A convite da Imperatriz, lideranças indígenas desfilarão na Sapucaí

Após participarem de coletiva de imprensa na Cidade do Samba, representantes dos povos indígenas se preparam para participar do desfile da Imperatriz Leopoldinense

Lideranças reunidas com os representantes da Imperatriz Leopoldinense após a coletiva de imprensa (© Todd Southgate)

“O índio luta por sua terra Da Imperatriz vem seu grito de guerra”

Esta é parte do enredo “Xingu – o clamor que vem da Floresta” da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval 2017, que gerou polêmica no setor do agronegócio, que alegou desrespeito aos trabalhadores do campo.

O carnavalesco Cahê Rodrigues abriu a coletiva de imprensa defendendo o enredo. “Nunca foi intenção da escola agredir ninguém com esse carnaval”, disse ele. “Quando a Imperatriz resolveu levantar essa bandeira, a gente não queria fazer apenas mais um enredo de samba. Quisemos homenagear esses grandes guerreiros que fazem parte da história do Brasil. Nossa mensagem é: respeito ao índio brasileiro”.

Para dar voz aos indígenas, a escola de Ramos convidou uma comitiva de lideranças pra integrar a coletiva de imprensa, dando a oportunidade dos homenageados exporem sua realidade.

Raoni Metuktire, cacique do povo Kayapó, agradeceu a oportunidade e alertou sobre a destruição das florestas. “Eu não gosto de desmatamento nas áreas indígenas, e não gosto de poluição nas águas. Não aceito Belo Monte. Não aceito que entrem nas Terras Indígenas para fazer mineração. Quero preservar para meus netos. Quero que eles morem na floresta, e eles precisam de mato e rio para sobreviver”, defendeu o ancião.

Para o povo Juruna, a destruição que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte trouxe é irreversível. “Moro onde está situado o Belo Monstro. É uma catástrofe. É muito desrespeito que estamos passando. Destruiu nossa floresta e a nossa aldeia. Agora vem a Belo Sun [empresa de mineração] em nossa região. Que essa empresa canadense deixe o que é nosso na nossa terra, e que o governo nos respeite e preserve a nossa natureza.”, colocou Bel Juruna, liderança do povo Juruna da Volta Grande do Xingu. A Belo Sun está propondo o maior projeto de mineração de ouro do Brasil.

Na opinião de Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o carnaval é mais que uma simples festa. “Esse samba enredo é um instrumento de defesa de direitos. O Carnaval pode ser muito mais que uma fantasia. Pode politizar o debate, fortalecer a luta e valorizar a modo de vida dos povos indígenas”.

Há mais de trinta anos atuando na defesa dos direitos humanos em sua região, Antonia Melo, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, disse que é importante mobilizar os povos indígenas não só do Brasil, mas de toda a Amazônia. “Queremos trazer aqui a aliança de todos os rios da PanAmazônia. Nossos vizinho que sofrem a mesma perseguição e destruição”, disse ela.

Agora a expectativa é no desfile, uma experiência única na vida dessas lideranças indígenas. A oportunidade é única: levar ao Brasil e ao mundo inteiro a pauta indígena e sua importância. Acompanhe o desfile no domingo, dia 26.

Ensaio geral

No dia anterior (23), a comitiva de lideranças indígenas compareceu ao último ensaio da Imperatriz Leopoldinense na quadra da escola, em Ramos. Os representantes dos povos indígenas foram apresentados pelo presidente e pelo carnavalesco à comunidade, que recebeu os convidados com muitos aplausos. Principal homenageado, Cacique Raoni Kayapó discursou agradecendo a receptividade da escola e ressaltou a importância de levar a questão indígena ao Carnaval.

“Estou muito feliz de estar aqui com vocês. Chegamos cansados da viagem, mas ficamos muito contentes de fazer parte desse momento tão importante”, disse Raoni.

Ameaças que vêm de Brasília

No Congresso Nacional tramitam inúmeros projetos de lei e iniciativas legislativas para reduzir os direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal de 1988. Desde propostas para liberar a mineração e o avanço do agronegócio sobre Terras Indígenas até medidas para minguar os atendimentos básicos, como saúde e educação, nessas comunidades.

A mais perigosa de todos é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que visa transferir o poder de demarcação de Terras Indígenas do poder executivo para as mãos dos deputados e senadores. Se aprovada, essa proposta representaria na prática o fim da demarcação de terras, uma vez que a grande maioria dos parlamentares são próximos da ala ruralista.

Agora os povos indígenas enfrentam mais uma grave ameaça aos seus direitos – ameaça que, dessa vez, vem do Executivo. A Portaria nº 80/2017, expedida em janeiro pelo Ministério da Justiça, cria um grupo especial para acompanhar o processo demarcatório, o que deve fazer prevalecer decisões políticas sobre as técnicas que fundamentam os pareceres da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Perfil das lideranças

Raoni Metuktire – é o Cacique do Povo Kayapó. Raoni é uma das lideranças indígenas mais conhecidas e respeitadas no Brasil e no mundo. Figura icônica da preservação da floresta, o líder octogenário assumiu a liderança dos txucarramãe e garantiu a demarcação de parte das terras de seu povo.

Antonia Mello – é a Coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos humanos em sua região. Chegou a Altamira, no Pará, ainda criança e lá se formou na luta contra os projetos desenvolvimentistas como a hidrelétrica de Belo Monte. Em sua trajetória, Antonia chegou a ser ameaçada de morte por coordenar a criação da reserva extrativista de Terra do Meio, também no Pará, uma região que representa um dos maiores blocos de conservação do Brasil, o corredor de biodiversidade do Xingu.

Bel Juruna – liderança do povo Juruna da Volta Grande do Xingu, Bel Juruna é considerada uma das grandes resistências contra a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e ajuda a comunidade a lidar com as consequências da obra representando os interesses de seu povo desde a aldeia até Brasília.

Sônia Guajajara – a Coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) é outra referência de liderança indígena no Brasil e também no mundo. Sônia compôs diversas organizações indigenistas antes de chegar a APIB e ajudou a construir inúmeros espaços de debate sobre os direitos dos índios como o Conselho Nacional de Política Indigenista.

Alessandra Munduruku – uma das liderança do povo Munduruku no Tapajós, Alessandra é importante opositora da construção da Usina Hidrelétrica de São Luiz e tem presença constante da capital federal, onde participa de reuniões estratégias com outros grupos e organizações em resistência aos diversos projetos do governo para reduzir seus direitos.

Fonte: Greenpeace

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