Imperatriz Leopoldinense vai levar os índios do Xingu para a Sapucaí

Escola de Ramos foi alvo de críticas do setor de agronegócio por conta do enredo

O carnavalesco Cahê Rodrigues entre alegorias do desfile - Custódio Coimbra / Agência O Globo
O carnavalesco Cahê Rodrigues entre alegorias do desfile – Custódio Coimbra / Agência O Globo

O desfile da Imperatriz Leopoldinense deverá ser um dos mais aguardados deste carnaval. Não apenas pela grandeza da escola de Ramos, mas por conta da involuntária polêmica causada pelo enredo “Xingu — O clamor que vem da floresta”, de autoria do carnavalesco Cahê Rodrigues. Embora o tema aborde a contribuição dos indígenas à cultura brasileira e passe uma mensagem de preservação da natureza, lideranças e entidades ligadas ao agronegócio se levantaram contra a agremiação por se sentirem atacadas pelo samba.

— A polêmica nos pegou de surpresa. Nunca foi a intenção da escola agredir o agronegócio — garante Rodrigues. — O problema é que, em vez de nos procurarem para tirar qualquer dúvida, começaram a nos atacar.

O trecho que causou a revolta dos ruralistas fala sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construída na bacia do Rio Xingu, no Pará, e inaugurada no ano passado. Diz assim: “O belo monstro rouba as terras dos seus filhos, devora as matas e seca os rios, tanta riqueza que a cobiça destruiu!”. De acordo com ambientalistas, a obra produz impactos negativos na fauna e na flora locais.

— Belo monstro é uma alusão à Hidrelétrica de Belo Monte. Eles (setores ligados ao agronegócio) vestiram uma carapuça que não lhes cabia. Quando a escola desfilar, vão ver que não estamos falando deles — explica Rodrigues.

A ala 15 do desfile, “Fazendeiros e seus agrotóxicos”, também gerou protestos.

— Nossa intenção é mostrar tudo o que agride o solo sagrado do índio. Estamos fazendo um alerta. Sabemos que há empresas sérias, mas isso é uma preocupação mundial. O agrotóxico mata — comenta Rodrigues. — O enredo da escola não é um conto de fadas. Não estamos inventando histórias. Estamos falando de tudo que atinge o índio.

Com a discussão ultrapassando as fronteiras do carnaval, o presidente da Imperatriz, Luiz Pacheco Drummond, divulgou mês passado nota oficial afirmando que a agremiação não pretende atingir o “setor do agronegócio e seu trabalhadores”.

— Nossa mensagem é de preservação, respeito, tolerância e paz. Todos os que acreditam nesses valores estão convidados a celebrar conosco — afirma Drummond.

Mas, se por um lado a escola sofreu com as críticas, acabou também recebendo apoio de vários frentes. Segundo Rodrigues, a compra de fantasias aumentou depois que a polêmica começou.

— Muita gente entendeu o que nós queremos dizer. E recebemos apoio de ambientalistas e indigenistas — diz ele.

Entre os participantes do desfile estarão índios nativos do Xingu e nomes importantes da causa indígena.

— No quarto carro, o do Belo Monte, vamos trazer o Cacique Raoni, um dos principais porta-vozes contra a construção da hidrelétrica. Já no último, desfilaremos com cerca de 30 índios, todos caciques e guerreiros do Xingu — informa Rodrigues.

O carnavalesco entrou em contato com a cultura indígena há dez anos, quando começou a frequentar o Festival de Parintins, realizado todo mês de junho na cidade amazonense.

— Vou todo o ano, e aprendo muito. É um evento feito por índios. Gostei tanto que já trouxe profissionais de lá para trabalhar comigo aqui no carnaval do Rio — conta Rodrigues.

Estreante com coreógrafa da comissão de frente da agremiação, a primeira bailarina do Teatro Municipal Claudia Mota já havia entrado em contato com o tema antes do carnavalesco. E na própria Imperatriz.

— Nasci em Ramos, morei a duas quadras da escola. A primeira vez que desfilei foi na Imperatriz, fantasiada de índia! Não lembro o ano exato, mas era década de 1980 — diverte-se Claudia.

Este será o quinto carnaval da bailarina como coreógrafa de uma comissão de frente. Claudia passou também por escolas como São Clemente, Estácio de Sá (campeã em 2015, no grupo de acesso) e Império Serrano, no último carnaval.

— Tenho um carinho enorme pelo Império. Mas quando o Cahê (Rodrigues) me ligou dizendo que queria falar comigo, passei o dia inteiro ansiosa. Ainda mais porque o convite partiu do Luiz Drummond, que viu meu trabalho no Império e gostou. Fiquei orgulhosa — recorda Claudia.

Segundo ela, será uma responsabilidade muito grande, já que a Imperatriz é a escola da sua família.

— É como se fosse a minha casa. Mas não sinto medo. Estou confiante — garante a coreógrafa. — Estamos preparando várias surpresas para a comissão de frente, com um elenco muito bom. Fizemos um estudo minucioso sobre as danças características do Xingu.

NOVIDADES ALÉM DA COMISSÃO DE FRENTE

Claudia Mota não é a única novidade na Imperatriz Leopoldinense. A ela, se juntam o intérprete oficial Arthur Franco e o mestre-sala Thiaguinho Mendonça. Franco, na verdade, chegou à escola em 2014, como apoio. Agora, assume o posto de principal voz da agremiação, carregando influências bem diferentes em relação aos colegas das outras coirmãs.

— Sou músico formado em regência. Trabalho com corais e dou aulas de canto. Fiz até ópera. E ainda toco bateria e teclado — conta o intérprete, que assumiu o lugar de Marquinho Art’Samba, hoje no Império Serrano.

Antes das quadras de escolas, Franco já destilava seu talento pelos bares da cidades. Tem até disco.

— Eu trabalhava na noite e cantava de tudo. Gravei dois discos, um de rock progressivo, com a banda Sala dos Passos Perdidos (SDPP), e um solo, só de pop rock romântico, nos moldes do Roupa Nova. Fiz bastante coisa. Mas acabei mesmo me encontrando no samba-enredo — diz Franco. — Mesmo assim, sigo ouvindo outros estilos. De clássico aos rocks do Led Zeppelin, U2 e Scorpions. Gosto de boa música

O intérprete, morador de Vicente de Carvalho, começou a carreira no carnaval na Mocidade de Vicente de Carvalho, em 2009.

— Eu fugia um pouco de agremiações. Tinha uma impressão errada do que era. As pessoas ainda marginalizam o samba. Mas não tem nada disso. Samba é família, é cultura — comenta. — As pessoas dizem que tenho um timbre diferente para o carnaval. É porque eu trouxe técnicas de outras áreas. Pode ser um diferencial — aposta Franco.

Para ajudá-lo, o músico tem recebido a ajuda de uma profissional.

— A fonoaudióloga Isabel Monteiro Gomes, especialista em voz para o canto de samba-enredo, tem me acompanhado — conta.

Como intérprete oficial, será a primeira vez de Arthur Franco no Grupo Especial. Assim como ele, o mestre-sala Thiaguinho Mendonça também terá que encarar esse frio na barriga em sua estreia na Imperatriz. Porém, ele garante estar tranquilo.

— Já desfilei pela Portela, em 2015, como segundo casal. Mas não estou ansioso. Nervosismo tenho mesmo é no dia da apuração. Estamos trabalhando muito, ensaiando — diz Mendonça, referindo-se à porta-bandeira Rafaela Theodoro, que chega ao seu sétimo carnaval carregando a bandeira verde e branca. — Minha pouca experiência ensina que, se você sair de casa nervoso, vai mostrar isso na avenida. Um comando errado que eu fizer pode destruir toda a coreografia.

Para evitar situações deste tipo, Mendonça comenta que vem trocando informações com a companheira de dança Rafaela.

— Além disso, temos recebido o apoio da Claudia Mota. Ela nos dá dicas e até nos ajudou na montagem da coreografia. É o nosso braço direito — elogia Mendonça.

Com a responsabilidade de, ao lado da porta-bandeira, ter o peso de um quesito inteiro, Mendonça compara a preparação para o carnaval à de um atleta antes de uma performance esportiva.

— Malho diariamente e tenho uma alimentação balanceada. Mas, duas semanas antes do desfile começo a pegar mais leve, para não ter qualquer risco de contusão — relata Mendonça, que mora em Anchieta.

A Imperatriz Leopoldinense será a terceira escola a se apresentar na Sapucaí no domingo de carnaval.

PRECONCEITO COM O SERTANEJO

Sem conquistar o título desde 2001, ano em que faturou o primeiro tricampeonato do Sambódromo, a Imperatriz entrou na avenida para disputar o último carnaval entre as favoritas. O enredo era sobre a dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano: “É o amor… que mexe com a minha cabeça e me deixa assim… Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil”. Porém, a expectativa acabou em frustração após um sexto lugar. Muita gente na escola reclamou que os jurados não viram o desfile com bons olhos por conta do estilo musical representado pelos homenageados.

— O enredo sofreu preconceito por falar sobre uma dupla sertaneja — reclama a porta-bandeira Rafaela Theodoro. Para ela, que formou par com Rogerinho Dornelles, seu quesito foi um dos afetados. Tudo por conta das roupas do casal, que fazia alusão a um “casamento na roça”. Somente um jurado deu a eles nota máxima, acompanhada de duas notas 9,9 e um 9,8 (descartado).

— Alegaram que o nosso figurino não condizia com a majestade e o luxo necessários a um casal de mestre-sala e porta-bandeira — lamenta Rafaela.

Fonte: O Globo

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