Pesca e floresta garantem renda a ribeirinhos das ilhas do rio Tocantins

Pesca do mapará, um peixe delicioso, produz um espetáculo em uma região de natureza exuberante do Pará.

O Globo Rural visita as ilhas do Rio Tocantins, no Pará, uma região exuberante da Amazônia. Um lugar onde os ribeirinhos vivem dos frutos da floresta e da pesca de um peixe delicioso, o mapará.

Localizada às margens do rio Tocantins, no nordeste do Pará, Cametá foi fundada no século 17 e ainda abriga casas e igrejas do período colonial. Hoje, com mais de 100 mil habitantes e um porto movimentado, a cidade é o principal polo econômico da região.

Uma das principais atrações de Cametá é o mercado municipal que funciona todos os dias no período da manhã. No lugar tem tudo o que é tipo de produto regional. O destaque é para os peixes do rio Tocantins, como tucunaré, filhote, tambaqui, caratinga, camarão de água doce e mapará, o peixe mais importante da região.

Parente do filhote e da dourada, o mapará é um peixe de couro, sem escamas. Existem três espécies na Amazônia. A mais comum no Tocantins é a hypophthalmus marginatus. A carne é clara e tem poucas espinhas.

Com 2,4 mil quilômetros de comprimento, o Tocantins é um dos maiores rios do Brasil. Ele nasce em Goiás, corta o estado de Tocantins, fazendo divisa com o Maranhão, e atravessa parte do Pará até chegar ao sul da ilha de Marajó.

No trecho final, chamado de baixo Tocantins, o rio atravessa municípios paraenses como Baião, Mocajuba, Limoeiro do Ajurú e Cametá. Em muitos pontos, o leito é largo, com barcos passando o tempo todo.

Além de ser movimentado e gigantesco, o baixo Tocantins é marcado por ilhas e ilhotas de diversos tipos de forma e tamanho. Mas para quem viaja de barco na altura do rio não é fácil identificar o contorno das ilhas nem a dimensão do arquipélago. Para se ter uma ideia mais clara da geografia da região, o melhor é ver tudo do alto.

De cima, o primeiro aspecto que chama atenção é a quantidade de ilhas. Só no município de Cametá há 105 grandes, além de dezenas de ilhotas menores. O conjunto forma desenhos bonitos e um labirinto canais e passagens. Um traço central das ilhas é que são baixas, com muitas várzeas e poucas áreas de terra firme.

Professor da Universidade Federal do Pará, o geógrafo Rosivanderson Corrêa fez mestrado e está fazendo um doutorado sobre a região. “É uma das maravilhas da Amazônia, onde você tem a presença do homem amazônida, com o seu modo de vida peculiar, com a sua identidade e vivendo a relação não só econômica, mas afetiva com o rio”, diz Côrrea.

Para conhecer melhor essa civilização das ilhas, o Globo Rural visitou uma comunidade de ribeirinhos. O destino é a ilha de Saracá. Nascida e criada em Saracá, Maria de Jesus Ferreira é uma das líderes da ilha. Ela explica que Saracá tem 610 habitantes. Alguns moram em casinhas isoladas, mas a maior parte das pessoas vive em povoados. As casas ficam suspensas por pilares e todas são ligadas por pontes de madeira.

Na ilha de Saracá, o sustento dos moradores vem de produtos da mata como cacau, buriti e, principalmente, do açaí, que é abundante na região. A aposentadoria rural e os programas sociais como Bolsa Família também são fontes de renda fundamentais, além da pesca artesanal. Aos 85 anos, seu Dorcelino Costa, o seu Teté, já pegou muitos peixes no Tocantins.

A redução do volume de mapará no baixo Tocantins é uma realidade que preocupa o povo das ilhas. Muitos ribeirinhos não respeitam o defeso, período oficial de suspensão da pesca, que vai de novembro a fevereiro. Apesar dos problemas, o mapará continua sendo fundamental para a renda e para a alimentação dos ribeirinhos. A abertura da pesca, quando acaba o defeso é sempre um momento marcante para as comunidades.

Em Saracá, os preparativos começam na véspera da abertura com uma reunião dos pescadores. Terminada a reunião de trabalho, as mulheres entram em cena cantando o siriá, um tipo de música tradicional dessa região do Pará. No centro da roda ficam objetos ligados aos principais produtos das ilhas: uma peneira, usada para coar açaí; a armadilha, para pegar camarão; e uma rede de pesca.

Enquanto a cantoria continua no barracão, outro grupo já começa a embarcar o material que será usado para a pesca do mapará. O pescador Raimundo Ferreira explica que a rede precisa ser forte porque um certo visitante pode aparecer no meio dos peixes. “A rede sendo fina, se o boto pegar, ele rasga”, diz.

Em seguida, já na igrejinha, ocorre uma cerimônia católica. O objetivo é pedir proteção, fartura na pesca e respeito à natureza. A música que encerra o encontro foi criada pelos próprios ribeirinhos.

No dia 1º de março, data da abertura da pesca, o sol vai raiando preguiçoso e o pessoal de Saracá já está na ativa. O trabalho de pesca começa com um serviço complicado: procurar os cardumes de mapará na imensidão do rio. Para isso, os pescadores contam com uma equipe especializada, comandada pelo taleiro, personagem fundamental dessa atividade.

Experiente, o pescador José Barra, o seu Zequinha, vai na frente da canoa mergulhando a vara comprida, chamada de tala. Enquanto os taleiros tentam localizar os cardumes de mapará, os outros pescadores do grupo ficam no aguardo, prontos para entrar em ação. A espera pode levar horas.

De repente, a calmaria se transforma em agitação. Esse momento é decisivo. Os taleiros já deram o sinal, os cardumes já foram localizados e o grupo segue em fila para fazer o bloqueio do mapará.

O bloqueio, ou borqueio, como dizem na região, nada mais é do que cercar o cardume no rio. A rede é lançada por dois barcos que vão fazendo um grande círculo. Quando os dois grupos se encontram, os ribeirinhos amarram as pontas da rede e o cercado está pronto. Com o mapará preso, os pescadores vão fechando o círculo e, aos poucos, deixando o peixe com menos espaço.

O serviço precisa do apoio de um time de mergulhadores. Além das boias em cima, a rede tem chumbo na parte de baixo. O bloqueio é normalmente feito em áreas onde a profundidade do rio não passa de dez metros. Conforme o trabalho avança, vários barcos, com turistas e moradores da região, se aproximam do bloqueio.

Aos poucos, o bloqueio vai mudando de forma e o volume de curiosos aumenta. É tanto barco e tanta gente tirando foto que a polícia precisa ser acionada para evitar acidentes.

Uma hora e meia depois do início do bloqueio, finalmente o trabalho vai chegando ao fim com a rede mais apertada e os barcos em volta. Em instantes, é possível ver os peixes. Para retirar o cardume do rio, alguns dos pescadores entram no cercado e enchem os cestos.

O trabalho é pesado e leva tempo. A produção do dia, com mais de uma tonelada de peixe, é despejada em um barco da comunidade. Com tanto mapará, muitos visitantes ficam ouriçados e fazem de tudo para conseguir um pouco. A doação, em pequena quantidade, faz parte da tradição. Mas a polícia continua presente para evitar exageros.

A agitação da abertura da pesca se repete, ao mesmo tempo, em vários pontos do rio Tocantins. Terminado o bloqueio, os barquinhos retornam para a ilha de Saracá. O mapará é dividido entre os pescadores e os membros da associação de pesca. Cada família da ilha também recebe um pouco de peixe para consumo próprio.

O pessoal de Saracá faz o bloqueio do mapará de duas ou três vezes por mês. O trabalho é realizado sempre fora do período do defeso e com redes autorizadas por lei, evitando, por exemplo, o uso de malha fina para não pegar peixe pequeno.

Com o peixe na brasa e uma boa conversa, as famílias de Saracá comemoram o início de mais uma temporada de pesca do mapará, uma fonte de renda e alimento para milhares de pessoas nas ilhas do baixo Tocantins.

Fonte: G1

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