Fisiologismo ruralista envergonha governo e agronegócio

O sócio fundador do ISA Márcio Santilli analisa as consequências para o governo Temer da Operação Carne Fraca.  O artigo foi publicado originalmente no blog “Justificando”, da revista Carta Capital, em 27/3/2017

O erro de nomear o deputado ruralista Osmar Serraglio (PMDB-PR) para um ministério, como o da Justiça, com atribuições de alta sensibilidade política, está custando caro demais ao presidente Michel Temer (PMDB-SP). O desgaste de alçar ao cargo quem advogou em defesa de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e pretende destruir os direitos de índios e quilombolas já tinha sido grande. Agora, a senadora e ex-ministra Kátia Abreu (PMDB-TO) diz que Serraglio a pressionou em favor da indicação do representante do Ministério da Agricultura (Mapa) no Paraná, Daniel Gonçalves Filho, pivô do escândalo deflagrado com a Operação Carne Fraca da Polícia Federal, que investiga a conivência de fiscais agropecuários com a liberação da venda de carnes podres e adulteradas. O jornalista Josias de Souza informou em seu blog que Serraglio também teria pressionado Kátia Abreu a não demitir Gonçalves depois que um inquérito revelou seu envolvimento em irregularidades. Apesar disso, ele foi exonerado.

Os interesses do atual ministro da Justiça que estão em jogo ainda não estão inteiramente esclarecidos. Num telefonema grampeado pela Polícia Federal com autorização judicial, Serraglio recorre a Gonçalves para ter informações sobre uma uma inspeção sanitária num frigorífico do Paraná, chamando-o de “grande chefe”, o que indica proximidade entre ambos. Noutra escuta, o atual ministro da Justiça é chamado de “o velhinho que está conosco” por uma fiscal presa na investigação.

Por incrível que pareça, Daniel Gonçalves Filho voltou ao cargo no governo Temer, avalizado, como sempre, pela bancada ruralista do Paraná, Serraglio à frente. Com a operação policial, o atual ministro da Agricultura, senador Blairo Maggi (PP-MT), voltou a demitir Gonçalves, junto com outros 30 funcionários suspeitos de participar do esquema da carne podre. Também foi demitido outro representante do ministério em Goiás e sabe-se agora que praticamente todas as superintendências estaduais do ministério estão em mãos de indicados políticos.

Maggi tem declarado, agora, que são temerárias essas indicações políticas para funções técnicas do ministério, embora tenha atendido às reivindicações da bancada ruralista. Se a qualidade da carne pode ser tão afetada pelo fisiologismo, imagine-se o que não acontece em decorrência das nomeações levianas que vêm sendo feitas em várias áreas sensíveis de governo, inclusive na Justiça.

Quando o escândalo veio à tona, Serraglio, já empossado ministro, sumiu dos holofotes da mídia, alegando compromissos no Sul do País. Até parecia uma estratégia do próprio governo para escondê-lo, mas, depois, circularam comentários de que o presidente Temer e outros ministros teriam ficado incomodados com o desaparecimento, deixando a bomba nas mãos de Maggi e do próprio presidente.

Embora a polícia não tenha visto nos telefonemas gravados indício de crime por parte de Serraglio, a operação Carne Fraca apurou que parte da propina recebida pelos fiscais coniventes se destinava ao PMDB e ao PP, partidos que têm e tiveram o Ministério da Agricultura na sua cota fisiológica. As investigações policiais prosseguem, apesar das pressões feitas pelo governo e pelos ruralistas sobre a PF, e devem esclarecer a profundidade do envolvimento de Serraglio e de outros ruralistas no esquema.

O caso Serraglio é um “bom mau exemplo” de como o ruralismo radical, ao priorizar a proteção de franjas criminosas do agronegócio, acaba provocando sérios prejuízos aos produtores rurais, à produção agropecuária e à sociedade. Defendendo o desmatamento, a grilagem de terra, a destituição de direitos de índios e quilombolas, e as máfias que promovem a venda de carne podre para a população, a bancada ruralista atende apenas aos interesses de uma minoria, que depende da atuação de deputados – como Serraglio – para continuar agindo ilicitamente, contra a grande maioria dos produtores, que não desmata ilegalmente, não afana terra, não mantém conflitos com índios ou quilombolas e tem a sua produção injustamente posta sob suspeita.

Fonte: ISA

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