Experiências sobre o cuidado na abordagem do uso de álcool por indígenas são relatadas em oficina

A oficina tem o objetivo de discutir, de forma conjunta, a construção de princípios éticos que orientem as políticas públicas voltadas ao cuidado referente ao uso de álcool e outras drogas entre os povos indígenas, visando à construção de diretrizes para as ações de saúde mental entre povos indígenas.

Intitulado “Povos Indígenas e necessidades decorrentes do uso de álcool: cuidados, direito e gestão”, o evento é promovido pela Fiocruz, Funai e Ministério da Saúde, entre os dias 12 e 14 de desse mês, em Brasília-DF.

A ideia surgiu da necessidade de aprofundamento do debate e de construção de horizontes de ação entre as instituições envolvidas. Desde 2013 o Grupo de Trabalho Intersetorial sobre Saúde Mental e Povos Indígenas, formado por representantes do Ministério da Saúde e Funai, vem atuando com o propósito de analisar conjuntamente prioridades e construir estratégias a serem realizadas junto às equipes dos diversos territórios.

Relatos de experiências

Um dos momentos da oficina foi reservado aos relatos de experiências das instituições participantes sobre saúde mental, bem viver e povos indígenas, que mostrou a importância de se romper paradigmas, descontruir preconceitos e, sobretudo, respeitar a cultura e a forma de ver o mundo dos povos indígenas.

Para Edinaldo dos Santos Rodrigues, psicólogo pertencente ao povo Xukuru do Ororubá, representante do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Pernambuco e referência técnica da Rede de Atenção Psicossocial, o violento processo de colonização vivenciado pelos povos do litoral pode ser entendido como um dos principais motivos para o uso de álcool e outras drogas, bem como as ocorrências de transtornos mentais, entre indígenas do Nordeste.

“A perda da vivência da cultura, a discriminação e a perda dos territórios refletem no nosso modo de viver. O grande desafio para o ‘bem viver’ dos povos indígenas do Nordeste é sobreviver em um território completamente devastado. A produção de alimentos é baixa, vivemos uma das piores crises hídricas dos últimos tempos e alguns povos não têm sequer essa terra devastada. É difícil viver desvinculado da Mãe Terra”, destacou. Ele também apontou para a quebra de paradigmas nas práticas de saúde, tal como a participação dos pajés, como um avanço para a construção de políticas públicas voltadas às populações indígenas.

Oficinaalcoolvander Foto: Mário Vilela/Funai A experiência do “Mutirão para a Efetivação do Direito à Convivência Familiar e Comunitária das Crianças e Jovens Indígenas do Cone Sul do Mato Grosso do Sul” foi apresentada pelo coordenador regional da Funai em Dourados (MS) Vander Aparecido Nishijima.

O Mutirão foi uma atuação da Funai, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Saúde e Secretaria Nacional Antidrogas, realizada nos municípios de Ponta Porã e Dourados (MS). A equipe do Mutirão realizou ações de diálogo e sensibilização junto a representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Conselhos Tutelares, Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente e Instituições de Acolhimento.

O coordenador falou sobre os desafios iniciais encontrados para implementar as ações, que foram sendo superados com a iniciativa do Mutirão: “O Conselho Tutelar não respeitava o Estatuto da Criança e do Adolescente e as crianças eram retiradas das famílias, que, por sua vez, não recebiam atendimento. Nos processos de adoção, muitas vezes o Ministério Público não ouvia a Funai e negava o direito dos povos indígenas de viver conforme seu modo de vida”.

“Essa fase foi superada”, contou o coordenador da Funai. Ele observou o avanço que se teve ao promover o debate entre as instituições, que passaram a desenvolver suas atividades respeitando as competências de cada órgão, e se inteirando da política indigenista e de suas ações.

Da região de Formoso do Araguaia, estado do Tocantins, surgiu a experiência que resultou na redução do número de suicídios entre indígenas, após com uma força-tarefa, realizada em 2013, pelos técnicos do Centro de Atenção Psicossocial. Segundo a psicóloga Teruco Higa, o resultado foi alcançado após os técnicos perceberam a importância de se manter o vínculo com a comunidade, por meio de atividades esportivas que valorizaram o modo de ser dos Javaé. “Nós buscamos aprender com os próprios indígenas, com um olhar diferenciado para cada povo”, disse Teruco.

Por: Eleonora de Paula
Fonte: Funai

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