Chacina no Pará: depoimentos indicam que polícia agia em associação com fazendeiros

Enterro dos trabalhadores rurais mortos na chacina de Pau D’Arco (PA). Foto: Antonio Carlos/Repórter Brasil

Novo depoimento fortalece suspeita de que policiais civis trabalhavam em associação com os seguranças da fazenda Santa Lúcia, onde houve a chacina de dez trabalhadores rurais sem-terra no Pará. Eles foram assassinados durante operação das polícias Civil e Militar no dia 24 de maio em Pau D’Arco. Foi a maior chacina no campo dos últimos 20 anos.

A propriedade foi herança de Honorato Babinski a sua mulher, Maria Inez Resplande de Carvalho, e a três filhos. A fazenda Santa Lúcia está no nome de um deles, Honorato Babinski Filho.

Essa não foi a primeira vez que a polícia matou dentro das terras da família Babinski. Em 2013, em caso que ocorreu na fazenda Pantanal, de Maria Inez Resplande de Carvalho, testemunha afirma que a pecuarista pagou um agente da Polícia Civil para retirar posseiros de sua terra. Dias depois, em ação na mesma propriedade, outro grupo da Polícia Civil atirou e matou o funcionário que teria feito o pagamento.

A denúncia sobre o suposto pagamento de propina é um dos elementos da investigação que busca descobrir se um grupo da Polícia Civil paraense estaria trabalhando ilicitamente na defesa dos interesses dos Babinski.

A testemunha, Elizete Gomes da Silva, falou com exclusividade à Repórter Brasil. Seu depoimento foi colhido pelo promotor Alfredo Amorim, responsável pela investigação sobre a chacina no Ministério Público Estadual. O caso está sendo investigado também pela PF (Polícia Federal).

Elizete está expondo sua vida ao denunciar a suposta corrupção policial em Redenção, cidade onde vive e que fica a 891 km de Belém. Ela foi a única entrevistada pela reportagem que concordou em publicar seu nome junto com as denúncias sobre a polícia. O medo ronda as testemunhas e pessoas que têm informações sobre a chacina. Há atualmente seis sobreviventes no programa de proteção a testemunhas.

Apesar da presença da PF na região, o conflito continua a se desenrolar. Na última sexta-feira (7), houve mais um assassinato relacionado à fazenda Santa Lúcia.

Nessa segunda-feira, a Justiça estadual decretou a prisão de 13 dos 29 policiais que participaram da operação. Entre os presos, 11 são policiais militares. Entre eles está o subcomandante da Polícia Militar de Redenção, Carlos Kened Gonçalves de Sousa. Segundo informações de jornais locais, ele e o delegado da Delegacia de Conflitos Agrários, Valdivino Miranda, que comandou a ação na fazenda, buscaram a Polícia Federal para negociar um acordo de delação premiada.

Testemunha diz que levou dinheiro a policial em 2013

Se comprovada, a denúncia feita por Elizete é grave. Ela era casada com Leomar Almeida da Silva, “pistoleiro” ou “segurança” da fazenda Pantanal. Os termos “seguranças” e “pistoleiros” são usados na região para definir os homens contratados por fazendeiros para fazer a proteção de suas terras. A prática é antiga, e nos últimos anos surgiram empresas de seguranças privadas com licença para oferecer o serviço de modo formal.

Elizete conta que seu marido fora contratado pela pecuarista Maria Inez em 2013 para proteger a fazenda Pantanal contra a entrada de posseiros. Segundo ela, uma das atribuições de Leomar foi pagar a polícia para fazer uma vistoria na área. A mando da proprietária, ele teria levado a primeira parcela de R$ 2.000 a um policial civil de Redenção. Depois de feita a vistoria na área, Elizete teria pago pessoalmente a segunda parcela, de R$ 1.000, entregando o dinheiro “em mãos” ao policial civil.

Alguns dias depois, em 18 de outubro de 2013, a Polícia Civil foi à fazenda e atirou contra um grupo recém-contratado para proteger a área. Leomar foi o único morto na ação. Segundo o inquérito aberto sobre o caso, Leomar morreu na casa do gerente da fazenda, onde passava a noite com grupo recém-contratado para proteger a área

À época, a Polícia Civil divulgou à imprensa local que a operação atendia denúncia sobre um grupo armado que estava na fazenda Pantanal. Leomar foi acusado pela polícia de ser chefe de um bando “responsável por assaltos a bancos, tráfico de drogas e invasão de fazendas”, conforme publicado por um jornal local.

Elizete diz que Leomar nunca se envolveu em atividades criminosas e saiu em defesa do marido, denunciando o esquema da propina à Corregedoria da Polícia Civil, que abriu uma Apuração Administrativa Interna em janeiro de 2014.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará afirma que, “com a conclusão da apuração realizada pela Corregedoria Geral, o resultado foi o arquivamento do processo administrativo por improcedência da denúncia”.

Um inquérito criminal foi aberto para apurar a morte de Leomar, no qual o depoimento de Elizete também foi colhido. O processo aguarda julgamento na Justiça estadual.

Procurada pela reportagem, a pecuarista não respondeu as perguntas sobre a fazenda Pantanal. A sua advogada, Olga Moreira, afirmou que o processo ainda está em fase de apuração e, por isso, sua cliente prefere não se manifestar.

Associação entre polícia e seguranças

O depoimento de Elizete não é o único elemento que sugere que a polícia paraense estaria trabalhando em associação com os pecuaristas.

Outra evidência que aponta nessa direção é o fato de os seguranças da fazenda Santa Lúcia terem participado da ação policial que culminou na chacina do dia 24 de maio, conforme foi confirmado pelo promotor do caso, Alfredo Amorim. “É totalmente irregular a participação dos seguranças e pelo menos um deles estava armado. Eu sei que estavam de serviço para a fazenda”, disse Amorim em entrevista à TV Liberal.

Honorato Babinski Filho, dono da fazenda, afirma que a responsabilidade sobre administração dos seus vigilantes compete ao chefe da empresa Elmo, contratada por ele para fazer a segurança da fazenda. “Não tinha conhecimento do andamento do trabalho da polícia e da mesma forma desconheço que os vigilantes tenham participado.”

A participação dos seguranças privados corrobora uma das suspeitas para a motivação do crime: vingança. Isso porque, no dia da chacina, a polícia entrara na fazenda para cumprir mandados de prisão de dez trabalhadores sem-terra investigados pelo assassinato de Marcos Batista Ramos Montenegro, um dos seguranças da fazenda. Marcos morreu com um tiro no rosto no dia 30 de abril –menos de um mês antes da chacina.

Sobreviventes narram ter ouvido a voz do superintendente da Polícia Civil de Redenção, Antônio Miranda, comandando as execuções. Oficialmente, o superintendente não participou da operação que resultou na chacina.

“Eu ouvi o Miranda  falando: ‘É pra matar'”, diz uma testemunha que se escondia a cerca de 70 metros do local. “Os outros tavam chorando. Eu ouvi, eles falavam: ‘Eu não vou correr, não, pelo amor de Deus’. Eles estavam vivos. Ouvi as pancadas, e depois não ouvia mais eles falando. Só murmúrio, gemendo. [Os policiais] riam e gritavam. A voz do Miranda [estava] alta, alterada, comemorando.”

Procurada pela reportagem sobre a denúncia, a Secretaria de Segurança do Pará afirma que o superintendente Antonio Miranda não estava presente na operação. “Por isso, não há necessidade de ser investigado”, informa a nota. O superintendente não foi afastado de suas funções.

A versão de confronto, inicialmente apresentada pela polícia, foi descartada pelo promotor que investiga o caso. Sobreviventes relataram que os policiais chegaram atirando e, depois de render alguns trabalhadores, torturam e executaram um por um.

Fonte: UOL

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