Indígenas protestam contra reintegração de posse em terreno no Tarumã, em Manaus

Área com mais de um milhão de metros quadrados é alvo de disputa judicial desde 2014.  Mais de 130 famílias vivem lá

(Foto: Geraldo Farias)
(Foto: Geraldo Farias)

Moradores da comunidade Parque das Tribos, no bairro Tarumã, na Zona Centro-Oeste de Manaus, fizeram neste domingo (22) uma marcha contra uma nova decisão judicial que autorizou a reintegração de posse do terreno onde vivem 27 tribos indígenas. A cacique Lutana Kokana apresentou documento assinado pelo juiz Ricardo Augusto de Sales do Tribunal Regional da 1ª Região (TRF1), autorizando a reintegração. Ainda não há uma data para a realização da reintegração de posse.

A área com mais de um milhão de metros quadrados onde fica o Parque das Tribos é alvo de uma disputa judicial desde 2014, ano de criação da comunidade. A estimativa é de que mais de 130 famílias vivam na comunidade. A briga pelo terreno é com o empresário Hélio Carlos D’Carli, que afirma ser o proprietário da área.

Kokana disse que a marcha dos indígenas é em defesa das etnias que só têm aquele terreno para morar e das demais pessoas que encontraram refúgio no local. Ela explica que não é a primeira vez que uma decisão judicial determina a reintegração de posse da área e que tem medo da chegada de máquinas derrubando as casas.

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A cacique Lutana Kokana afirma que não há invasão e que ela e sua família estão no local desde 2004, quando saíram da comunidade Cristo Rei. “Esse empresário D’Carli sempre atormenta a gente pra sair. Agora tem essa decisão nova que saiu dia 11 de janeiro de 2017. Esse é um parecer dizendo que a gente pode ter uma reintegração de posse. Nós temos medo, pois da última vez que teve reintegração, passou a data, eles vieram depois com um reintegração falsa e derrubaram as nossas casas. Nós fomos pra frente do Fórum e conseguimos ficar”, explicou Kokana.

Segundo informação da cacique o terreno pertence ao seu pai. “Ocupamos essa terra que era do meu finado pai, João Diniz Albuquerqe. Esse D’Carli não é dono. A gente não invadiu nada. Ocupamos uma terra que já é nossa”, disse a cacique. Lutana Kokana é filha do casal de índios João Diniz Albuquerque, do povo Baré, e Raimunda da Cruz Ribeiro, da etnia Kokama, que na década de 1980, saíram de Tefé em busca de estudo e, trabalho e tratamento de saúde em Manaus, na cidade grande.

Assustador

Para Maria Benedita Santos, da tribo sateré-mawé, moradora da comunidade há pouco mais de um ano e meio, situação é assustadora. Ela se sente ameaçada de perder sua casa. “É difícil pra gente. Nós viemos em busca de moradia. Quem está aqui, não é porque querem, e sim porque precisam. É sempre assustador pra gente e muito humilhante passar por isso”, lamentou.

Delmir Siverino Pereira que veio de Coari há dez anos buscar uma vida melhor em Manaus disse que nessas horas se apega a Deus. “A gente não pode fazer nada além de se apegar com Deus, para que ele nos ajude a ficar aqui nesse lugar. A gente precisa de casa. A minha família é grande, são 14 contatos meus filhos e netos”, disse.

O diretor-presidente da Fundação Estadual do Índio (FEI), Raimundo Atroari, disse que a situação do Parque das Tribos está em constante briga judicial, mas que a situação pode ser resolvida pela Prefeitura de Manaus. “O processo de desocupação da área está sub judice há muito tempo e estamos aguardando uma solução. Quem pode resolver isso é a Prefeitura de Manaus, pois a área é de responsabilidade do município. A Funai (Fundação Nacional dos Índios) é que dá assistência pra eles nessa situação e nós somos informados depois. O prefeito Arthur Neto prometeu, no período eleitoral, resolver o problema se fosse eleito. Acho que o prefeito que tem de falar sobre essa situação”, frisou Atroari.

Por: Geraldo Farias
Fonte: A Crítica

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