Crédito e assistência técnica precisam andar juntos na Amazônia

Ainda falta entender que a Amazônia tem diferentes realidades, diz Idesam

A carência de assistência técnica e o pouco uso do crédito agrícola são problemas que andam lado a lado na Amazônia, afirmou Mariano Cenamo, pesquisador do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam). Segundo ele, a questão da documentação no estado do Amazonas é um problema profundo e prejudica os produtores, que não estão aptos a pegar o crédito agrícola. “Crédito sem assistência técnica não funciona e vice-versa. As duas coisas precisam andar juntas e, no Amazonas, não temos nenhum dois”, criticou.

A maior parte dos produtores não consegue solicitar o crédito rural por não se adequar aos requisitos exigidos pelos bancos. Segundo o Banco do Brasil, do total de crédito de custeio destinado ao Brasil em 2015, a região Norte acessou somente 2,07%. Por outro lado, os bancos também não estão preparados para lidar com projetos complexos que envolvem novas tecnologias de produção, e estas também dependem de assistência para serem adotadas. “Apesar de termos as políticas públicas, não existe um sistema para operacionalizar e fortalecer esse setor”, disse.

A Agricultura de Baixo Carbono (ABC) também depende de diversos fatores para ir para frente no Amazonas e um deles é a difusão de informação e assistência. “Para mudar todo o cenário, precisamos colocar isso nos currículos das universidades, nos órgãos de pesquisas. O que falta são resultados práticos para influenciar essa balança que hoje está muito mais voltada para agronegócio tradicional do que o sustentável”. Mariano defende que os Dias de Campo e projetos de capacitação se tornam essenciais para acelerar esse processo como formas de criar multiplicadores.

Outro fator importante é compreender que a Amazônia pode ser um ambiente hostil se não forem consideradas as condições que ela impõe aos novos modelos de produção. “Ainda falta ao governo federal entender que a Amazônia tem diferentes realidades e não pode ser tratada como as outras regiões do país ou ser vista como uma coisa só. A paisagem rural e ambiente de produção do Acre é completamente diferente do Pará”. Para Mariano, um exemplo disso no Amazonas é o Plano ABC Estadual, o qual foi construído, mas não tem motivação para continuar por não se adequar às necessidades locais.

Para que se melhore a assistência técnica e se inicie um processo de mudança no setor, conforme Mariano, o primeiro passo é envolver cada vez mais o setor privado, que tem grande potencial para fazer isso acontecer. “No caso da assistência, nem os melhores órgãos públicos competem com as iniciativas do setor privado. Exemplo disso é o ganho de produtividade que se atinge com projetos pilotos de apoio aos produtores. Esses projetos precisam de mais escala”.

Por: Talise Rocha
Fonte: Observatório ABC

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