Há saídas para a insanidade do desmatamento da Amazônia

O fim do desmatamento é uma bandeira que o Brasil precisa tecer agora

Os dados do desmatamento da Amazônia divulgados nesta semana confirmam o que já se antevia: o corte raso de floresta tropical segue a galope, ceifando aquele que é um os maiores patrimônios naturais do planeta.

Desde 2008, não se viam taxas de desmatamento assim tão altas. De agosto do ano passado a julho deste ano, o Brasil perdeu de floresta nativa o equivalente a cerca de 800 mil campos de futebol. Pelos números do governo, o desmatamento no período chegou à marca dos 7.989 quilômetros quadrados, quase 30% a mais do que na medição do ano anterior.

Tirando um pequeno grupo de bandidos que lucram com essa sangria verde, a sociedade brasileira não ganhou nadinha com toda essa floresta posta no chão. Ao contrário. Perdemos ativos da biodiversidade de altíssimo valor. Foram-se plantas e animais que talvez a ciência nem sequer possa suspeitar de sua existência. É como queimar os livros de uma biblioteca de raridades sem sequer termos aberto suas páginas.

É assustador, considerando que nos próximos dias serão divulgadas novas espécies, que acabam de ser descritas na Região Norte do Brasil. O que se foi, jamais saberemos. Perdemos árvores centenárias, milhares delas. Comprometemos o fornecimento de água. Destruímos hábitats e esperanças. Agravamos ainda mais a crise climática, emitindo quantidades absurdas de gases do efeito estufa. Nos distanciamos dos próprios compromissos brasileiros em relação à amenização das mudanças climáticas.

Na maior parte dos desmatamentos que ocorrem na Amazônia, os benefícios dessa conversão foram direcionados a uma pequena oligarquia rural ou à pecuária de baixa produtividade que será implementada nessas terras. Ou na especulação dessas áreas, ironicamente mais valiosas agora.

No escuro

Não fosse apenas o obscurantismo de derrubar a floresta para em cima plantar capim – e mais tarde especular com o valor acrescido da terra –, também não sabemos quanto desse desmatamento é feito com base na lei.

Sim, a legislação florestal do Brasil permite que se arrase a floresta mais cobiçada do planeta. No caso da Amazônia, o Código Florestal em vigor permite o corte raso de 20% de cada propriedade privada.

Com a abertura dos dados do Cadastro Ambiental Rural anunciada nesta semana, finalmente, poderemos começar a fazer a distinção entre o corte legal e o ilegal.

Mesmo assim, será preciso muito empenho, vontade política e esforço técnico para distinguir a intrincada trama de sobreposições de terra para que o Ibama possa punir os desmatadores. Mas fiscalização somente não basta. Nunca bastou e nunca bastará.

O que não significa que desmatamento legal seja algo com que se possa conviver nessa confluência planetária, em plena crise climática global, em que os cientistas têm apelado para que não se derrube mais nenhuma árvore, sob pena de pagarmos altíssimo preço pela devastação acumulada.

Mesmo porque não é necessário derrubar árvore alguma para que se plante e crie gado o suficiente para manter a robusta economia exportadora de commodities do país. Terras degradadas e antigos pastos serão a nova fronteira agrícola do Brasil. O desmatamento vai passar a ser algo inaceitável. Rumamos para o desmatamento zero. Queimar floresta para criar gado e plantar grãos está com os dias contados.

Chocolate

A despeito do desmatamento – e apesar da ideia dominante que o mantém vivo –, a Amazônia Brasileira tem sido pródiga em experiências exitosas na valorização da floresta em pé. Esta sim, plena de ganhos para a sociedade.

Como exemplo emblemático, temos o caso do plantio conjugado de cacau com floresta. Nos últimos cinco anos, enquanto o desmatamento crescia em regiões de fronteira ao sul do Pará, a produção de cacau do estado saltava de 68.400 toneladas produzidas para 105.800 toneladas anuais. Um aumento de 13% ao ano, com expansão de 38% da área cultivada. A renda entre os produtores que investem no cacau também cresceu 146%, na carona da progressiva elevação do preço da amêndoa no mercado internacional. Entre os produtores, boa parte opera na agricultura familiar, muitos com lavouras 100% orgânicas.

No Amazonas, o cacau também embala sonhos de futuro em locais como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Madeira, mantendo na floresta agricultores que ajudam a proteger a floresta.

Esse é apenas um de muitos exemplos. Ou seja: há saídas economicamente viáveis e socialmente justas para a insanidade do desmatamento. E com ganhos para toda a sociedade. Inclusive aquela que vive distante dos lonjuras amazônicas. Mas a sociedade tem de encampar isso. No mercado, nos governos, nas tribunas, no cotidiano de cada um. O fim do desmatamento tem de ser a nova bandeira do Brasil. E tecê-la é o que já estamos fazendo.

* Jaime Gesisky é jornalista, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil.

Marco Lentini é engenheiro florestal, líder de florestas do WWF-Brasil

Fonte: Blog do Planeta/ Revista Época