Biometria e voto perto de casa fizeram Manaus ter menor índice de abstenção

O menor índice de abstenção nas urnas registrado neste domingo (30) em Manaus desde 2000 pode ser explicado em função da revisão biométrica, do rezoneamento de locais de votação e do envolvimento emocional dos eleitores provocado pelas campanhas dos candidatos que disputaram o pleito, segundo especialistas ouvidos pelo UOL.

Na contramão do alto índice de abstenção registrado em outros municípios, Manaus teve neste segundo turno 119.473 eleitores (9,5%) aptos a votar que não compareceram às urnas. Na última eleição municipal, em 2012, esse índice foi quase o dobro (18,8%).

Os dois feriados próximos ao dia da votação do segundo turno fizeram com que o TRE-AM (Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas) projetasse uma abstenção de até 18%, mesmo com a cidade tendo passado por revisão biométrica neste ano. A revisão atualizou o sistema de eleitores e excluiu os que já morreram ou não moram mais no município.

“No segundo turno, nossa expectativa era de 18% de abstenção por causa do feriado prolongado. De forma surpreendente, o índice de abstenção ficou em 9,5%”, afirmou o diretor-geral do TRE-AM, Messias Andrade.

Para o doutor em comportamento do consumidor pela Universidade Federal de Minas Gerais Afrânio Soares, que há 15 anos trabalha com pesquisas de mercado e eleitorais em Manaus, a biometria e o rezoneamento dos eleitores foram fatores importantes na diminuição do índice de abstenção na capital do Amazonas.

“Antes da biometria tínhamos dados irreais e isso inflacionava o índice de abstenção. Acho que 2016 é um marco para este campo. Vamos analisar esse dado da abstenção em Manaus antes e depois da biometria”, afirmou.

O TRE-AM realizou rezoneamento dos locais de votação e os eleitores foram habilitados a votar em seções próximas às suas casas. “Fez toda diferença porque as pessoas votaram mais rápido e com mais comodidade. Isso incentiva o voto”, avaliou Afrânio Soares.

Emocional Afrânio Soares afirmou que a real razão do que levou o eleitorado às urnas neste domingo pode ter variáveis diferentes e precisaria de um estudo mais profundo para ser identificada. Ele indicou, porém, algumas hipóteses relacionadas ao sentimento do eleitor.

“As pessoas se sentiram motivadas por algum motivo. Pode ter sido porque determinado candidato foi muito atacado nos meios de comunicação, além da normalidade. Ou por uma operação da Polícia Federal durante a campanha foi associada a pessoas que apoiavam determinado candidato. Essas questões podem causar comoção no eleitor, sentimento de que alguém está sendo vitimizado ou de indignação”, disse.

Em Manaus, o prefeito Artur Virgílio Neto (PSDB) se reelegeu. Antes da votação do primeiro turno, a Polícia Federal deflagrou a operação Maus Caminhos e anunciou investigação sobre desvio de R$ 220 milhões para instituição contratada pelo governo do Amazonas. O partido do governador José Melo (Pros) e sua base aliada apoiaram o candidato derrotado Marcelo Ramos (PR). O tucano usou essas informações na propaganda eleitoral.

Na véspera da votação do segundo turno, alegando publicação irregular, a Justiça Eleitoral concedeu ao candidato Artur Neto direito de resposta na capa do jornal “A Crítica”.

O doutor em Processos Socioculturais na Amazônia do programa Sociedade e Cultura no Amazonas da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e cientista social Wilson Nogueira afirmou que o aspecto emocional do eleitor favorece a participação nas urnas.

“O acirramento muito forte da disputa eleitoral deste ano dos dois lados mobilizou a paixão nos eleitores. O ser humano é motivado à competição. As campanhas podem ter mobilizado esse sentimento no eleitor. Precisaria de um estudo mais aprofundado, mas essas são hipóteses que podem ajudar a explicar o que ocorreu”, analisou.

Afrânio Soares não acredita que participação do eleitor de Manaus nas urnas esteja ligada a uma rejeição ao PT ou à aprovação do governo federal. “O voto da maioria do eleitorado em Manaus não é ideológico, e sim emocional. Quando o eleitorado deu maioria de votos a Dilma ou ao Lula, no Amazonas, não era por causa do PT. Era porque gostavam do Lula e do [senador Eduardo] Braga. Se o Lula fosse do PSDB, votariam do mesmo jeito”, afirmou. Braga foi aliado dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff no Amazonas enquanto os dois estiveram no comando do governo federal.

Soares afirmou ainda que pesquisas eleitorais indicavam até uma semana antes da votação um índice maior de eleitores brancos e nulos do que foi registrado no segundo turno. Neste domingo, o índice de votos nulos foi de 5,16%, enquanto o de votos em branco foi de 2,64%, o maior desde 2000.

“Tivemos uma migração desses eleitores. A diminuição do índice de brancos e nulos na véspera da votação foi fora da margem de erro, então houve uma migração. Algo motivou esse eleitor a desistir de não participar e escolher um dos dois candidatos. A maioria migrou para o Artur Neto”, afirmou.

Por: Rosiene Carvalho
Fonte: UOL

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