Adeus, capitão Krohokrenhum

Morto aos 90 anos, líder do povo gavião Parkatejê era incentivador da cultura e das práticas tradicionais de sua comunidade

Grande cantador e visionário, Krohokrenhum havia se lançado ao projeto de reagrupar seu povo e refazer aquela sociedade, para “serem muitos outra vez”
Grande cantador e visionário, Krohokrenhum havia se lançado ao projeto de reagrupar seu povo e refazer aquela sociedade, para “serem muitos outra vez”

No dia 18 de outubro, enquanto o movimento indígena lutava em Brasília contra um golpe militar-evangélico na Funai e resistia ao desmanche do sistema de saúde, faleceu, no Pará, o grande líder do povo gavião Parkatejê, Krohokrenhum.

Ele representava, como são os grandes chefes indígenas, tal como Ailton Krenak me explicou uma vez aqui nessa coluna, sujeitos coletivos: “Digo coletivos porque eles não viveram para eles sozinhos, mas para suas famílias, seus povos.”

Perder Krohokrenhum em um momento tão difícil como agora é uma verdadeira bomba para os gavião, mas para todos os povos indígenas. Para refletir sobre a dimensão profunda dessa passagem, convidei a antropóloga Iara Ferraz, uma brava guerreira que visitou pela primeira vez o povo Gavião em janeiro de 1975, enquanto era estudante de antropologia da USP. Desde então, ela nunca mais deixou de acompanhar a luta deste povo e lutar ao lado deles.

Ailton Krenak havia me dito que perder pessoas cuja memória depende da tradição oral é ainda mais triste no sentido de que ficam poucas referências para se conhecer o pensamento delas. “São como as árvores no outono; as folhas vão caindo e a gente fica frustrado com as perdas”

No entanto, nesse caso, graças ao trabalho de Iara Ferraz, da linguista Leopoldina Araújo, do cineasta e indigenista Vincent Carelli, e do trabalho de muitos jovens Gavião, seja no cinema ou na escrita, todos eles liderados por Krohokrenhum, felizmente será possível conviver, por muitos e muitos anos, com as ideias e até mesmo com a belíssima voz do canto de Krohokrenhum. Registros de um tempo histórico e que irão certamente inspirar novas gerações Gavião a se conhecerem, conhecer sua história, e fortalecerem-se como sujeitos coletivos para um futuro de muitos desafios de existência.

Abaixo, o lindo e emocionante artigo escrito por Iara Ferraz, com colaboração de Leopoldina Araújo, Juliano Almeida e Vincent Carelli, para essa coluna e em homenagem a Krohokrenhum e ao povo Gavião.

Adeus, Capitão

Por Iara Ferraz, com colaboração de Leopoldina Araújo, Juliano Almeida e Vincent Carelli

“A lei não serve para mim. Não sou kup?. Eu só quero viver até ir embora. Não sou pedra, não. Quero que vocês pensem na vida. A vida é curta e não tem pra onde correr” (05/7/2016).

Foi assim que Topramre Krohokrenhum Jõpaipaire, conhecido como “Capitão”, chefe dos Gavião Parkatejê de Mãe Maria, no sudeste do Pará, encerrou a última reunião de que participou, na aldeia, com representantes da mineradora Vale e da Funai.

O “capitão” Krohokrenhum esteve à frente de seu povo por mais de 60 anos.

Vivenciou o início do contato quando, na década de 30, começava a exploração da castanha do Pará na margem direita do médio rio Tocantins e a invasão de seu território tradicional. Aquela área tornou-se ainda mais visada quando a extração se intensificou em meados dos anos 60, com a abertura da rodovia PA 70, atual BR 222, atravessando a terra indígena Mãe Maria, entre os rios Flecheiras e Jacundá, reservada aos Gavião por decreto estadual desde 1943.

Depois da quase extinção de seu povo devido a guerras e conflitos internos e às doenças contraídas com o contato com os kup?, os não-índios, em meados dos anos 50, os 15 Parkatêjê restantes (povo Jê-Timbira), liderados por Krohokrenhum, aceitaram um acordo de realocação proposto pelos agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) para “proteger os castanhais” de invasores e ocupar Mãe Maria, parte de seu vasto território tradicional.

Em 1966, foram transferidos do igarapé Praia Alta, no município de Itupiranga, local onde haviam se dado os primeiros contatos pacíficos com um missionário dominicano, Frei Gil Gomes Leitão, para a reserva Mãe Maria, nas proximidades de Marabá.

Ali, pelos dez anos seguintes, passariam a ser utilizados pela própria agência tutelar, a FUNAI, como mão de obra para a coleta da castanha, em regime de semi-escravidão e dívida.

Mas em 1976, profundamente descontentes com aquela situação, tendo à frente o “capitão” Krohokrenhum, os Gavião Parkatejê conquistaram a autonomia da comercialização da castanha do Pará e retomaram o controle de sua vida, em termos econômicos, políticos e culturais.

Grande cantador e visionário, Krohokrenhum havia se lançado ao projeto de reagrupar seu povo e refazer aquela sociedade, para “serem muitos outra vez”, como costumava dizer, chamando de volta os que haviam sido deixados por ele, ainda crianças, aos cuidados de regionais, para que sobrevivessem.

Voltaram a realizar os ciclos cerimoniais de longa duração, retomando o corte timbira tradicional dos cabelos, o uso dos nomes próprios na língua materna e a divisão em metades rituais, a cantar, correr com a tora e jogar flechas.

Em 1979, enquanto o país discutia o projeto de anistia, a FUNAI tentava empurrar o projeto da “emancipação” da tutela dos povos indígenas, eximindo o Estado de sua responsabilidade.

Com a autonomia conquistada com a comercialização da castanha, os Gavião Parkatejê disseram “não” ao projeto do governo militar, em coro com as organizações de apoio da sociedade civil que começavam a se formar naquele contexto de distensão, rumo à redemocratização do país.

Novas e significativas batalhas viriam a se intensificar, tendo Krohokrenhum sempre à frente. A passagem por Mãe Maria das linhas de transmissão de alta tensão da Eletronorte, oriundas da usina hidrelétrica de Tucurui, então construída sobre o território de um outro grupo local, os Gavião Akrãtikatejê (da montanha) viria a destruir grande parte dos castanhais, além de passar sobre as roças, a aldeia e o cemitério em Mãe Maria.

Entre 1976 e 1980, foram pioneiras as negociações diretas com a empresa estatal, com o apoio e assessoria jurídica independentes que resultaram em uma indenização monetária paga diretamente aos Gavião Parkatejê.

Reconstruíram a aldeia, que retomava sua forma circular tradicional. Aquelas tratativas sinalizavam a possibilidade de um modo distinto de as sociedades indígenas se relacionarem com os agentes do Estado – esse era o reconhecimento buscado pelo “capitão” Krohokrenhum. Não eram “índios ricos” como a mídia insistia em afirmar.

A década de 1980 seria marcada por duras negociações, embates, convênios e acordos diretos, desta vez com a então estatal Cia. Vale do Rio Doce para a passagem da Estrada de Ferro de Carajás pelo sul de Mãe Maria, seccionando aquele território. A unidade de seu povo, sempre enfatizada por Krohokrenhum, seria rompida através das pressões da empresa, privatizada em 1997, provocando cisões internas a partir do ano 2000.

Ao longo de toda a sua vida, o “Capitão” foi o grande incentivador da cultura e das práticas tradicionais de seu povo. Exímio arqueiro e conhecedor dos cantos e da mitologia, sempre se preocupou em transmitir os conhecimentos aos mais jovens.

Ao longo de 40 anos, juntamente com a linguista Leopoldina Araújo, da UFPA, publicaram trabalhos sobre a língua e a cultura timbira, como suporte para as novas gerações, entre eles um dicionário histórico com 2800 verbetes, concluído e editado há cerca de um mês.

A preocupação do “capitão” Krohokrenhum em registrar em vídeo os cantos e rituais fez com que o projeto Vídeo nas Aldeias, em 1985, documentasse o ritual do “Pemp” e o intercâmbio cultural com os Krahô, “Eu já fui seu irmão” (1993).

Em um dos últimos registros a pedido de Krohokrenhum, “Eu não vou morrer de graça”, realizado em 2011 por Vincent Carelli e Vídeo nas Aldeias, mostra que ele sabia que o fim se aproximava, mas que seu legado seria permanente.

O grande líder do povo indígena Gavião Parkatêjê faleceu em Belém no dia 18 de outubro, com cerca de 90 anos, vítima de pneumonia. E no dia 20, ao sol do meio dia, foi sepultado em Mãe Maria sob forte emoção de todos os integrantes das doze atuais aldeias e de muitos admiradores.

No canto final, um jovem aprendiz quebrou o maracá, instaurando um profundo silêncio que marcou o fim de uma era em Mãe Maria e, talvez, na história dos movimentos indígenas no Brasil.

Por: Felipe Milanez
Fonte: Carta Capital

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