Livros contra o crime

Na beira do rio, Machado de Assis e Júlio Verne viram ‘armas’ na floresta

Perto de meio-dia. A turma de 15 alunos já deixou a sala de aula e correu para casa. Em sua mesa, o professor José Cruz Queiroz do Nascimento permanece atrás de provas e exercícios. Na pequena escola da “Comunidade Contrabando”, na fronteira do Peru com o Brasil, Nascimento tenta fazer a diferença na vida de crianças que nascem nas vilas espalhadas ao longo do Rio Javari.

A sala de aula é uma grande casa de madeira com assoalho suspenso para os tempos de cheia. Apesar do calor forte e da umidade amazônica, o ar é fresco dentro da escola. Nas poucas cadeiras, os alunos da primeira e da quinta séries do ensino fundamental dividem a atenção do professor. Diariamente, Nascimento, de 43 anos, pega o barco em Atalaia do Norte e sobe o rio para chegar à escola.

Nas estantes de livros, o exemplar mais gasto é uma cartilha que leva o nome de Saberes e Fazeres do Campo. Mas também há espaço para Os trabalhadores do Mar, romance de Victor Hugo, para os gêmeos Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e ainda para A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne.

Leia também: Proteção do exterior

A saga nos rios: Índios viajam dias e noites para buscar apoio e serviços de saúde nas cidades

Na trilha dos cartulhos

“Sou professor há 14 anos. Nesse tempo, aprendi que a gente precisa ensinar de tudo para esses meninos, para serem pessoas melhores”, diz Nascimento. “As condições aqui são precárias mesmo, as crianças têm pouco acesso ao que acontece lá fora e acabam só se baseando no que veem ao redor delas. Os livros ajudam a educar e a abrir o mundo para elas.”

A vida dos ribeirinhos conta no entorno da terra indígena os desafios do trabalho, da educação e da saúde

É o que espera José Vieira Barros, de 85 anos, que tem bisnetos na escola.  Soldado da borracha, Barros nasceu no meio das seringueiras.  Desde os 12 anos, conta, ajudava o pai a retirar o látex da casca das árvores para alimentar a indústria da borracha.  “Trabalhei na seringa até os 60 anos”, conta, enquanto busca a faca da seringa guardada no armário de casa.  “Criei minha família na seringa, mas estou brigando até hoje pra comprovar que fui soldado da borracha, pra receber o que tenho direito.”

Índios da etnia marubo saem de barco no Brasil e seguem até a margem peruana do Rio Javari para jogar bola em campinhos improvisados. Foto: Werther Santana
Mãos de José Vieira, de 85 anos, seringueiro desde os 12, morador nas margens do Rio Javari, na fronteira entre o Brasil e o Peru. Foto: Werther Santana
José Vieira de Barros, 85 anos, tenta provar que passou a vida trabalhando como soldado da borracha para receber indenização do governo. Foto: Werther Santana

O Ministério da Previdência Social prevê o pagamento de uma indenização no valor de R$ 25 mil para os soldados da borracha, como são conhecidos os seringueiros que atuaram na extração de látex durante a 2.ª Guerra Mundial. Os dependentes dos seringueiros que já morreram também têm direito à indenização. Barros ainda não entrou para as estatísticas dos 11.900 beneficiários calculados pelo governo.

Pelas salas de aula que lutam para educar o Javari é possível encontrar ainda escolas trilíngues. Na Escola Estadual Indígena Professor Gildo Sampaio Megatanücü, na Comunidade Filadélfia, em Benjamin Constant, as aulas são dadas em português, espanhol e ticuna, para educação de índios que já vivem nas cidades. “Temos 1,2 mil alunos. A maioria é indígena”, conta a professora de Geografia, Cássia Mesquita. “Mas há também peruanos e brasileiros.”

Por: André Borges
Fonte: O Estado de São Paulo

Deixe um comentário