Cientistas vão usar tecnologia inédita para monitorar botos na Bacia Amazônica

Equipamentos vão acompanhar os deslocamentos dos animais pelos rios. Instalação dos primeiros aparelhos está marcada para outubro de 2017.

Um grupo de pesquisadores e cientistas de cinco países amazônicos – Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia e Equador – dará início, nos próximos meses, a um inédito e ambicioso trabalho: com o objetivo de obter informações sobre os botos na Bacia Amazônica, eles vão instalar nos animais pequenos aparelhos, chamados tags satelitais, que vão gerar dados e informações sobre o comportamento dos golfinhos de água doce.

Essas tags são pequenos “grampos”, instalados na nadadeira dorsal dos botos, capazes de enviar informações em tempo real sobre a localização do animal via satélite. Eles são um meio mais prático, rápido e barato de gerar informações sobre os bichos, e têm potencial para aperfeiçoar os trabalhos de conservação dos botos feitos hoje na América do Sul.

A líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, Miriam Marmontel, afirmou que a questão das tecnologias é um dos aspectos mais promissores deste trabalho. “O uso das tags pode trazer um mundo de informações sobre os animais de forma muito rápida. Informações como dinâmicas populacionais, mortalidade e parâmetros reprodutivos, ainda precisamos de tudo isso para ter uma ideia mais clara do status desta espécie”, contou a pesquisadora.

Regiões prioritárias

A ideia é obter informações sobre o comportamento dos botos por toda a Bacia Amazônica, como habitats preferidos, fluxos migratórios, diferenças de hábitos entre machos e fêmeas; e gerar informações científicas confiáveis e consistentes sobre as espécies existentes na América do Sul (a Sotalia fluviatilis, a Inia geoffrensis, a Inia boliviensis e a Inia araguaiaensis).

Neste primeiro momento, serão instaladas tags em 15 animais, em três pontos diferentes: a região do Alto Tapajós, no Brasil; a região de Putumayo, na fronteira entre Equador, Peru, Colômbia e Brasil; e no rio Madeira, no trecho fronteiriço entre Bolívia e Brasil. As primeiras incursões a campo e as instalações das primeiras tags já estão agendadas para a primeira quinzena de outubro de 2017.

Ações urgentes

Com essa iniciativa, além de monitorar a localização dos animais, será possível, entre outras coisas, coletar material genético dos botos durante as capturas; fazer análises de contaminação desses animais por mercúrio, visto que o garimpo é um problema existente por toda a Bacia Amazônica; e coletar “DNA ambiental”, ou seja, coletar amostras das águas onde os botos nadam, permitindo conhecer detalhes dos ambientes frequentados pelos bichos – como possíveis contaminações, ausência de nutrientes, nível de acidez e populações de outras espécies.

Será possível ainda, por meio deste trabalho, posicionar o boto globalmente como uma “espécie em situação crítica” na Amazônia. Hoje, segundo a lista vermelha da IUCN, que cataloga o status de conservação de diversos animais, os botos amazônicos estão na categoria de “dados insuficientes”. Os pesquisadores da região, no entanto, não têm dúvidas de que as populações desses animais estão diminuindo com o passar do tempo, e que ajustar a categoria das espécies e aperfeiçoar os trabalhos de conservação dos botos é importante e urgente.

Estudos e técnicas

Para o especialista de conservação do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira, as informações geradas por esses estudos vão ajudar a melhorar as políticas públicas brasileiras e transfronteiriças.

“Com os dados que vamos obter, será possível argumentar de forma mais eficiente quando falarmos, por exemplo, dos impactos das grandes obras de infraestrutura na Amazônia, como as hidrelétricas. Além disso, vamos começar a estudar os botos por bacias, e não por País – os animais, afinal, não reconhecem fronteiras e transitam por toda a Bacia Amazônica”, disse.

Impactos

Para o pesquisador da Fundación Omacha Fernando Trujillo, o uso das tags vai permitir “conhecer as respostas para várias perguntas”. “No caso dos rios Tapajós e Madeira, queremos saber quais são os impactos nas populações de botos decorrentes da instalação das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. No rio Putumayo, por sua vez, queremos estudar os deslocamentos do animal num ambiente que ainda não teve esse tipo de impacto”, explicou.

A Fundación Omacha é uma organização não-governamental que trabalha com a conservação de botos há 30 anos na Colômbia – uma referência neste tipo de trabalho na América do Sul.

Participam desta iniciativa pesquisadores do Instituto Mamirauá (BR), da Fundación Omacha (COL), da FaunAgua (BOL), da Pro Delphinus (PER) e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CEPAM/ICMBio). Profissionais dos escritórios WWF de Brasil, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia também estão envolvidos.

Ameaças

Nos últimos anos, ameaças aos habitats e à sobrevivência dos botos têm aumentado por toda a Amazônia. Algumas dessas ameaças são projetos de infraestrutura, como hidrelétricas; a contaminação das águas dos rios amazônicos por mercúrio vindo de garimpos; e a captura causada pela demanda de iscas para a pesca da Piracatinga (Calophysus macropterus).

O grupo de pesquisadores já planeja uma série de ações para os próximos meses, como a revisão e atualização do plano de ação sulamericano de conservação de golfinhos de rio; a integração das bases de dados relativas aos botos existentes para toda a Amazônia; e o desenvolvimento e uso de tecnologias inovadoras, como estudos de vocalizações dos botos e uso de drones para estudos populacionais.

Fonte: Instituto Mamirauá

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*