Graças à Lava a Jato, o bagre voltou para colo de Lula e outros predadores da república

Os bagres, os famosos peixe-gato, foram vitimas de uma tremenda gatunagem pelos políticos de Brasília foto: Charlene N Simmons/CC

Os bagres, cujas espécies são encontradas em diversos rios da América do Sul, são popularmente conhecidos como peixes-gato. Triste coincidência, estes animais de longos bigodes sofreram na Amazônia uma tremenda gatunagem. Graças às recentes delações premiadas da Odebrecht, sabemos que um grupo de predadores de Brasília lançou contra este peixes um ataque coordenado a partir de 2007. Para alimentar o caixa 2 de seus partidos, algumas feras do PT, PMDB e PSDB teriam recebido propinas para pressionar pelo licenciamento ambiental de hidrelétricas em Rondônia.

Projetadas para juntas gerar cerca de 7 mil megawatts, as usinas de Santo Antônio e Jirau receberam licenças do Ibama entre os anos de 2007 e 2012. Foram as primeiras grandes barragens construídas na bacia do Rio Amazonas. De cara, em seu maior afluente: o rio Madeira. Durante o licenciamento ambiental, cientistas independentes e técnicos do órgão ambiental alertaram que por ali ocorria a migração da dourada, um dos bagres mais conhecidos dos pescadores e ribeirinhos da Amazônia, seja no Brasil, Peru ou Bolívia. Interrompida esta viagem de milhares de quilômetros, disseram os analistas do Estudo de Impacto Ambiental feito pela Odebrecht, a espécie Brachyplatystoma rousseauxii poderia ser dizimada.

No dia 19 de abril de 2007, em uma reunião de seu Conselho Econômico, o então presidente Lula disparou contra o peixe-gato: “Agora não pode por causa do bagre. Jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso?”. Lula reclamava do atraso da licença ambiental às usinas do Madeira. Para ser mais preciso, o ex-presidente contestava o parecer do Ibama do dia 21 de março daquele mesmo ano, que recomendava a negativa da licença.

Em sua delação, Emílio Odebrecht informa que não à toa o ex-presidente atacou a reputação dos bagres. Eis aqui o que conta o executivo: “Em ao menos uma ocasião, encontrei-me com o então presidente Lula para solicitar que não houvesse atraso na contratação e no desembolso no financiamento de Santo Antônio junto ao BNDES, o que poderia comprometer seriamente o cronograma do empreendimento e sua viabilidade econômica-financeira para o consórcio investidor. Da mesma forma, pedi especial apoio para que não houvesse atraso na concessão de licenças ambientais, que também poderiam acarretar no atraso do apertado cronograma. Lula chegou, inclusive, a verbalizar parte da nossa insatisfação com a famosa frase: Agora não pode por causa do bagre, jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso?”

Os delatores indicam, ainda, um pagamento total de R$80 milhões em propinas para a construção da Usina Santo Antônio, de acordo com O Estado de S. Paulo.

Confira as hidrelétricas projetadas e em operação na Amazônia

Os bagres, espécies do grupo dos siluriformes, são peixes sem escamas – peixes de couro, como se diz na Amazônia. Mas, por mais curtidas que sejam suas couraças, não se mostraram páreos aos inimigos do alto escalão do legislativo e executivo.. As mesmas delações de Emílio Odebrecht que reconhecem os bons serviços de Lula revelam que o deputado Eduardo Cunha (PMDB), o então ministro de Minas e Energia Edison Lobão (PMDB) e o presidente do PSDB, o senador Aécio Neves, teriam sido escalados para uma operação chamada “Projeto Madeira” cujo objetivo era reverter os reveses causados pelo Ibama. A recompensa? Propina para as campanhas eleitorais.

Nesta história toda o que não ficou muito claro é como de fato ocorreu o diálogo com a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede). Corre a lenda, propagada inclusive pela imprensa, que o embate em torno do licenciamento das usinas do Madeira teriam levado ao seu pedido de demissão do governo Lula.

Os fatos não condizem com esta interpretação. A atual líder do partido Rede deixou o governo um ano depois que seus indicados à presidência e diretoria do Ibama assinaram a licença prévia da primeira usina no Madeira. Aliás, até pouco tempo atrás, era possível ouvir a ex-senadora citando o licenciamento de Santo Antônio como bom exemplo de sua disposição de dialogar com os empreendedores e encontrar medidas para mitigar os impactos ambientais.

No caso das usinas no Madeira, a solução para evitar a redução da população de bagres migradores foi a construção de escadas para peixe junto às barragens. Funcionou? Os primeiros resultados, a serem publicados por pesquisadores contratados pelas próprios consórcios construtores, ainda não são conclusivos. O que os estudos inicialmente revelam é que, em sua fase de maturação, depois de serem desovados nas cabeceiras do Rio Madeira na Bolívia e no Peru, os filhotes da dourada consegue ultrapassar, rio abaixo, as barragens. O caminho rio acima, quando os peixes já estão maiores, não é tão bem sucedido.

Confira o ciclo de vida da dourada em animação da Wildlife Conservation Society (WCS)

Nós brasileiros, ao contrário dos bagres, habitamos apenas o território da nação e pagamos impostos, certos de que os líderes da matilha construirão as estradas, aeroportos e linhas de metrô que nos permitem viajar alguns quilômetros.

Se temos isso, podemos nos perguntar: o que nos importa se a dourada deixará de viajar do Brasil a Bolívia pelo rio Madeira? Uma opção seria lembrar que os peixes afetados servem de alimento a milhares – senão a milhões – de habitantes da Amazônia.

Entretanto, a questão ética está além do bem estar humano. Se um presidente da República, seus ministros e aliados permitem que, por corrupção, toda uma espécie possa ser dizimada, existe aí um crime. Para registro, no Tribunal Penal Internacional de Haia já é possível abrir julgamentos por crimes ambientais.

Por: Gustavo Faleiros
Fonte: InfoAmazônia

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