O falso dilema para manter a caixa-preta

Nas últimas semanas a Confederação Nacional da Agricultura – CNA – e outras organizações do setor agropecuário brasileiro vêm alegando que os dados do Cadastro Ambiental Rural, conhecido pela sigla CAR, precisam ser mantidos sobre sigilo porque coloca em risco a segurança nacional ao dar informações aos países concorrentes sobre nossa produção e potencialidades. Depois do debate esfriar um pouco fica ainda a sensação estranha de escutar, e continuar escutando, um argumento como esse vindo de organizações de classe tão politizadas e antenadas com a tecnologia e demandas dos mercados consumidores.

A agricultura hoje se beneficia de uma parafernália enorme de novas, e velhas, tecnologias que estão envolvidas desde a previsão do tempo até a agricultura de precisão que usa satélites para traçar a rota de seus maquinários em tempos de plantio e colheita. Tudo isso feito por empresas brasileiras e internacionais, mas usando ferramentas de coleta de dados que não ficam sob nosso controle.

E são essas mesmas tecnologias que nos permitem ter imagens com precisões métricas do solo, seu uso ou o que o cobre (vegetação natural, plantios florestais ou agrícolas e pastagens) e, até mesmo, o que se encontra no sub-solo. Ou seja, saber dos limites das propriedades não altera em nada a capacidade dos agricultores estrangeiros, e concorrentes, conhecer nossa produção, produtividade e potencialidades. Essas informações também já estão disponíveis através de várias formas como, por exemplo, através quantidade de insumos agrícolas comercializados, sendo a maior parte por empresas multi-nacionais, dá para se saber o potencial produtivo de algumas commodities.

Além das questões relacionadas a produção agrícola existem as questões ambientais, o que para os concorrentes estrangeiros também não muda nada com os dados abertos do CAR pois a medição e divulgação dos dados do desmatamento, por enquanto só na Amazônia mas que logo também acontecerá no Cerrado, são feitos anualmente pelo INPE e divulgados pelo Governo. Sim, são dados agrupados para o pais e o que pode fazer com que os agricultores cumpridores da lei sejam colocados no balaio daqueles que não cumprem com o Código Florestal. Lembra da história de somente uma laranja podre no saco acaba por estragar todas?

Ou seja, para os concorrentes não interessa essa propriedade ou aquela pois o desmatamento está ocorrendo para a produção agropecuária do Brasil e é nesse ponto onde o CAR e sua divulgação faz toda a diferença, diferencia os bons produtores daqueles que não cumprem a lei e competem de forma desleal pelo mercado.

A máxima de que quem não deve não teme é totalmente aplicada aqui.

Com a divulgação dos dados do CAR aquele custo do bom produtor para comprovar que seu produto tem boa procedência, respeita as leis ambientais, contribui para os esforços globais na manutenção no clima e, assim, conquistar mercados diferenciados praticamente acabou. Bastará ele fornecer seu número de cadastro para que o comprador ateste que sua propriedade atende a legislação, que se não cumprida e cobrada aqui, pode não acontecer lá no destino do produto pois, cada vez mais, os consumidores e governos estão atentos as condições sob as quais as commodities agrícolas são produzidas.

O setor agrícola, e ambiental, brasileiro deu um grande passo para a modernização da forma com que produzimos e conservamos a natureza e o Governo um grande passo na direção da verificação da implementação de nossas leis, especificamente o Código Florestal, aprovado com grande maioria dos representantes do povo incluindo aí os ruralistas que agora não querem que a lei seja cumprida.

Parabéns Brasil!! Que em 2017 tenhamos ainda mais sucesso na melhoria de nossa governança e aplicação de nossas leis.

Por: Mauro J.C Armelin, diretor executivo da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira
Fonte: Amazônia.org

Deixe um comentário