Abertura de rodovias no AP durante a ditadura reduziu população indígena, diz relatório

Conclusão é do texto da Comissão Estadual da Verdade, que será divulgado nesta sexta-feira (31).  Brs 156 e 210 foram implantadas no regime militar.

Comissão da Verdade elaborou relatório sobre a ditadura durante três anos (Foto: Divulgação/Secom)

A expansão no interior do Amapá durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988, pode ter impactado e reduzido de forma crucial os hábitos e a população indígena das regiões Norte e Leste do estado. A hipótese de opressão e morte de nativos é uma das conclusões apontadas pelo relatório da Comissão Estadual da Verdade, que durante três anos apurou as ações do governo militar no estado, à época ainda território federal.

Os relatos de vítimas e os acesso a documentos históricos serão divulgados e disponibilizados à sociedade nesta sexta-feira (31), em cerimônia na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Macapá, a partir das 16h. Desde 2013, a comissão ouviu quase 40 relatos de pessoas que praticaram ou foram vítimas de violações de direitos humanos.

O presidente da comissão, Dorival Santos, aponta que o direito das aldeias foi infringido a partir da abertura das rodovias federais BR-156 e BR-210, que até hoje cortam comunidades indígenas. Os dados obtidos pela comissão, apesar de primários, apontam uma redução de até 60% na população das comunidades nativas entre 1960 aos dias atuais.

Tribos indígenas do Amapá ainda vivem às margens das rodovias abertas há mais de 40 anos (Foto: Divulgação/Agência Amapá)

“A abertura dessas estradas aconteceu no auge da ditadura militar, e a população indígena na época era significativa. Não temos de forma concreta, mas é possível investigar o impacto dessas estradas que também dão indicativos de que foi muito autoritária a forma como eles [índios] foram desalojados dos seus territórios”, explica Dorival, que é professor universitário.

Para a comissão, as informações obtidas podem servir de ponto de partida para apuração judicial e social dos relatos. “Precisamos entrar nas comunidades indígenas enquanto essa memória ainda pode ser revivida. É quase certo que houve uma redução da população por essas atividades de empreendimentos e projetos econômicos”, completa.

Os dados são de domínio público e serão disponibilizados pelo Governo do Amapá no formato digital. Entre as pessoas ouvidas pela comissão, destacam-se ex-servidores públicos, sindicalistas, políticos e pessoas da sociedade civil que se declararam vítimas da opressão e da violência no regime militar, que acontecia em locais como a Fortaleza de São José, em Macapá.

“As pessoas eram acusadas de ‘comunistas’, sendo que poucas delas que estão vivas se reconhecem que foram comunistas. O sistema queria estigmatizar essas figuras. Para os militares era mais uma simbologia prender essas pessoas do que propriamente elas serem um perigo para a sociedade”, diz Dorival.

Livro

Além da publicidade do relatório, o presidente da comissão lançará o livro “Entre a tortura e a Matinta Perera: uma abordagem cultural da ditadura militar no Amapá”, formulado a partir da tese de mestrado produzida por ele sobre o período. A programação ainda contará com palestras, mesa redonda e presença da pesquisadora Cristina Buarque de Holanda, uma das principais estudiosas do assunto no país.

A data de lançamento do relatório, 31 de março, foi escolhida por ser o dia em que o presidente da República João Goulart foi deposto do cargo pelos militares, que posteriormente assumiram o poder do país.

Fonte: G1

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