade quando parou de respirar e foi puxado para a superfície da água, já sem vida. Uma tragédia para a Aldeia Mïratu, na Terra Indígena Paquiçamba, uma tragédia para os Juruna* da Volta Grande, uma tragédia para o Xingu.

Deixou seus pais, irmãos, sua esposa e filho recém nascido sem ação, sem chão, tontos…. Giliarde Juruna, cacique da Aldeia Mïratu e irmão de Jarliel, manteve o olhar para dentro da mata atrás da casa de palha onde funciona a cozinha da comunidade em silêncio quase absoluto. Outro irmão, Jair Juruna, o “Negão”, estava revoltado:“Nunca precisamos pegar acari numa fundura dessas, mas com a barragem os peixes que pegávamos bem ali na cachoeira e no raso sumiram, e temos que sustentar nossas famílias. A Norte Energia tá brincando com a gente, cadê os projetos produtivos? Se alguma coisa tivesse funcionando nós estaríamos fazendo outro trabalho e não colocando a vida em risco para sustentar nossas famílias. Olha aí o resultado”.

Do outro lado do continente, no Peru, Bel Juruna representava o seu povo em uma reunião com outras lideranças indígenas da América Latina falando justamente sobre a violência de Belo Monte sobre o Xingu e seu povo. Soube da notícia e ficou desolada, sem conseguir chegar a tempo para o sepultamento de Jarliel, o irmão mais novo que ajudou a criar.

Jarla era um jovem animado e brincalhão, bastante dedicado, estava concluindo o ensino médio e sonhava em logo entrar na universidade. Um dos guerreiros de seu povo, fez parte de diversas ocupações em Belo Monte para lutar pelos direitos dos indígenas do Xingu.

Um dia a história de Belo Monte será contada em toda a sua integralidade e seus impactos reais na vida dos povos xinguanos serão reconhecidos. Que Jarla se junte ao grande guerreiro Miratu em outro plano e some esforços com os que ficaram na terra contra Belo Monte e contra as diversas formas de destruição dos povos indígenas e tradicionais do Xingu.

Os donos do rio

Os Yudja, ou Juruna, como são conhecidos na região, habitam as ilhas e margens do Xingu, são os “donos do rio” pelo grande conhecimento do Xingu e por terem migrado da foz até as cabeceiras ao longo dos últimos séculos.  A Miratu é uma das aldeias da Terra Indígena Paquiçamba a pouco mais de 10km abaixo de uma das barragens da Hidrelétrica de Belo Monte.  O povo sofre diversos impactos e um deles é sobre a pesca.  Os Juruna fazem um monitoramento independente da pesca em parceria com a Universidade Federal do Pará e o ISA, com apoio da Fundação Mott que revela as consequências que a atividade vem sofrendo ao longo dos anos.  Jarliel era um dos monitores da aldeia Miratu a fazer esse monitoramento.

Por: Marcelo Salazar
Fonte: ISA

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