Carne ao Molho Madeira: um balanço da luta contra a ilegalidade

Pouco mais de um ano após o lançamento da nova fase da campanha, que busca acabar com o desmatamento da Amazônia causado pela produção de carne, redes varejistas progridem, mas ainda precisam avançar bastante

Ativistas do Greenpeace conversa com consumidora em frente a supermercado
Ativistas do Greenpeace conversa com consumidora em frente a supermercado

Há um ano, o Greenpeace lançava o relatório Carne ao Molho Madeira, que mostrou como as sete maiores redes de varejo do Brasil lidavam com o problema de fornecimento de carne proveniente de áreas de desmatamento. A avaliação revelou que nenhum supermercado conseguia garantir que 100% da carne comercializada era livre de crimes socioambientais.

De lá para cá, três das principais redes de supermercado do País se comprometeram em adotar medidas para garantir o controle sobre a carne que vendem. Veja mais sobre os compromissos assumidos pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA), Walmart e Carrefour

Mas o desafio que existe adiante é ainda bastante grande. Cada supermercado está num estágio diferente de implementação. Apenas o Walmart já exclui fazendas envolvidas com desmatamento, trabalho escravo, invasão de Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

Embora GPA e Carrefour estejam em processo acelerado de implementação de sistemas de controle de seus fornecedores, ainda não estão excluindo de fato quem está em desacordo com a destruição da floresta.

“Numa perspectiva de aumento consecutivo de dois anos do desmatamento, sendo que neste último o aumento chegou a quase 30% e teve índices elevadíssimos em estados com grande produção pecuária ou rebanho em expansão, a sinalização de que empresas irão fechar as portas para o desmatamento de uma vez por todas é mais do que urgente”, defende Adriana Charoux, da campanha da Amazônia do Greenpeace Brasil.

Vale lembrar que cabe ainda às empresas ampliar a demanda por políticas públicas que facilitem a transparência e a governança, e que facilite a gestão de risco privado das empresas que seguem investindo para a estabilidade da economia do país.

O Desmatamento Zero é o que os consumidores brasileiros e internacionais querem. Então, é bom que empresas e governos acelerem o passo na implementação de suas políticas e também pressionem os governos para que favoreçam as demandas da sociedade. Porque os cidadãos não vão mudar de ideia.

Veja detalhes do status de implementação de cada supermercado:

Grupo Pão de Açúcar

Em março deste ano, graças a pressão dos consumidores que foram às lojas perguntar de onde vem a carne que vendem, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) assumiu um compromisso de garantir que a carne oferecida em suas lojas seja totalmente livre de desmatamento e crimes socioambientais na Amazônia.

De lá pra cá, apresentaram a rede apresentou os resultados preliminares da implementação da política em meados de julho deste ano que você pode conferir aqui. Respeitando a exigência de transparência imposta pelo acordo. Na semana passada, o Greenpeace teve outra reunião com a empresa. Em resumo, os resultados práticos até agora são:

  • De todos os fornecedores de carne da empresa, todos foram comunicados sobre a nova política de Desmatamento Zero e convidados a assinar um novo contrato com o supermercados concordando com as novas regras;
  • Todos os frigoríficos e processadores foram mapeados, visitados e questionados se tinham algum sistema de monitoramento geográfico das fazendas de gado que forneciam para eles.  Dos 27 fornecedores, 17 não tinham nenhum sistema;
  • Para os que não tinham sistema de verificação, O GPA desenvolveu, em cooperação com a empresa Safetrace e a ONG TFT, o manual de orientação de fornecedores e de uma plataforma que permita informar o supermercado da localização das fazendas que abastecem as redes.  A ideia da plataforma é integrar todos os fornecedores, independentemente de qual sistema eles utilizem para obter essa informação geográfica das fazendas.  Estão também desenvolvendo aplicativo para facilitar o engajamento de produtores;
  • De acordo com o GPA, de um total de 27 fornecedores, entre frigoríficos e processadores de carne, 17 estão finalizando adaptações de requisitos técnicos para serem cobertos pelo sistema de rastreabilidade.  Quatro frigoríficos ou processadores se recusaram a adotar a nova política e se não aderirem, serão excluídos da lista de fornecimento.
  • O processo de implementação da política deve ser finalizado ao longo de 2017 e contará com exclusão de frigoríficos e produtores que nãoo aderirem ao Desmatamento Zero e demais critérios que compõem o Compromisso Público da Pecuária.

Carrefour

Em agosto, o Carrefour, líder de varejo alimentar no país, também se comprometeu a somente comprar de quem não está desmatando a Amazônia e disse que irá incorporar a política para todos os biomas.

Contratou uma empresa de geomonitoramento que está fazendo análise territorial das áreas de maior e menor risco para aquisição de matéria prima no bioma Amazônia. Estão em fase de adequação de protocolo de análise de fornecedores de carne e implementação de uma ferramenta de controle. Após esta etapa, qualquer pedido de compra da rede deve vir de áreas e fazendas controladas não apenas com base em documentação pública, mas também de análise geográfica.

Estão fornecendo apoio de Assistência Técnica aos frigoríficos que apoiam fazendeiros a adotar procedimentos que facilitem o controle dos critérios assumidos. A auditoria do sistema está prevista para o segundo semestre de 2017.

Walmart

Em maio, Walmart assumiu publicamente sua política de compra de carne bovina livre de desmatamento na Amazônia e afirma que após três anos de desenvolvimento, a implementação do Sistema de Monitoramento foi 100% concluída em dezembro de 2015, contando com a participação de todos os fornecedores de carne bovina que possuem plantas frigoríficas no Bioma (ou que estejam fora do Bioma, porém com alguma interface com ele dentro de um raio de 300km). Dessa forma, 100% do volume de carne bovina comprado pelo Walmart no Brasil é monitorado e controlado desde esta data.

Afora isso, desde o evento de 25 de maio de 2016 em que anunciaram a política foi em relação à expansão do monitoramento para os outros biomas. Realizaram uma visita técnica em 100% dos fornecedores de carne bovina do Walmart no Brasil para diagnosticá-los individualmente sobre diversos aspectos como (i) nível de conhecimento sobre os critérios socioambientais, (ii) nível de controle de informações de originação, entre outros pontos relevantes para entendimento do cenário e traçar a estratégia de monitoramento, que ainda está em desenvolvimento.

Para fechar o mercado para a carne produzida à base de desmatamento, os maiores supermercados brasileiros devem continuar a implementar seus sistemas de controle de forma robusta. Um grande desafio precisa ser enfrentado em 2017: o fornecimento indireto de fazendas que não aceitam os critérios de Desmatamento Zero. Eles acabam contaminando a cadeia de produção das fazendas que já se comprometeram a produzir de forma responsável. Esta “lavagem” de carne de origem duvidosa deve ser interrompida completamente se os supermercados quiserem fechar suas lojas para carne ligada ao desmatamento.

É também urgente que outros supermercados, como DB, líder nos estados do Amazonas, Rondônia e Roraima, Comper, maior no Mato Grosso e Censosud, que lidera as vendas em diversos estados do Nordeste, caminhem nessa mesma direção. A sociedade ainda espera ações dessas empresas neste sentido.

Fonte: Greenpeace 

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